Reparei que o nosso dirigente, insulado na relva macia, assumia a mesma posição de instrumento mediúnico, qual acontecera na reunião que vínhamos de efetuar, porque me entregou, confiante, a direção da assembleia, o que aceitei, dentro de preocupação extrema, embora sem hesitar. Providenciada semelhante medida, Gúbio passou a elevada condição mental, por intermédio da oração. Acompanhamo-lo, reverentes. Não havia gosto para conversações estranhas ao problema delicado daquela hora. Demorávamo-nos em observação expectante, quando ruído longínquo nos anunciou a alteração dos acontecimentos. O Instrutor, não obstante palidíssimo, dando-nos a ideia de que já se achava em comunicação com entidades superiores e imperceptíveis ao nosso olhar, mais uma vez nos exortou ao silêncio, à paciência, à serenidade e à prece, recomendando-nos seguir todos os fatos, sem revolta, sem mágoa e sem desânimo. Não foi preciso esperar muito. Alguns minutos se desdobraram apressados e Gregório, com algumas dezenas de assalariados, surgiu em campo, investindo-nos com palavrões que se caracterizavam pela dureza e violência. Os recém-chegados apareceram acompanhados de grande cópia de animais, em maioria monstruosos. Noutras circunstâncias, sem a bênção do aviso salutar, provavelmente teríamos debandado, mas Gúbio, cuja superioridade conhecíamos por experiência própria, ali se mantinha, resoluto e imperturbável, emitindo ondas de luminosidade intensa, veiculando forças magnéticas, imponderáveis, que, dirigidas sobre nós, como que nos supria de recursos necessários ao procedimento irrepreensível. Por mim, ao reparar as máscaras sinistras que se abeiravam de nós, confesso que, em tempo algum, senti tamanha ameaça de medo e tão profundo contágio de confiança. O sacerdote das sombras avançou para o nosso orientador, à semelhança de general parlamentando na praça, antes de começar a batalha, e acusou sem rodeios:
— Miserável hipnotizador de servos ingênuos, onde se alinham tuas armas para o duelo desta hora? Não contente em prejudicar-me os projetos mais íntimos, num problema de ordem pessoal, aliciaste numerosos colaboradores meus, em nome de um Mestre que não ofereceu aos que o acompanharam senão sarcasmo, martírio e crucificação! Acreditas, porventura, esteja eu disposto, por minha vez, a aceitar princípios que relaxam a dignidade humana? Admites, acaso, permaneça, a meu turno, fascinado pelos feiticeiros de tua estirpe? Traidor da palavra empenhada, confundir-te-ei os poderes de bruxo desconhecido! Não creio no amor açucarado que elegeste por senha de luta! Creio na força que governa a vida e que te dobrará, igualmente, aos meus pés! Percebendo que o nosso orientador não se erguia, como que chumbado ao solo, compelido por indefinível prostração, não obstante cercado de intensa luz, o sacerdote dos mistérios negros, acariciando os copos da espada luzente, acentuou, irado:
— Covarde, não te levantas para ouvir-me a acusação justa e digna? Perdeste também o brio, semelhando-te a quantos te antecederam no movimento de humilhação que persiste no mundo, há quase dois mil anos? Também, noutra época, acreditei na celestial proteção através da atividade religiosa, nos ideais em que hoje te empenhas. Entendi, contudo, a tempo, que o Trono Divino paira distante demais para que nos preocupemos em alcançá-lo. Não há um Deus misericordioso e, sim, uma Causa que dirige. Essa causa é inteligência e não, sentimento. Encastelei-me, assim, na força determinativa para não soçobrar. O “querer”, o “mandar” e o “poder” estão em minhas mãos. Se tuas mágicas prevalecem acima dos princípios que consagro e defendo, aceita a luva que te lanço à face! Combatamos! Gregório espraiou torvo olhar pela assistência muda e exclamou:
— Aqui descansam inermes, ao teu lado, os meus colaboradores que adormeceram, vergonhosamente, ao teu cântico sedutor; entretanto, cada qual deles me pagará, muito caro, a defecção e a desobediência. Fixou, com mais atenção, os olhos felinos na assembleia, mas, exceto eu, que deveria permanecer atento à tarefa direcional que me fora cometida, ninguém ousou modificar a atitude de profunda concentração nos propósitos de humildade e amor a que fôramos conclamados. Demonstrando acentuado desapontamento, em face dos insultos sem resposta, o temível diretor de legiões sombrias abeirou-se, mais estreitamente, de nosso Instrutor sereno e bradou:
— Levantar-te-ei, por mim mesmo, usando os sopapos que mereces. Antes, porém, que conseguisse ligar o intento à ação, delicado aparelho luminoso surgiu no alto, à maneira de garganta improvisada em fluidos radiantes, como as que se formam nas sessões de voz direta, entre os encarnados, e a voz cristalina e terna de Matilde ressoou, acima de nossas cabeças, exortando-o, com amorosa firmeza:
— Gregório, não enregeles o coração quando o Senhor te chama, por mil modos, ao trabalho renovador! O teu longo período de dureza e secura está terminado. Não intentes contra os abençoados aguilhões de nosso Eterno Pai! O espinho fere, enquanto o fogo o não consome; e a pedra mostra resistência, enquanto o fio d’água a não desgasta! Para a tua alma, filho meu, findou a noite em que a tua razão se eclipsou no mal. A ignorância pode muito; no entanto, é simples nada quando a sabedoria espalha os seus avisos. Não admitas que os monstros da negra magia te alimentem o coração com a felicidade desejável! O temido perseguidor mantinha-se confundido, semi-aterrado, ao passo que nós mesmos, os circunstantes ligados à missão de Gúbio, não conseguíamos dissimular a imensa surpresa que nos dominava, ante o quadro imponente e inesperado. Compreendi que a benfeitora se valia dos fluidos vitais de nosso orientador para exprimir-se, naquele Plano, qual o fizera, horas antes, na residência de Margarida. O sacerdote transviado, num complexo de espanto, rebelião e amargura, tinha agora o aspecto de uma fera enjaulada.
— Acreditas, porventura, — prosseguiu a voz materna, adulçorada, — que o amor pode alterar-se no curso do tempo? Supuseste, um dia, que eu te pudesse esquecer? Olvidaste a imantação de nossos destinos? Peregrine minhalma através de mil mundos, suspirarei sempre pela integração de nossos Espíritos. A luz sublime do amor que nos arde nos sentimentos mais profundos pode resplandecer nos precipícios infernais, atraindo para o Senhor aqueles que amamos. Gregório, ressurge! E, numa inflexão de lágrimas que desarmaria o raciocínio mais enrijecido, acentuou: Lembra-te! Deixaste morrer nos séculos os projetos de amor que traçamos na Toscana e na Lombardia distantes? Esqueceste nossos votos ao pé dos altares humildes? Olvidaste as cruzes de pedra que nos ouviam as orações? Não prometemos ambos trabalhar em comum pela purificação dos santuários de Deus na Terra? Sempre grande e belo no combate à política venal dos homens, cristalizaste na mente os desvarios do orgulho e da vaidade, adquiridos ao contato de uma coroa putrescível. Afogaste ideais preciosos na corrente de ouro mundano e perdeste a visão dos horizontes divinos, mergulhando-te na sombra dos cálculos pela extensão do império de teus caprichos. Incensaste a grandeza dos poderosos do mundo em desfavor dos humildes; incentivaste a tirania espiritual, crendo-te possuidor de autoridade infalível, e supunhas que o Céu, além da morte, nada mais fosse que simples cópia dos Tribunais e das Cortes da Terra. Tremendos desenganos surpreenderam-te o despertar, e, embora humilhado e padecente, coagulaste os pensamentos no ácido venenoso da revolta e elegeste a escravização das inteligências inferiores por única posição digna de conquistar. Durante séculos, tens sido apenas rude disciplinador de almas criminosas e perturbadas que o túmulo encontrou na imprudência e no vício. Não te doerá, porém, filho meu, a triste condição de gênio desprezível? Semelhante pergunta não morre sem resposta. Falam por ti o imenso tédio do mal e a profunda solidão interior que presentemente te invadem as horas. Aprendeste com infinito desapontamento que os tesouros divinos não repousam em frias arcas de valores amoedados, e sabes, agora, que Jesus dispõe de escasso tempo para frequentar basílicas suntuosas, não obstante respeitáveis, porque da escura senda humana emergem soluços de peregrinos sem luz e sem lar, sem arrimo e sem pão… Via-se que a benfeitora, quase asfixiada pela emoção, apresentava enorme dificuldade para continuar, mas, após longa pausa, que ninguém ousou interromper, prosseguiu, comovida:
— Como pudeste esquecer, por alguns dias de autoridade efêmera na Terra, as nossas redentoras visões do Cristo angustiado na cruz? Aderiste aos Dragões do Mal pela simples verificação de que a tiara passageira não te poderia aureolar a cabeça nos domínios da vida eterna a que a morte nos arrebatou; entretanto, o Divino Amigo jamais descreu das nossas promessas de serviço e espera por nós com a mesma abnegação do princípio. Vamos! Sou Matilde, alma de tua alma, que, um dia, te adotou por filho querido e a quem amaste como dedicada mãe espiritual. Calou-se a voz da mensageira, interditada pela corrente de pranto. Foi então que Gregório, fazendo quanto lhe era possível por manter-se de pé, gritou, como ansioso por fugir a si mesmo.
— Não creio! Não creio! Estou só! Consagrei-me ao serviço das sombras e não tenho outros compromissos. Trasbordava-lhe da voz menos altiva um tom de pavor indescritível. Parecia disposto à fuga, francamente transformado.