CAPÍTULO XVII - CANAIS DE COMUNICAÇÃO: CONTRIBUIÇÃO DOS AMIGOS ESPIRITUAIS
Na elaboração deste livro não nutri a tola pretensão de esgotar o assunto, escrevendo uma espécie de tratado definitivo acerca da mediunidade.
O projeto foi bem menos ambicioso, mesmo porque tinha de ser compatível com as minhas limitações. O plano diretor consistiu em confrontar a experiência de cerca de duas décadas no trato das faculdades mediúnicas, em plena atividade, com leituras não menos intensas e extensas sobre o assunto, que sempre exerceu sobre mim irresistível atração.
Em muitas oportunidades, movido pela ânsia de entender melhor certos enigmas e complexidades, pude sentir insuficiências de conhecimentos que me impediam a penetração mais profunda na temática. Sempre que achei prudente ou admissível, procurei formular hipóteses plausíveis, ao passo que, em outros aspectos, não me atrevi nem me arrisquei a conceitos meramente especulativos, que iriam apenas acrescentar um componente de incerteza ao que, já de si mesmo, é difícil.
Num desses aspectos mais complexos e sutis, porém, os queridos amigos espirituais, que estiveram sempre atentos durante a elaboração do trabalho, resolveram trazer-nos uma contribuição direta.
É sobre o que vamos conversar a seguir, ou seja, acerca do mecanismo específico da própria comunicação, ficando desde já entendido que a exposição é de minha autoria, mas os ensinamentos nela contidos provêem da experiência pessoal de companheiros espirituais muito queridos e consideravelmente mais competentes no assunto do que eu.
Já vimos alhures que comunicar é tornar comum, ou seja difundir, divulgar, disseminar, transmitir idéias. Reduzido à sua expressão mais simples, o processo poderia ser figurado como um ponto de origem e outro de destinação de idéias, interligados por um sistema qualquer de transmissão. O jargão da moderna eletrônica encontrou a palavra certa para este sistema, chamando-o de canal. De fato, a comunicação flui através de um canal entre a fonte geradora e o seu destinatário.
Dois tipos de canais servem ao processo da comunicação mediúnica: os condutores, localizados no perispírito do médium, e os expressores, que se situam no seu cérebro físico, distribuídos estes últimos pelos diversos segmentos que comandam os sentidos, expressão corporal e facial, gesticulação, fala, habilidades manuais, como escrita, desenho e outras.
São, portanto, os canais condutores que funcionam como elementos de ligação entre o espírito do médium e seu corpo físico, veículos do pensamento gerado pela individualidade espiritual do próprio sensitivo e que também servem a pensamentos alheios.
No fenômeno anímico, que poderíamos comparar a um circuito interno, fechado sobre si mesmo, pensamentos emitidos pela unidade central individualidade circulam pelos canais perispirituais e vão ao cérebro, ou , estimulam os canais expressores que, por sua vez, irão expedir (ou não) comandos à ação desejada no corpo físico.
Já no fenômeno mediúnico, o sistema é aberto; de um lado, os temos os receptores dos canais condutores colocados à disposição da entidade comunicante, do outro, os terminais do circuito expressor, que converte o conteúdo da mensagem em texto, fala ou formas outras de expressão visual ou auditivo do pensamento.
Na realidade, quem cede os canais condutores é a individualidade espiritual do médium que interrompe, não o seu pensamento, mas a expressão que, em vez de circular rumo ao cérebro físico, é como que desviada, como a corrente de água de um rio, a fim de deixar desocupado o leito para que águas de outra origem possam escoar por ali.
Isto nos proporciona uma visão mais clara da tão 'discutida comunicação' que, no fundo, consiste, não propriamente em 'esvaziar' a mente deixando de pensar, mas em redirecionar o pensamento, de forma a desobstruir o canal condutor a fim de cedê-lo, livre e desembaraçado, ao comunicante.
Quanto melhor for a capacidade do médium em promover essa desobstrução, maior será a facilidade do comunicante em expressar suas características pessoais. O que nos leva a considerar que a chamada 'passividade do médium' é, de fato, uma aptidão em ceder seus canais condutores e expressores, submetendo-se aos comandos que emanam da entidade manifestante e não mais aos seus próprios. Podemos dizer isto de outra maneira: o único comando que a individualidade do médium expede ao seu próprio sistema de comunicação é o de que se ponha à disposição de outrem, obedecidos, obviamente, alguns limites bem-definidos.
É como se alguém emprestasse temporariamente a sua casa a outra pesssoa.
Algumas situações básicas ocorrem: 1) o inquilino poderá ser acolhido e conviver, harmoniosamente, e por algum tempo, com o proprietário dela, sem nada modificar no seu interior e com total respeito aos hábitos de seu hospedeiro; 2) o proprietário pode se afastar, a maior ou menor distância, enquanto o novo morador se instala, abrindo para este, espaço e condições para que ele possa imprimir à casa que lhe foi cedida algumas de suas características pessoais, como nova disposição de móveis, quadros e objetos, novos arranjos decorativos e coisas semelhantes; 3) o proprietário se retira, levando consigo móveis e objetos de uso pessoal, enquanto o inquilino traz seu próprio mobiliário e objetos, arranjando-os ao seu inteiro gosto pessoal e adaptando a moradia aos seus hábitos e preferências.
Em qualquer das situações esboçadas, o visitante que conheça bem o proprietário da casa será capaz de distinguir uma pessoa da outra, ou seja, o inquilino do proprietário, observando atentamente as características de um e de outro e comparando-as, num confronto de marcas pessoais, expressões típicas, opiniões habituais, formação ética e aspectos outros diferenciados.
É conveniente acrescentar que, por mais que o inquilino se caracterize e se identifique com as suas idiossincracias e preferências, não há como alterar a casa em si mesma, isto é, suas estruturas de sustentação: paredes, teto, piso ...
Esta imagem nos ajudará a compreender melhor a maneira pela qual se expressa a comunicação, que fica sempre na dependência do tipo de cessão que o proprietário fez de sua casa ao inquilino temporário.
Em outras palavras: o estilo e o conteúdo da comunicação dependerão sempre das características pessoais do médium e do tipo de sua mediunidade, o que pode acarretar consideráveis variações entre extremos bastante afastados um do outro, como também depende do grau evolutivo da entidade comunicante, que pode se apresentar como um inquilino correto e educado ou desleixado e rude. Observemos mais de perto as situações: 1) se o médium oferece condições para um desdobramento mais completo, como no sono fisiológico profundo (caso do morador que se retira com seus móveis e objetos de uso pessoal), o comunicante pode assumir, de tal maneira, o controle dos canais condutores que consegue impor aos canais expressores características pessoais bem- marcadas, como mudança de voz, gesticulação, modismos, cacoetes, expressões típicas, opiniões e simbolismos de sua preferência; 2) se o médium desdobra-se apenas parcialmente, sem desligar-se mais amplamente, e permanece junto ao corpo físico (caso do morador que se afasta, mas deixa seus móveis e utensílios), o comunicante encontra maior limitação e não consegue impor suas características pessoais, exceto umas poucas dependendo do maior ou menor espaço que a individualidade espiritual do médium lhe tenha concedido; 3) se o médium não se desdobra e apenas cede parcialmente seus canais condutores, o pensamento do comunicante se transmitirá junto com o do médium, em paralelo, interferindo um no outro; 4) se o médium não se desdobra e permanece consciente (fisicamente), utilizando-se de seus canais condutores, não consegue cedê-los, nem parcialmente, ao comunicante, este permanece, junto ao médium, ou à distância, expressa seu pensamento, a individualidade espiritual do médium o capta e manipula nos seus canais condutores, mas a comunicação perde suas características, passando a ser uma expressão do que o médium deseja transmitir, e não necessariamente do que o comunicante lhe confia para ser transmitido.
Para melhor entendimento do que vimos expondo, faz-se necessária nítida distinção entre personalidade e individualidade: a individualidade é a soma das experiências vividas em todas as nossas existências na carne, enquanto a personalidade é manifestação do ser em cada uma dessas vidas.
Se, portanto, a entidade comunicante se acha bastante afastada de personalidade da vida física, perde muito das características que teve na Terra e passa a expressar-se mais na condição de individualidade. Em qualquer caso, o importante é que seu pensamento chegue, tanto quanto possível, tal como formulado e emitido, mesmo após ter passado pelos canais condutores do médium. No entanto, qualquer que seja o tipo de mediunidade, sempre se notará algo do médium no 'produto final', que é a comunicação. É o que se figurou, há pouco, com a imagem da casa que preserva suas estruturas e permanece no seu local com um mínimo de suas características intactas.
A mensagem será sempre uma fala ou um texto que passou por aquela 'casa' específica, e não, outra.
Por isso, há sempre uma inequívoca responsabilidade do médium na comunicação. Se é um proprietário zeloso, moralizado e esclarecido estrutura e ambiente de sua casa criarão certas inibições ao impulso temporário, impedindo que este modifique, a seu talante, as condições que lhe são oferecidas para se manifestar. Da mesma forma que o indivíduo é moralmente desajustado se sente algo intimidado ou tolhido em presença de alguém em quem reconhece superioridade moral, o comunicante inferior no bom médium, uma barreira que ele não consegue vencer para se expressar desrespeitosamente - é a autoridade moral.
Fator vital, portanto, a uma boa comunicação, reside nas condições morais do médium.