A ideia que geralmente se faz dos Espíritos torna à primeira vista incompreensível o fenômeno das manifestações. Como estas não podem ocorrer sem a ação do Espírito sobre a matéria, os que julgam que o Espírito implica a ideia de ausência completa de tudo que seja matéria perguntam, com certa aparência de razão, como ele pode agir materialmente. Ora, aí está o erro, pois o Espírito não é uma abstração, mas um ser definido, limitado e circunscrito. O Espírito encarnado no corpo constitui a alma. Quando o deixa, por ocasião da morte, não sai dele despido de todo o envoltório. Todos nos dizem que conservam a forma humana e, de fato, quando nos aparecem, é sob essa forma que os reconhecemos.
Se os observarmos atentamente, no instante em que acabam de deixar a vida, veremos que eles se encontram em estado de perturbação e que tudo é confuso à sua volta; veem o próprio corpo, perfeito ou mutilado, conforme o gênero da morte; por outro lado, se reconhecem e se sentem vivos; alguma coisa lhes diz que aquele corpo lhes pertence e não compreendem como podem estar separados dele. Continuam a ver-se sob a forma que tinham antes de morrer e essa visão produz em alguns, durante certo tempo, singular ilusão: a de se crerem ainda vivos. Falta-lhes a experiência do novo estado em que se encontram, para se convencerem da realidade. Passado esse primeiro momento de perturbação, o corpo se torna para eles uma veste imprestável, de que se despiram e da qual não guardam saudades. Sentem-se mais leves e como que aliviados de um fardo. Não sofrem mais as dores físicas e se consideram felizes por poderem elevar-se e transpor o Espaço, como tantas vezes o fizeram em sonho, quando vivos.¹ Entretanto, apesar da falta do corpo, constatam suas personalidades; têm uma forma, mas que não os importuna nem os embaraça; têm, finalmente, a consciência do seu eu e de sua individualidade. Que devemos concluir daí? Que a alma não deixa tudo no túmulo; que leva consigo alguma coisa.