Extrato dos Manuscritos de um Jovem Médium Bretão (Continuação e fim)
As Cruzadas foram buscar entre os árabes o segredo das ciências ocultas, cujo uso propagaram na Itália, na França, na Espanha. Os mouros e os judeus foram os primeiros médicos; consultavam-nos em segredo e queimavam-nos em público. E os doutores de hoje pensam defender a Ciência, zombando nos seus cenáculos e perseguindo nos tribunais esses últimos filhos perdidos dos seus ancestrais comuns. Mas, muito dentre eles não são, de certo modo, um tanto charlatães? Não há por que repudiar o magnetismo de maneira tão absoluta. Outros o praticam clandestinamente, mas não ousam confessá-lo, temerosos de afugentar a clientela amedrontada. Em todo o caso, bem poucos dos que o negam chegaram a estudá-lo de boa-fé, sem outro móvel que o desejo de esclarecer-se. Serão os últimos a admiti-lo. Ser-lhes-á difícil ajudarem com as próprias mãos a derrubada dos fundamentos científicos que tanto lhes custaram edificar. Que terrível revolução quando, ao lado dos que, incontestavelmente, possuem enorme soma de conhecimentos científicos, e que ignoram apenas um – o de curar os seus semelhantes – seres simples, os primeiros a chegar, puderam ler, como num livro aberto, nos corpos humanos, sem terem estudado Anatomia, penetrando-os com os olhos como se fossem de vidro e, em vez desses remédios gerais que agem sempre de maneiras diversas e imprevistas, indicarem o agente preciso que se deve empregar, segunda a natureza de cada um? Quantas posições comprometidas, no dia em que o Espiritismo e o magnetismo combinados tiverem substituído, para a maior felicidade de todos, a Medicina tão falível e tão ruinosa das faculdades, por essa medicina familiar, que estará à disposição de quase todos os que a desejarem praticar. A Quiromancia é uma ciência de observação, em socorro da qual vêm a Frenologia e a Fisiognomonia, auxiliadas pela intuição, disposição fluídica particular e especial. Todo mundo pode observar as proeminências que existem na cabeça, a infinita variedade dos traços, as múltiplas linhas traçadas nas mãos, mas nem todos podem deduzir, com exatidão ou mais ou menos, os seus significados e os seus efeitos no organismo. Mas o fluido que se desprende do consulente, atingindo o que o examina, permite a este último descobrir de maneira mais ou menos acertada os fatos do passado do outro e até mesmo predizer o que, segundo as probabilidades, deve lhe acontecer no futuro. A simples pressão das mãos ou o toque da cabeça põe o fluídico em vibração, em conseqüência da tensão e da concentração do espírito a que se habituou. Assim se explicam os casos de revelação, de predição, que, ao se verificarem, causam admiração, encanto e pavor ao mesmo tempo. Mas, não há nada de maravilhoso, nem de sobrenatural em tudo isto. As nervuras de nossas mãos podem comparar-se às das folhas das plantas. O conjunto, o aspecto, a forma geral, tudo se assemelha e, contudo, nada se parece. Estudai as folhas: talvez descubrais, em sua configuração, se a árvore a que pertencem está mais ou menos conformada para viver muito tempo. Nossas mãos são como as folhas ligadas à extremidade dos ramos. São elas as nossas extremidades; movem-se, agem, põem-nos em relação com os outros, e é por elas que podemos conhecer o estado geral da saúde. Da mesma maneira que através dos pequenos ramos chega uma seiva mais delicada, assim também pelas mãos do homem, que são uma maravilha entre todas as maravilhas do corpo. É a ponta do ramo que, flexível e como animada e dirigida por uma inteligência particular, se enrola em torno dos galhos que sustentam sua fragilidade. Assim, as trepadeiras, as clematites, as glicínias e a vinha... É pois na extremidade, tanto dos vegetais quanto do homem, que é dado tocar, que se apresenta a parte mais delicada, mais perfeita. O tronco tem a força; a seiva e o sangue dão o impulso; as hastes e as mãos são os instrumentos dóceis. Se a árvore tem folhas delgadas, salpicadas de branco ou de amarelo, caindo aos primeiros ventos do outono, é que está clorótica e podemos prognosticar com segurança que não viverá muito tempo. O homem cujas mãos são pequenas, frias, brancas, exangues, não figurará entre os atletas, nem entre os centenários. Como uma terra pobre e privada de sucos nutritivos poderia prodigalizar uma seiva abundante, capaz de lançar-se até a extremidade dos ramos para fazê-la crescer e alongar-se incessantemente? A planta, como o animal, como o homem, toma proporcionalmente às suas energias vitais a sua parte fluídica, que circula por toda parte. Somente a planta e o animal, não tendo de despender de sua força e de sua vontade senão numa ordem de fatos mais restritos, são dotados de um fluido menos poderoso. Fazem sua parte de progresso, mas eles não o fazem sem que a isso sejam provocados. Ao contrário, o homem tem responsabilidade de direção. Deus o aceita como colaborador na obra sublime da Criação. Deus cria os tipos e reserva ao seu auxiliar o cuidado de descobrir as variedades infinitas, de multiplicá-las, de aperfeiçoá-las sem limites. Ele necessita, pois, de um fluido mais abundante, mais rico, para satisfazer à sua tarefa mais nobre e cumprir a missão providencial que lhe foi reservada. Essas diferenças entre as linhas das mãos, as nervuras das folhas, são também encontradas nas patas dos animais, e por toda parte, enfim. Apenas no homem e nas criaturas mais avançadas, esses matizes são mais numerosos e mais acentuados. Mas, descendo mesmo até os mais ínfimos, uma observação atenta permitirá descobrir, nos diferentes ramos que terminam cada uma delas, sintomas, prognósticos de caráter e de saúde, que a ativa direção do homem pode modificar para melhor ou pior. É seu direito, é seu dever trabalhar para melhorar todas as coisas inferiores. A Natureza põe à sua disposição os meios curativos, e ele será insensato e mesmo culpável se não os empregar para prolongar e enobrecer a sua e a vida das demais criaturas, ou pelo menos para dar-lhe o equilíbrio necessário, durante o curso que ela deve seguir. Há ação e reação dos homens uns sobre os outros, bem como sobre os animais, os vegetais, os minerais e tudo quanto nos rodeia. Por isso, o homem, o animal e a planta não vivem indiferentes junto aos demais seres. Uma criação jamais ocorre senão quando todas as condições indispensáveis venham favorecê-la. Mas, descuidando desses detalhes essenciais, pretendemos aclimatar os animais sem os vegetais convenientes, sem preparar para estes o terreno que exigem, sem estudar as suas atrações e as suas repulsões, e sem observar se lhes damos vizinhos com os quais estarão em perpétua luta. Nossos camponeses colocam às vezes um bode em meio aos bois e bezerros. Dizem que é para purificar o ar. Para nós, isto só o empestaria. Mas, uma vez que os animais do estábulo deixam o bode andar livremente ao seu redor, é que um secreto instinto os adverte, talvez, de que o seu cheiro acre é composto de gases que seriam prejudiciais a eles e cujas propriedades o bode modifica. O meio em que vive e se desenvolve cada criatura influi enormemente sobre o seu caráter, sobre a sua saúde e sobre a parcela de inteligência que lhe é transferida para cumprir o seu destino. A inteligência do vegetal, como a do animal, manifesta-se sobretudo na obra da reprodução. Muitas vezes o homem a violenta. Estudemos as condições nas quais cada ser deve cumprir o seu destino mais ou menos importante, e as criações esboçadas que os grandes cataclismos do passado pouparam darão lugar a criações superiores, e muitos dos males que elas engendram desaparecerão com elas. Tudo se ressente, portanto, pelo toque, por vezes mesmo pela simples aproximação das comoções elétricas e fluídicas, que exercem uma influência salutar ou funesta sobre a atitude geral do indivíduo. O magnetismo não foi inventado por ninguém; existe desde toda a eternidade! Não se conhecia o seu emprego, como no caso do vapor e da eletricidade, a princípio negados, e que no entanto revolucionaram o mundo após alguns anos de existência. Dar-se-á o mesmo com esse fluido que, mais sutil do que todos os outros, vai atingir livremente, e em aparência um pouco ao acaso, os sexos contrários, as idades extremas, as castas até hoje hostis, para os confundir todos no seio de uma imensa solidariedade. Com efeito, o fluido é atração, lei única do Universo. É a fonte dos movimentos moral, material e intelectual, a fonte do progresso. Manda a caridade que nos aliviemos mutuamente, já que dispomos do poder e da vontade. Esse fluido comum, que nos liga a todos, a fim de estabelecer entre nós a fraternidade universal, não só nos faculta curar-nos uns aos outros, mas, também, associando-nos aos nossos amigos desaparecidos que, mau grado nosso nos legaram a herança de seus trabalhos, dá-nos os meios de inventar grandes coisas, que concorrerão poderosamente para o progresso de todos e para o bem-estar universal. Já não nos escondemos por trás das muralhas do nosso egoísmo pessoal para nos sentirmos felizes no nosso isolamento. Queremos que todos estejam satisfeitos ao nosso redor e o sofrimento dos outros provocam nuvens sombrias no azul de nosso belo firmamento. O entusiasmo foge à solidão para só fazer brilhar a sua potência irresistível entre as multidões eletrizadas. É que o fluido que se desprende de cada um de nós, adicionado, confundido, multiplicado, atritando-se e se chocando em caso de necessidade, por suas próprias discrepâncias faz surgir a harmonia.
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Mês Julho
Ano 1869