Mas para os que podem ser chamados os radicais do livre-pensamento, esta designação tem uma acepção mais restrita e, a bem dizer, exclusiva; para estes, ser livre-pensador não é apenas crer no que vê: é não crer em nada; é libertar-se de todo freio, mesmo do temor de Deus e do futuro; a espiritualidade é um estorvo e não a querem. Sob este símbolo da emancipação intelectual, procuram dissimular o que a qualidade de materialista e de ateu tem de repulsivo para a opinião das massas e, coisa singular, é em nome desse símbolo, que parece ser o da tolerância por todas as opiniões, que atiram pedra a quem quer que não pense como eles. Há, pois, uma distinção essencial a fazer entre os que se dizem livre-pensadores, como entre os que se dizem filósofos. Eles se dividem naturalmente em: Livres-pensadores incrédulos, que entram na 5a categoria – 0; e livres-pensadores crentes, que pertencem a todas as nuanças do espiritualismo racional – 9.
15o – Os espíritas por intuição, aqueles nos quais as idéias espíritas são inatas e que as aceitam como uma coisa que não lhes é estranha. – 10.
Tais são as camadas de terreno que o Espiritismo deve atravessar. Lançando uma vista de olhos sobre as diferentes categorias acima, é fácil ver aquelas junto às quais ele encontra um acesso mais ou menos fácil e aquelas contra as quais se choca como a picareta contra o granito. Não triunfará destas senão com a ajuda dos novos elementos que a renovação trará à Humanidade: esta é a obra d’Aquele que dirige tudo e que faz surgirem os acontecimentos, de onde deve sair o progresso.
Os números colocados depois de cada categoria indicam aproximadamente a proporção do número de adeptos sobre 10, que cada um fornece ao Espiritismo.
Se se admitir, em média, a igualdade numérica entre estas diferentes categorias, ver-se-á que a parte refratária, por sua natureza, abrange mais ou menos a metade da população. Como ela possui a audácia e a força material, não se limita a uma resistência passiva: é essencialmente agressiva; daí uma luta inevitável e necessária. Mas esse estado de coisas não pode ter senão um tempo, porque o passado se vai e vem o futuro; ora, o Espiritismo marcha com o futuro.
É, pois, na outra metade que o Espiritismo deve ser recrutado, e o campo a explorar é bastante vasto; é aí que deve concentrar seus esforços e que verá seus limites se ampliarem.
Entretanto, esta metade ainda está longe de lhe ser inteiramente simpática; ele aí encontra resistências obstinadas, mas não insuperáveis, como na primeira, da qual a maior parte é devida a prevenções que se apagam à medida que o objetivo e as tendências da doutrina forem mais bem compreendidas, e desaparecerem com o tempo. Se nos podemos admirar de uma coisa é que, malgrado a multiplicidade dos obstáculos que ele encontra, das ciladas que lhe armam, tenha ele podido chegar em alguns anos ao ponto em que hoje se encontra.
Outro progresso não menos evidente é o da atitude da oposição. Pondo de lado os ataques violentos lançados de vez em quando por uma plêiade de escritores, quase sempre os mesmos, que em tudo só vêem matéria para rir, que ririam mesmo de Deus, e cujos argumentos se limitam a dizer que a Humanidade beira à demência, muito surpreendidos de que o Espiritismo tenha marchado sem sua permissão, é raríssimo ver a doutrina posta em causa numa polêmica séria e sustentada. Em vez disto, como já fizemos notar em artigo precedente, as idéias espíritas invadem a imprensa, a literatura, a filosofia; delas se apropriam sem o confessar, razão por que se vê a todo instante surgir nos jornais, nos livros, nos sermões e no teatro pensamentos que se diriam hauridos na própria fonte do Espiritismo. Por certo seus autores protestariam contra a qualificação de espíritas, mas nem por isso sofrem menos a influência das idéias que circulam e que parecem justas. É que os princípios sobre os quais repousa a doutrina são de tal modo racionais que fermentam numa imensidão de cérebros e transparecem mau grado seu; tocam em tantas questões que, a bem dizer, é impossível entrar na via da espiritualidade sem fazer Espiritismo involuntariamente. É um dos fatos mais característicos que marcaram o ano que acaba de passar.
Disto se deve concluir que a luta acabou? Não, certamente; devemos, ao contrário e mais que nunca, nos manter em guarda, porque teremos que sustentar assaltos de outro gênero; mas, esperando que as fileiras se reforcem e que os passos à frente também sejam ganhos. Guardemo-nos de crer que certos adversários se dêem por vencidos, e de tomar o seu silêncio por uma adesão tácita, ou mesmo por neutralidade. Persuadamo-nos bem de que certas pessoas, enquanto viverem, jamais aceitarão o Espiritismo, nem aberta nem tacitamente, como existem as que jamais aceitarão certos regimes políticos. Todos os raciocínios para a ele os levar são impotentes, porque não o querem a nenhum preço; sua aversão pela doutrina cresce em razão do desenvolvimento que ela toma.
Os ataques a céu aberto tornam-se mais raros, porque reconheceram a sua inutilidade; mas não perdem a esperança de triunfar com o auxílio de manobras tenebrosas. Longe de adormecer numa enganosa segurança, mais que nunca é preciso desconfiar dos falsos irmãos que se insinuam em todas as reuniões para espiar e, a seguir, deturpar o que aí se diz e se faz; que semeiam sub-repticiamente elementos de desunião; que, sob a aparência de um zelo artificial e por vezes interessado, procuram empurrar o Espiritismo para fora das vias da prudência, da moderação e da legalidade; que provocam em seu nome atos repreensíveis aos olhos da lei. Não tendo conseguido torná-lo ridículo, porque, por sua essência, é uma coisa séria, seus esforços tendem a comprometê-lo, para o tornar suspeito à autoridade e provocar contra ele e seus aderentes medidas rigorosas. Desconfiemos, pois, dos beijos de Judas e dos que nos querem abraçar para nos sufocar.
É preciso imaginar que estamos em guerra e que os inimigos estão à nossa porta, prontos para aproveitar a ocasião favorável e que arrebanharão inteligências no próprio lugar.
Que fazer nesta ocorrência? Uma coisa muito simples: fechar-se nos estritos limites dos preceitos da doutrina; esforçar-se em mostrar o que ela é por seu próprio exemplo e declinar toda solidariedade com o que pudesse ser feito em seu nome e que fosse capaz de desacreditá-la, porque não seria este o caso de adeptos sérios e convictos. Não basta dizer-se espírita; aquele que o é de coração o prova por seus atos. Não pregando a doutrina senão o bem, o respeito às leis, a caridade, a tolerância e a benevolência para com todos; repudiando toda violência feita à consciência de outrem, todo charlatanismo, todo pensamento interessado no que concerne às relações com os Espíritos e todas as coisas contrárias à moral evangélica, aquele que não se afasta da linha traçada não pode incorrer em censuras fundadas, nem em perseguições legais; mais ainda: quem quer que tome a doutrina como regra de conduta, não pode senão granjear estima e consideração das pessoas imparciais. Diante do bem a própria incredulidade zombeteira se inclina e a calúnia não pode sujar o que está sem mancha. É nessas condições que o Espiritismo atravessará as tempestades que serão amontoadas em sua estrada e que sairá triunfante de todas as lutas.
O Espiritismo também não pode ser responsabilizado pelas faltas daqueles a quem agrada se dizerem espíritas, como a religião não o é pelos atos repreensíveis dos que só têm a aparência de piedade. Antes, pois, de fazer cair a censura de tais atos sobre um doutrina qualquer, seria preciso saber se ela contém alguma máxima, algum ensinamento que os possa autorizar ou até os desculpar. Se, ao contrário, ela os condena formalmente, é evidente que a falta é inteiramente pessoal e não pode ser imputada à doutrina. Mas é uma distinção que os adversários do Espiritismo não se dão ao trabalho de fazer; ao contrário, eles se sentem muito felizes por encontrar uma ocasião de o desacreditar com ou sem razão, não se pejando de lhe atribuir o que não lhe pertence, envenenando as coisas mais insignificantes, em vez de lhes buscar as causas atenuantes.
Desde algum tempo as reuniões espíritas vêm sofrendo certa transformação. As reuniões íntimas e de família multiplicaram-se consideravelmente em Paris e nas principais cidades, em razão mesmo da facilidade que acharam em se formar, pelo aumento do número de médiuns e de adeptos. No princípio os médiuns eram raros; um bom médium era quase um fenômeno; era, pois, natural que se agrupassem em torno dele. À medida que esta faculdade se desenvolveu, os grandes centros se fracionaram, como enxames, numa porção de pequenos grupos particulares, que encontram mais facilidade em se reunir, mais intimidade e homogeneidade em sua composição. Esse resultado, conseqüência da força mesma das coisas, era previsto. Desde a origem havíamos assinalado os escolhos que, inevitavelmente, deveriam encontrar as sociedades numerosas, necessariamente formadas de elementos heterogêneos, abrindo a porta às ambições e, por isto mesmo, alvo das intrigas, das cabalas, das manobras surdas da malevolência, da inveja e do ciúme, que não podem emanar de uma fonte pura. Nas reuniões íntimas, sem caráter oficial, é-se mais senhor de si, conhece-se melhor, recebe-se quem se quer; aí o recolhimento é maior e sabe-se que os resultados são mais satisfatórios.