O quadro com que nos apresentam a infância dos povos primitivos, extasiados ante as belezas da natureza e admirando nela a bondade do Criador é, sem dúvida, muito poético, mas pouco real. De fato, quanto mais se aproxima do estado de natureza, mais o homem se escraviza ao instinto, como acontece ainda hoje entre os povos bárbaros e selvagens. O que mais o preocupa, ou melhor, o que o preocupa exclusivamente é a satisfação das necessidades materiais, até porque não tem outras. O único sentido que pode torná-lo acessível aos gozos puramente morais não se desenvolve senão lentamente, gradualmente. A alma tem também a sua infância, a sua adolescência e virilidade, como o corpo humano; mas para alcançar a virilidade que a tornará capaz de compreender as coisas abstratas, quantas evoluções não tem ela de experimentar na humanidade! Por quantas existências não deve passar!
Sem remontarmos aos tempos primitivos, olhemos à nossa volta a gente do campo e perscrutemos os sentimentos de admiração que nela despertam o esplendor do sol nascente, a abóbada estrelada do firmamento, o gorjeio dos pássaros, o murmúrio das ondas cristalinas, as campinas cobertas de flores. Para tais pessoas o Sol nasce por hábito e, contanto que forneça suficiente calor para sazonar as colheitas, sem as queimar, nada mais exigem dele; se olham o céu, é para saber se o tempo será bom ou não no dia seguinte; tanto faz que os pássaros cantem ou deixem de cantar, desde que não lhes destruam a lavoura; preferem o cacarejar das galinhas e o grunhido dos porcos ao canto do rouxinol; o que desejam dos regatos cristalinos, ou lamacentos, é que não sequem nem inundem; dos prados, que produzam boa erva, com ou sem flores. É tudo o que desejam; dizemos mais: é tudo o que assimilam da natureza, apesar de já muito distanciados dos homens primitivos.