A seguir vem a multidão de Espíritos vulgares, mais ou menos bons ou maus, que pululam à nossa volta. Eles se elevam pouco a pouco acima da Humanidade, da qual representam todos os matizes e os refletem, pois que dela guardam os vícios e as virtudes. Em grande número deles encontramos os gostos, as idéias e inclinações que possuíam em vida. Suas faculdades são limitadas, seu julgamento falível como o dos homens e, muitas vezes, errôneo e imbuído de preconceitos.
Em outros o senso moral é mais desenvolvido; sem terem grande superioridade nem grande profundidade, julgam com mais acerto, condenando muitas vezes o que fizeram, disseram ou pensaram em vida. Ademais, há uma coisa notável: mesmo entre os Espíritos mais vulgares, a maioria tem sentimentos mais depurados como Espíritos do que como homens, desde que a vida espírita os esclarece sobre os seus defeitos; salvo poucas exceções, arrependem-se amargamente e lamentam o mal que fizeram, porque lhes sofrem mais ou menos cruelmente as conseqüências.
Vimos alguns deles que não eram melhores do que o haviam sido em vida; jamais, porém, piores. O endurecimento absoluto é muito raro e apenas temporário, porque, cedo ou tarde, acabam padecendo a sua posição e pode-se mesmo dizer que todos aspiram ao aperfeiçoamento, porque compreendem que este é o único meio de sair da sua inferioridade. Instruir-se, esclarecer-se, eis aí a sua grande preocupação, e eles se sentem felizes quando a isso podem acrescentar pequenas missões de confiança que os elevam aos seus próprios olhos.
Têm, também, suas assembléias, mais ou menos sérias, conforme a natureza de seus pensamentos. Falam-nos, vêem e observam o que se passa; imiscuem-se em nossas reuniões, em nossos jogos, em nossas festas e espetáculos, bem como em nossas ocupações sérias. Ouvem nossas conversas: os mais levianos para se divertirem, para rirem à nossa custa ou para nos pregarem alguma peça, caso o possam; os outros para se instruírem.
Observam os homens, analisam o seu caráter e fazem o que chamam estudo de costumes, com vistas à escolha de sua futura existência.
Vimos o Espírito no momento em que, deixando o corpo, entra em sua nova vida. Analisamos as suas sensações e seguimos o desenvolvimento gradual de suas idéias. Os primeiros momentos são empregados em se reconhecerem e em se darem conta do que com eles se passa. Em suma, experimentam, por assim dizer, suas faculdades, como a criança que, pouco a pouco, vê crescer suas forças e pensamentos. Falamos dos Espíritos vulgares, porquanto os outros, como já dissemos, de alguma sorte estão previamente identificados com o estado espírita, que nenhuma surpresa lhes causa, a não ser a alegria de se encontrarem livres dos entraves e dos sofrimentos corporais. Entre os Espíritos inferiores muitos sentem saudades da vida terrena, porque sua situação como Espírito é cem vezes pior. Eis por que buscam uma distração na visão do que outrora constituíam as suas delícias, embora até mesmo essa visão lhes seja um suplício, já que sentem desejos mas não os podem satisfazer.
A necessidade de progredir é geral entre os Espíritos; é isso que os impele ao trabalho por seu melhoramento, porque compreendem que é este o preço de sua felicidade. Nem todos, porém, experimentam tal necessidade no mesmo grau, sobretudo no início; alguns chegam mesmo a comprazer-se numa espécie de vagabundagem, mas que não dura muito tempo; logo a atividade se torna para eles uma necessidade imperiosa, à qual, aliás, são impelidos por outros Espíritos, que lhes estimulam os sentimentos do bem.
Vem a seguir o que se pode chamar de escória do mundo espírita, constituída de todos os Espíritos impuros, cuja úni-ca preocupação é o mal. Sofrem e desejariam que todos sofressem como eles. A inveja lhes torna odiosa toda superioridade; o ódio é a sua essência. Não podendo assenhorear-se dos Espíritos, apoderam-se dos homens, atacando os que lhes parecem mais fracos. Excitar as más paixões, insuflar a discórdia, separar os amigos, provocar rixas, alimentar o orgulho dos ambiciosos para, em seguida, se da-rem ao prazer de abatê-los, espalhando o erro e a mentira – numa palavra, desviar do bem – tais são os seus pensamentos dominantes.
Mas por que permite Deus que assim seja? Deus não tem que nos prestar contas. Dizem-nos os Espíritos superiores que os maus são provações para os bons, e que não há virtude onde não há vitória a conquistar. Ademais, se esses Espíritos malfazejos se reúnem na Terra, é que nela encontram eco e simpatia.
Consolemo-nos imaginando que, acima desta abjeção que nos cerca, há seres puros e benevolentes que nos amam, sustentam-nos, encorajam-nos e nos estendem os braços para nos levarem até eles, conduzindo-nos a mundos melhores onde o mal não encontra acesso, caso saibamos fazer aquilo que é preciso para o merecer.