Capítulo 5
Por que, então, o Cristo não falou do purgatório? É que, não existindo a ideia, não havia palavra que a representasse. Ele se serviu da palavra inferno, a única usada, como termo genérico, para designar sem distinção as penas futuras. Se houvesse colocado, ao lado da palavra inferno, uma equivalente a purgatório, não poderia precisar-lhe o verdadeiro sentido sem ferir uma questão reservada ao futuro; teria, enfim, de consagrar a existência de dois lugares especiais de castigo. O inferno, em sua concepção genérica, despertando a ideia de punição, encerrava, implicitamente, a do purgatório, que não passa de um modo de penalidade. Estava reservado ao futuro esclarecer os homens sobre a natureza das penas e, por isso mesmo, reduzir o inferno ao seu justo valor. E já que a Igreja, após seis séculos, houve por bem suprir o silêncio de Jesus quanto ao purgatório, decretando-lhe a existência, é porque julgou que o Mestre não havia dito tudo. E por que não haveria de dar-se sobre outros pontos o com que este se deu?
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Parte Primeira
Nome do Capítulo O purgatório
Item 10