Por isso, é importante que ele esteja sempre vigilante, policiando seus atos e pensamentos, como alguém atento à limpeza e higiene de sua casa. É preciso ser zeloso mesmo quando está só, pois nunca sabe, o médium, a que horas poderá chegar um visitante ou em que momento amigos espirituais precisarão dele para um trabalho, ainda que de mera exemplificação ou participação, que ele pode até desconhecer conscientemente.
A consciência de sua responsabilidade pessoal é essencial ao médium. É certo que isto acarreta certas dificuldades em termos de vivência terrena, mas é condição mesma ao exercício de uma mediunidade confiável.
Vimos, há pouco, como é importante que o pensamento do comunicante chegue ao destinatário da comunicação na maior pureza possível. Médiuns orgulhosos, vaidosos e preconceituosos sempre relutam em ceder seus canais e neles conceder suficiente espaço e liberdade ao comunicante.
Em comunicações nas quais o médium tenha algum interesse pessoal, consciente ou inconsciente, como o de agradar (ou desagradar) ao destinatário, o conteúdo da comunicação pode sofrer distorções, semelhantes às interferências e à estática, em ondas de rádio e TV.
Medo, orgulho, vaidade e lisonja formam bloqueios e criam obstruções e interferências, não nos canais expressores, mas nos condutores, situados no perispírito, como vimos, sob o comando da individualidade espiritual do médium. Isso quer dizer que interferências modificadoras ou deformantes no conteúdo das comunicações ocorrem numa fase em que elas ainda não se expressaram, encontrando-se a caminho nos canais condutores.
Como sempre, estas observações suscitam novos aspectos que, obviamente, surgem sob forma de perguntas, em nossa mente. Esta, por exemplo: o comunicante usa sua própria linguagem, ou a do médium?
O comunicante não usa a sua nem a linguagem do médium, mas o seu pensamento.
Este é que é vestido com o vocabulário com o qual está programado o canal de expressão do médium. É o cérebro que, recebido o pensamento gerado pelo comunicante, incumbe-se de comandar os instrumentos necessários à fala ou à escrita.
Como, então, funciona o fenômeno da xenoglossia, segundo o qual o comunicante parece falar a sua própria língua e não a do médium?
O processo continua sendo o mesmo: a entidade comunicante emite seu pensamento e o envia através dos canais condutores do médium, nos quais pode encontrar matrizes de línguas que o médium tenha falado em outras existências. Isso, contudo, não é indispensável, dado que os elementos básicos que integram o mecanismo da conversão do pensamento puro em palavras estão programados em todos nós. Como o alfabeto que, na condição de um conjunto de símbolos gráficos destinados a instrumentar a exteriorização do pensamento, é o mesmo, qualquer que seja a língua que utilize tal sistema. A linguagem é apenas um processo de arrumação de uns tantos símbolos básicos e comuns a várias línguas. Palavras diferentes descrevem, por exemplo, os mesmos objetos pelo mundo afora. Ou, para usar outra imagem, com as mesmas sete notas fundamentais e seus recursos auxiliares, é possível 'escrever' qualquer melodia, sem recorrer a palavras. Qualquer que seja a língua que fale o compositor ou o virtuoso que a toca, as notas têm sempre o mesmo valor e tonalidade, podendo ser arrumadas e rearrumadas para expressar diferentes pensamentos musicais em diferentes peças, montadas todas com as mesmas sete notas básicas.
Convém enfatizar que não é no cérebro físico que ficam gravadas lembranças de línguas faladas em outras encarnações do médium; o cérebro somente registra o que se aprende durante a existência do corpo físico a que pertence. A linguagem que ali está, com as suas estruturas arquivadas é, como a de um computador, composta de símbolos sonoros e gráficos, cada um com o seu valor próprio. Mas, não é aí que ocorre o processo mesmo de elaboração do pensamento, que vem do espírito, ou seja, da individualidade através do perispírito, pelos canais condutores, por meio dos quais alcança os expressores.
Importante papel cabe, portanto, ao sistema constituído pelos canais expressores, que operam em dois sentidos, de vez que, não apenas recebem, convertem e transmitem comandos vindos do espírito, via perispírito, como recolhem estímulos e impulsos vindos do exterior, pela instrumentação dos sentidos físicos, e que são retransmitidos ao espírito, sempre via perispírito.
O cérebro físico, portanto, funciona basicamente como instrumento da personalidade encarnada, programado com as estruturas de sua linguagem materna, seus hábitos, seus automatismos, suas preferências por este ou aquele tipo de alimento, vestimenta, moradia etc. Isso, porém, não o situa como unidade autônoma, livre dos controles e interferências da individualidade. O mecanismo da intuição é um exemplo ilustrativo dessa dicotomia. Uma idéia (ou pensamento intuitivo) tanto pode vir das profundezas da própria individualidade encarnada, como da mente de outra entidade espiritual.
Daí porque o conteúdo da intuição parece transcender a capacidade ou o conhecimento da personalidade, o que de fato ocorre, dado que provêm de fontes geradoras mais amplas, às quais a personalidade não tem habitualmente acesso fácil.
Peculiaridades outras, no mínimo curiosas, podem ser observadas com proveito no atento exame de problemas específicos da mediunidade em exercício. Um exemplo que sempre suscitou nosso interesse foi o de entidades espirituais que induzem o médium a expressar-se num português carregado de sotaque alemão, francês ou espanhol.
Interpelados a respeito, nossos companheiros explicaram o fenômeno da seguinte maneira: da mesma forma que um estrangeiro, expressa-se numa língua que não lhe é familiar, não consegue desvencilhar-se da influência de sua língua materna, a entidade manifestante, ainda fixada na personalidade de sua mais recente encarnação, não percebe que não precisa falar a linguagem articulada à qual esteve condicionada (no caso, alemão), bastando-lhe pensar (é possível até - e isto é especulação minha - que, com a região perispiritual correspondente ao cérebro físico ainda um tanto densa, continue a entidade a utilizar-se de seus próprios canais expressores, em vez de procurar apenas impressionar com o seu pensamento os canais condutores do médium para que este processe a informação à sua maneira habitual). Da mesma forma que uma pessoa sozinha costuma dizer; pensando: "agora vou fazer isto ou aquilo", a entidade espiritual pensa estas palavras, e não abstratamente, fazendo o seu pensamento circular pelos canais condutores já envolto nos símbolos da linguagem que julga estar falando, conforme seus condicionamentos pessoais. O que ocorre, portanto, é que ao atingir o centro cerebral do médium, a fim de expressar-se, o pensamento encontra a codificação de símbolos e sons próprios ao médium e não os familiares à entidade comunicante . Entram, pois, em conflito os dois sistemas de expressão, sendo necessário um esforço do comunicante para converter suas palavras em símbolos corresponndentes à língua estranha que ali encontra.
Um exemplo ilustrativo nos ocorre para tentar um melhor entendimennto disso.
Figuremos os canais expressores do cérebro do médium como uma máquina de escrever com teclado adaptado à língua inglesa. Suponhamos, ainda, que se aproxime dela um datilógrafo que somente conheça o português e que esteja interessado em escrever a palavra comunicação, lá estão, no teclado, postas à sua disposição, as mesmas letras que podem servir tanto ao português como ao inglês ou ao francês e espanhol. Até mesmo as raízes da palavra desejada são idênticas: comunicação, communication, communicación, etc., mas o nosso datilógrafo imaginário, desejoso de escrever comunicação, percebe que não dispõe da cedilha (Ç), nem til (-), no teclado inglês que lhe foi oferecido.
Após um momento de vacilação, ante a inesperada dificuldade, ele conseguirá contornar o obstáculo e, provavelmente, datilografará a palavra communication, ou, talvez, comunicação.
Da mesma forma, o inglês, ante teclado brasileiro, datilografaria communicaçon e o francês communicacion, e o alemão kommunicacion etc.
É esse processo de elaboração e reelaboração mental que leva a entidade a vacilações, hesitações ou silêncios entre uma palavra e outra, lembro-me de um companheiro espiritual que costumava se manifestar com forte sotaque francês - sua mais recente encarnação fora na França. Às vezes, faltava-lhe a palavra adequada, em português, para expressar seu pensamento. Ele parava e dizia: "Deixa-me ver se encontro aqui na mente do meu irmão (médium) a palavra certa." Usualmente a encontrava mesmo.
Já o nosso caríssimo Hans (entidade tratada em nosso grupo atual que depois incorporou -se aos trabalhos), um tanto fixado na sua personalidade alemã, apresentava-se, de início, com um sotaque extremamente carregado e com expressões claramente elaboradas em estruturas lingüísticas alemãs, concordâncias típicas e até mesmo o ritmo e as entonações peculiares à sua bela língua materna.
Com o correr do tempo, em subseqüentes manifestações, ele começou a libertar-se dessas dificuldades e limitações e está aperfeiçoando, pouco a pouco, sua maneira de se expressar. Não que ele se tenha familiarizado com a língua portuguesa, programada no cérebro da médium, mas porque este conseguindo dominar melhor o processo da comunicação, em particular, e da manipulação do seu próprio pensamento puro e não em palavras, com que se vai libertando gradativamente do mecanismo da linguagem articulada.
Isto nos leva a outras sutilezas e enigmas ou curiosidades de que é tão fértil a mediunidade.