Capítulo 20
Mas, ante a assembleia extática e silenciosa, mantinha-se magnetizado pela palavra da benfeitora que se fazia ouvir, austera e doce, bela e terrível, escalpelando-lhe a consciência. Espraiou o olhar de leão ferido através de todos os ângulos do campo que nos situava, e, sentindo-se no centro de quantos assistiam, ali, atônitos, à cena inesperada, exteriorizou na expressão fisionômica todo o desespero extremo que lhe vagava nalma, arrancou a espada da bainha e bradou encolerizado: — Vim para combater, não para argumentar. Não temo sortilégios. Sou um chefe e não posso perder os minutos com palavras tergiversantes. Não admito a presença de minha mãe espiritual de outras eras. Conheço as artimanhas dos fascinadores e não tenho outra alternativa senão duelar. Fitando a delicada forma de luz que pairava no espaço, acrescentou: — Por quem és! Anjo ou demônio, aparece e combate! Aceitas meu desafio? — Sim… — respondeu Matilde, com ternura e humildade. — Tua espada?! — Trovejou Gregório, arquejante. — Vê-la-ás dentro em breve… Após alguns momentos de ansiosa expectativa, apagou-se a garganta luminosa que brilhava sobre nós, mas leve massa radiante e disforme surgiu, não longe, à nossa vista. Compreendi que a valorosa emissária se materializaria, ali mesmo, utilizando os fluidos vitais que o nosso orientador lhe forneceria. Júbilo e assombro dominavam a assembleia. Em poucos instantes, erguia-se Matilde, ao nosso olhar, de rosto velado por véu de gaze tenuíssima. A túnica alva e luminescente, aliada ao porte esguio e nobre, sob a auréola de safirina luz de que se tocava, traziam à lembrança alguma encantada madona da Idade Média, em repentina aparição. Adiantava-se, digna e calma, na direção do sombrio perseguidor; todavia, Gregório, perturbado e impaciente, atacou-a de longe e empunhou a lâmina em riste, exclamando, resoluto: — Às armas! Às armas!… Matilde estacou, serena e humilde, embora imponente e bela, com a majestade de uma rainha coroada de sol. Decorridos alguns instantes ligeiros, movimentou-se novamente e, alçando a destra radiosa até ao coração, caminhou para ele, afirmando, em voz doce e terna: — Eu não tenho outra espada, senão a do amor com que sempre te amei! E de súbito desvelou o semblante vestalino, revelando-lhe a individualidade num dilúvio de intensa luz. Contemplando-lhe, então, a beleza suave e sublime, banhada de lágrimas, e sentindo-lhe as irradiações enternecedoras dos braços que, agora, se lhe abriam, envolventes e acolhedores, Gregório deixou cair a lâmina acerada e de joelhos se prosternou, bradando: — Mãe! Minha mãe! Minha mãe!… Matilde enlaçou-o e exclamou: — Meu filho! Meu filho! Deus te abençoe! Quero-te mais que nunca! Verificara-se, ali, naquele abraço, espantoso choque entre a luz e a treva, e a treva não resistiu… Gregório, como que abalado nos refolhos do ser, regressara à fragilidade infantil, em pleno desmaio da força que o sustinha. Finalmente, iniciara sua libertação. A benfeitora, enlevada, recolhera-o, enlanguescido, nos braços, enquanto numerosos membros da sombria falange fugiam espavoridos. Matilde, vitoriosa, agradeceu em palavras que nos faziam vibrar as fibras mais recônditas da alma, e, em seguida, confiou aos nossos cuidados o filho vencido, asseverando-nos que o abnegado Gúbio se encarregaria de guardar, por algum tempo, aquele que ela considerava o seu divino tesouro. Após abraçar-nos, generosa, desmaterializou-se ao nosso coro de hosanas, a fim de seguir, de mais longe, a preparação do futuro glorioso. Refez-se o nosso orientador, reintegrando-se em nosso grupo de serviço. Edificado, feliz, Gúbio sustentou Gregório, inerte, nos braços à maneira do cristão fiel que se orgulha de suportar o companheiro menos feliz. Orou, cercado de claridade santificante, arrancando-nos lágrimas irreprimíveis de alegria e reconhecimento e, depois, ante a paz que se estabelecera, triunfante e ditosa, deu por finda a nossa tarefa, dispondo-se a guiar a heterogênea, mas expressiva coletividade de novos estudantes do bem, recolhidos nos trabalhos de salvação de Margarida, até a importante e abençoada colônia de trabalho regenerador. Surgira, para mim, a despedida. Tinha meus olhos úmidos de pranto. O Instrutor abraçou-me e, retendo-me junto do coração, falou, bondoso: — Jesus te recompense, filho meu, pelo papel que desempenhaste nesta jornada de libertação. Nunca te esqueças de que o amor vence todo ódio e de que o bem aniquila todo mal. Quis responder, esclarecendo que somente a mim, discípulo inábil, cabia o dever de gratidão; todavia, incoercível emotividade prendeu-me a voz. O orientador, no entanto, leu-me no olhar os sentimentos mais profundos e sorriu, em retirada. Elói, também, rumou para longe, em busca de outros setores. E voltando, sozinho, ao meu domicílio espiritual, roguei, chorando: — Mestre de Bondade Infinita, não me abandones! Ampara-me a insuficiência de servo imperfeito e infiel! Em torno, reinava insondável e sublime silêncio. Mas, enquanto o horizonte se tingia de rubro, preludiando a festa da aurora, a estrela matutina brilhava, tremeluzindo aos meus olhos, qual celeste resposta de luz.
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