Não resta dúvida a ninguém, tanto para os adversários quanto para os partidários do Espiritismo, que esta questão, mais que nunca, agita os espíritos. Será esse movimento um fogo de palha, como alguns fingem dizer? Mas esse fogo de palha já dura quinze anos e, em vez de se extinguir, sua intensidade só faz aumentar de ano para ano. Ora, não é este o caráter das coisas efêmeras e que só se dirigem à curiosidade. O último levante com que esperavam sufocá-lo apenas o reavivou, superexcitando a atenção dos indiferentes. A tenacidade desta idéia nada tem que possa surpreender quem quer que haja sondado a profundidade e a multiplicidade das raízes pelas quais se liga aos mais graves interesses da Humanidade. Os que se admiram apenas viram a superfície; a maioria só o conhece de nome, mas não lhe compreendem o objetivo, nem o alcance.
Se uns combatem o Espiritismo por ignorância, outros o fazem precisamente porque lhe sentem toda a importância, pressentem o seu futuro e nele vêem um poderoso elemento regenerador. Há que se persuadir de que certos adversários estão perfeitamente convertidos. Se estivessem menos convencidos das verdades que ele encerra, não lhe fariam tanta oposição. Sentem que o penhor de seu futuro está no bem que faz. Fazer ressaltar esse bem aos seus olhos, longe de os acalmar, é aumentar a causa de sua irritação. Tal foi, no século XV, a numerosa classe de escritores copistas, que de bom grado teriam queimado Gutemberg e todos os impressores. Não seria demonstrando os benefícios da imprensa, que os ia suplantar, que os teria apaziguado.
Quando uma coisa está certa e é chegado o tempo de sua eclosão, ela marcha a despeito de tudo. A força de ação do Espiritismo é atestada por sua persistente expansão, malgrado os poucos esforços que faz para se expandir. Há um fato constante: os adversários do Espiritismo consumiram mil vezes mais forças para o abater, sem o conseguir, do que seus partidários para o propagar. Ele avança, por assim dizer, só, semelhante a um curso d’água que se infiltra através das terras, abre uma passagem à direita, se o barram à esquerda, e pouco a pouco mina as pedras mais duras, acabando por fazer desabarem montanhas.
Um fato notório é que, em seu conjunto, a marcha do Espiritismo não sofreu nenhuma interrupção; ela pôde ser entravada, reprimida, retardada em algumas localidades por influências contrárias; mas, como dissemos, a corrente, barrada num ponto, aparece em cem outros; em vez de correr em abundância, divide-se numa porção de filetes. Entretanto, à primeira vista, dir-se-ia que sua marcha é menos rápida do que foi nos primeiros anos. Deve-se concluir que o abandonam? que encontra menos simpatia? Não; mas simplesmente que o trabalho que ele realiza neste momento é diferente e, por sua natureza, menos ostensivo.
Como já dissemos, desde o começo o Espiritismo ligou a si todos os homens nos quais estas idéias estavam, de certo modo, no estado de intuição. Bastou-lhe apresentar-se para ser compreendido e aceito. Imediatamente recolheu por toda parte onde encontrou o terreno preparado. Uma vez feita essa primeira colheita, restavam os terrenos incultos, que reclamavam mais trabalho. É agora através das opiniões refratárias que se deve fazer a luz, e é o período em que nos encontramos. Semelhante ao mineiro que retira sem esforço as primeiras camadas de terra móvel, chegou à rocha que é preciso rebentar e no seio da qual só pouco a pouco pode penetrar. Mas não há rocha, por mais dura que seja, que resista indefinidamente a uma ação dissolvente contínua.
Sua marcha é, pois, ostensivamente menos rápida, mas se, num dado tempo, não congrega tão grande número de adeptos francamente confessos, não abala menos as convicções contrárias, que caem, não de um golpe, mas pouco a pouco, até que a brecha esteja feita. É o trabalho a que assistimos, e que marca a fase atual do progresso da doutrina.
Esta fase é caracterizada por sinais inequívocos.
Examinando a situação, torna-se evidente que a idéia ganha terreno diariamente e se aclimata; encontra menos oposição; riem menos e os mesmos que ainda não a aceitam, começam a lhe conceder foros de cidadania entre as opiniões. Os espíritas já não são mostrados a dedo, como outrora, e vistos como animais curiosos; é o que constatam sobretudo os que viajam. Por toda parte encontram mais simpatia ou menos antipatia pela coisa. Não se pode negar que não haja nisto um progresso real.
Para compreender as facilidades e as dificuldades que o Espiritismo encontra em seu caminho, há que se observar a diversidade das opiniões, através das quais deve abrir passagem.
Jamais se impondo pela força ou pelo constrangimento, mas só pela convicção, ele encontrou uma resistência mais ou menos grande, conforme a natureza das convicções existentes, com as quais podia assimilar-se mais ou menos facilmente, sendo recebido de braços abertos por umas, e repelido com obstinação por outras.
Duas grandes correntes de idéia dividem a sociedade atual: o espiritualismo e o materialismo. Embora este último forme uma incontestável minoria, não se pode esconder que tomou grande extensão desde alguns anos. Um e outro se fracionam numa porção de nuanças, que se podem resumir nas principais categorias seguintes: 1o – Os fanáticos de todos os cultos. – 0.
2o – Os crentes satisfeitos, com convicções absolutas, fortemente decididos e sem restrições, embora sem fanatismo, sobre todos os pontos do culto que professam e com o qual estão satisfeitos. Esta categoria também compreende as seitas que, por terem aberto cisão e operado reformas, se julgam de posse de toda a verdade e, por vezes, são mais absolutas do que as religiões-mãe. – 0.
3o – Os crentes ambiciosos, inimigos das idéias emancipadoras, que lhes poderiam fazer perder o ascendente que exercem sobre a ignorância. – 0.
4o – Os crentes pela forma que, por interesse, simulam uma fé que não têm, e quase sempre se mostram mais rígidos e mais intolerantes que as religiões sinceras. – 0.
5o – Os materialistas por sistema, que se apóiam numa teoria racional e na qual muitos se obstinariam contra a evidência, por orgulho, para não confessar que puderam enganar-se; são, em maioria, tão absolutos e intolerantes em sua incredulidade quanto os fanáticos religiosos em sua crença. – 0.
6o – Os sensualistas, que repelem as doutrinas espiritualistas e espíritas, temerosos de que elas os venham perturbar em seus prazeres materiais. Fecham os olhos para não ver. – 0.
7o – Os indiferentes, que só vivem para o hoje, sem se preocupar com o futuro. Em sua maior parte não saberiam dizer se são espiritualistas ou materialistas. Para eles o presente é a única coisa séria. – 0.
8o – Os panteístas, que não admitem uma divindade pessoal, mas um princípio espiritual universal, no qual se confundem as almas, como as gotas no oceano, sem conservarem a sua individualidade. Esta opinião é um primeiro passo para a espiritualidade e, por conseguinte, um progresso sobre o materialismo. Embora um pouco menos refratários às idéias espíritas, os que a professam são, em geral, muito absolutos, porque neles é um sistema preconcebido e racional, e muitos não se dizem panteístas senão para não se confessarem materialistas. É uma concessão que fazem às idéias espiritualistas para salvar as aparências. – 1.
9o – Os deístas, que admitem a personalidade de um Deus único, criador e soberano senhor de todas as coisas, eterno e infinito em todas as suas perfeições, mas rejeitam todo culto exterior. – 3.
10o – Os espiritualistas sem sistema, que, por convicção, não pertencem a nenhum culto, sem repelir nenhum, mas que não têm qualquer idéia fixa sobre o futuro. – 5.
11o – Os crentes progressistas, vinculados a um culto determinado, mas que admitem o progresso na religião e o acordo das crenças com o progresso das ciências. – 5.
12o – Os crentes insatisfeitos, nos quais a fé é indecisa ou nula sobre os pontos dogmáticos, que não lhes satisfazem completamente a razão, atormentada pela dúvida. – 8.
13o – Os incrédulos por falta de melhor, dos quais a maior parte passou da fé à incredulidade e à negação de tudo, por não terem encontrado, nas crenças com que foram embalados, uma sanção satisfatória para a sua razão, mas nos quais a incredulidade deixa um vazio penoso. Seriam felizes se pudessem enchê-lo. – 9.
14o – Os livres-pensadores, nova denominação pela qual se designam os que não se sujeitam à opinião de ninguém em matéria de religião e de espiritualidade, que não se julgam atrelados pelo culto em que o nascimento os colocou sem o seu consentimento, nem obrigados à observação de práticas religiosas quaisquer. Esta qualificação não especifica nenhuma crença determinada; pode aplicar-se a todas as nuanças do espiritualismo racional, tanto quanto à mais absoluta incredulidade. Toda crença eclética pertence ao livre-pensamento; todo homem que não se guia pela fé cega é, por isto mesmo, livre-pensador. A este título os espíritas também são livres-pensadores.