A palavra articulada também é uma necessidade de nossa organização. Não necessitando de vibrações sonoras para lhes ferir os ouvidos, os Espíritos se entendem pela simples transmissão do pensamento, assim como muitas vezes nos entendemos por meio de um simples olhar. Todavia, os Espíritos fazem barulho. Sabemos que podem agir sobre a matéria e esta nos transmite o som. É assim que se dão a entender, seja por meio de pancadas, seja por gritos que vibram no ar; mas, então, é por nós que o fazem, e não por eles. Voltaremos ao assunto em artigo especial, onde trataremos da faculdade dos médiuns audientes.
Enquanto arrastamos o nosso corpo pesado e material pela terra, como o trabalhador forçado a sua corrente, o dos Espí-ritos, vaporoso e etéreo, transporta-se sem fadiga de um a outro lugar, vencendo o espaço com a rapidez do pensamento e em tudo penetrando, visto que a matéria não lhe opõe nenhum obstáculo.
O Espírito vê tudo o que vemos, e mais claramente do que nós. Além disso, vê aquilo que nossos sentidos limitados não nos permitem ver; penetrando a própria matéria, ele descobre o que a matéria subtrai à nossa vista.
Os Espíritos não são, pois, seres vagos, indefinidos, conforme as definições abstratas da alma a que nos referimos pouco atrás. São seres reais, determinados, circunscritos, gozando de todas as nossas faculdades e de muitas outras que nos são desconhecidas, porque inerentes à sua natureza; têm as qualidades da matéria que lhes é peculiar e constituem o mundo invisível que povoa o espaço, cercando-nos e se acotovelando incessantemente conosco. Suponhamos, por um instante, que o véu material que os oculta à nossa vista seja rasgado: ver-nos-íamos envolvidos por uma multidão de seres que vão e vêm, agitando-se à nossa volta e nos observando, como o faríamos se nos encontrássemos em uma assembléia de cegos. Para os Espíritos nós somos os cegos e eles são os videntes.
Dissemos que ao entrar em sua nova vida o Espírito necessita de algum tempo para se reconhecer, que tudo lhe é estranho e desconhecido. Sem dúvida haverão de perguntar como pode ser assim, já que ele teve outras existências corporais. Essas existências foram separadas por intervalos, durante os quais ele habitava o mundo dos Espíritos; tal mundo, portanto, não lhe deve-ria ser desconhecido, considerando que não o vê pela primeira vez.
Várias causas contribuem para que essas percepções lhe pareçam novas, embora já as tenha experimentado. Dissemos que a morte é sempre seguida por um instante de perturbação, que pode ser de curta duração. Nesse estado, suas idéias são sempre vagas e confusas; de alguma sorte a vida corporal se confunde com a vida espírita e ele ainda não as pode separar em seu pensamento.
Dissipada a primeira impressão, as idéias pouco a pouco se tornam claras e, com elas, a lembrança do passado, que não volta senão gradualmente à memória, porquanto jamais essa memória irrompe bruscamente. Apenas quando ele se encontra completamente desmaterializado é que o passado se desdobra à sua frente, como algo impreciso, saindo de um nevoeiro. Somente então ele se recorda de todos os atos de sua última existência, seguidos dos atos das existências anteriores e de suas diversas passagens pelo mundo dos Espíritos. Concebe-se, pois, que durante um certo tempo esse mundo lhe deva parecer novo, até que ele se tenha reconhecido completamente e a lembrança das sensações ali experimentadas lhe tenha voltado de maneira precisa. Mas a esta causa deve juntar-se uma outra, não menos preponderante.
O estado do Espírito, como Espírito, varia extraordinariamente, na razão do grau de sua elevação e pureza. À medida que se eleva e se depura, suas percepções e sensações se tornam menos grosseiras, adquirindo mais primor, mais sutileza e mais delicadeza; vê, sente e compreende coisas que não podia ver, nem sentir, nem compreender numa condição inferior. Ora, cada existência corporal, sendo para ele uma oportunidade de progresso, condu-lo a um novo meio, porque se encontra, caso haja progredido, entre Espíritos de outra ordem, cujas idéias, pensamentos e hábitos são diferentes. Acrescente-se que tal depuração lhe permite penetrar, sempre como Espírito, em mundos inacessíveis aos Espíritos inferiores, como entre nós os salões da alta sociedade são interditos às pessoas mal-educadas.
Quanto menos esclarecido, tanto mais limitado é o seu horizonte; à medida que se eleva e se depura, esse horizonte se amplia e, com ele, o círculo de suas idéias e percepções. A seguinte comparação nos permite compreendê-lo. Suponhamos um camponês bruto e ignorante, vindo a Paris pela primeira vez. Conhecerá e compreenderá a Paris do mundo sábio e elegante? Não, porque freqüentará apenas as pessoas de sua classe e os bairros que elas habitam. Mas se, no intervalo de uma segunda viagem, esse camponês se desenvolveu, havendo adquirido instrução e boas maneiras, outros serão seus hábitos e as suas relações. Verá, então, um mundo novo para ele, que em nada se assemelhará à Paris de outrora. O mesmo acontece com os Espíritos; nem todos, porém, experimentam esse mesmo grau de incerteza. À medida que progridem, suas idéias se desenvolvem e a memória se aperfeiçoa: familiarizam-se antecipadamente com a sua nova situação; seu retorno entre os outros Espíritos nada mais tem que os surpreenda; encontram-se em seu meio normal e, passado o primeiro momento de perturbação, reconhecem-se quase imediatamente.
Tal é a situação geral dos Espíritos, no chamado estado de erraticidade. Mas o que fazem nesse estado? Como passam o tempo? Para nós essas questões são de interesse capital e eles mesmos é que vão respondê-las, como foram eles que nos deram as explicações que acabamos de fornecer, pois nada disso é produto de nossa imaginação; não se trata de um sistema saído de nosso cérebro: julgamos conforme vemos e ouvimos. Abstraindo-nos de qualquer opinião sobre o Espiritismo, haveremos de convir que essa teoria da vida de além-túmulo nada tem de irracional; ela apresenta uma seqüência e um encadeamento perfeitamente lógicos, que honrariam mais de um filósofo.
Seria erro pensar que a vida espírita seja uma vida ociosa. É, ao contrário, essencialmente ativa, e todos nos falam de suas ocupações; tais ocupações diferem necessariamente, conforme seja o Espírito errante ou encarnado. No estado de encarnação, elas são relativas à natureza dos globos por eles habitados, às necessidades que dependem do estado físico e moral desses mundos, bem como da organização dos seres vivos. Não é isso que vamos tratar aqui; falaremos somente dos Espíritos errantes. Entre os que alcançaram um certo grau de elevação, uns velam pela realização dos desígnios de Deus nos grandes destinos do Universo; dirigem a marcha dos acontecimentos e concorrem para o progresso de cada mundo; outros tomam os indivíduos sob sua proteção, constituindo-se em seus gênios tutelares e anjos-da-guarda, acompanhando-os desde o nascimento até à morte, buscando encaminhá-los na senda do bem: é uma felicidade para eles quando os seus esforços são coroados de sucesso. Alguns encarnam em mundos inferiores, para neles realizarem missões de progresso; por seus trabalhos, exemplos, conselhos e ensinamentos procuram fazer que uns progridam nas ciências ou nas artes, outros na moral. Submetem-se, então, voluntariamente às vicissitudes de uma vida corporal muitas vezes penosa, com vistas a fazer o bem, e o bem que fazem lhes é levado em conta. Outros, finalmente, não têm atribuições especiais: vão a toda parte onde a sua presença pode ser útil, dão conselhos, inspiram boas idéias, sustentam a coragem dos que vacilam, fortificam os fracos e castigam os presunçosos.
Se considerarmos o número infinito de mundos que povoam o Universo e o incalculável número de seres que o habitam, compreenderemos que os Espíritos têm muito em que se ocupar; tais ocupações, porém, nada têm de penosas; eles as realizam com alegria, voluntariamente, sem constrangimento, e sua felicidade é triunfar naquilo que empreendem; ninguém pensa numa ociosidade eterna, que seria um verdadeiro suplício. Quando as circunstâncias o exigem, reúnem-se em conselho, deliberam sobre a marcha a seguir, conforme os acontecimentos, dão ordens aos Espíritos que lhes são subordinados e vão para onde o dever os chama. Essas assembléias são mais ou menos gerais ou particulares, conforme a importância do assunto; nenhum lugar especial e circunscrito é destinado a essas reuniões: o espaço é o domínio dos Espíritos. Entretanto, elas se realizam de preferência nos globos onde estão os seus objetivos. Os Espíritos encarnados, que neles estão em missão, delas participam conforme a sua elevação; enquanto o corpo repousa, vão haurir conselhos dos outros Espíritos e, muitas vezes, receber ordens sobre a conduta que devem adotar como homens. É verdade que ao despertar não conservam uma lembrança precisa daquilo que se passou, delas guardando a intuição, que os leva a agir como se o fizessem por conta própria.
Descendo na hierarquia, encontramos Espíritos menos elevados, menos depurados e, conseqüentemente, menos esclarecidos; nem por isso deixam de ser bons, preenchendo funções análogas nas esferas de atividades mais restritas. Sua ação, em vez de estender-se aos diferentes mundos, exerce-se mais especialmente num globo determinado e está relacionada com o seu grau de desenvolvimento; sua influência é mais individual e tem como objetivo coisas de menor importância.