Desejou tocar o cordão com a mão física, mas não conseguiu movê-la. Procurou pegá- lo, com 'outra', porém a mão passava pelo cordão sem rompê-lo e sem encontrar nele consistência alguma. A cabeça de Regina II (perispiritual) estava à altura do quadro, na parede, a cerca de um metro de distância da Regina I (corpo físico), deitada no sofá.
Após as observações, afastou-se mais do corpo físico, permaneceu por alguns momentos ainda na sala e depois mergulhou no mundo mágico, onde o fenômeno mais curioso é o da vida física contemplada da ótica espiritual. Daí em diante, não se lembra de nada mais. A consciência emigrara imperceptivelmente para a Regina II e a comunicação cérebro a cérebro deixou de ocupar sua atenção.
Meditando sobre isto, minha primeira impressão foi a de que deveria ter sido possível a ela tocar e até manusear o cordão fluídico com suas mãos perispirituais. Não seriam da mesma substância, ou melhor, constituídas de energias no mesmo grau de condensação? Se o espírito encarnado ( em desdobramento) e o desencarnado podem tocar o próprio corpo espiritual e senti-lo tão vivo e sólido como o físico, por que não poderia tocar o cordão fluídico?
Ocorreu-me, então, que a 'substância' do cordão precisa realmente ser mais tênue, não só porque tem uma capacidade quase ilimitada de expansão, ou melhor, de elasticidade, como também porque constituiria insuperável obstáculo ao deslocamento do perispírito no plano espiritual, se pudesse ser livremente manipulado como o fio de uma tomada elétrica. Ao que parece, o cordão é apenas uma ligação energética, uma vibração que opera dentro de uma faixa de onda específica que liga o corpo perispiritual ao físico e não uma extensão de um ou de outro. É um campo magnético e não, uma estrutura substancial.
Ao descrever-me esta experiência, Regina acrescenta que gostaria de ser mais curiosa a respeito de tais fenômenos. Talvez pudesse, então, observá-los melhor, testar situações e promover certas experimentações. Observa, porém, que uma vez 'do lado de lá' não tem a mesma curiosidade que costuma ter aqui. É como se, na condição de espírito, achasse aquilo tudo tão natural e rotineiro que não considera necessário perder tempo para satisfazer curiosidades, dúvidas e perguntas que tinha como Regina I, do lado da matéria, presa a um bloco maciço de átomos, moléculas, células e órgãos.
Por mais que se prometa que vai ser diferente na vez seguinte, assim que se desdobra percebe que não tem o mesmo grau de interesse. Tudo lhe parece tão natural e conhecido que não vale o esforço de uma exploração. Na tentativa de explicar essa diferença de postura, ela emprega uma sugestiva imagem: - É como se eu estivesse em frente a uma casa fechada, doida para saber como ela é por dentro, o que tem lá, como vivem as pessoas ali, de que maneira está decorada, de que cor são as paredes, quantos cômodos e, de repente, abro a porta, entro e vejo que é simplesmente minha casa e eu já sei tudo sobre ela.
9. INESPERADAS VISITAS EM DOMINGO VAZIO
Em uma de suas habituais tardes domingueiras, estava aborrecida e sentindo-se muito só. Ninguém a visitara e ela não estava disposta a visitar ninguém. Em cumprimento à sua rotina de domingo, deitou-se após o almoço para repousar.
O pensamento começou a vagar meio solto e sem rumo certo quando, de repente, ela viu, um pouco acima do encosto do sofá, uma bola acinzentada em formação, ou melhor, algo definindo-se aos poucos como uma bola. Concentrou sua atenção no estranho fenômeno. A bola parecia feita de uma substância nebulosa, com movimentos próprios. Aos poucos foi clareando e definiu-se como uma cabeça humana, perfeita, nítida, pairando a meia altura junto da parede. As feições eram de um jovem muito simpático com um quepe militar de cor creme, ou talvez cáqui. Curiosa por saber do que se tratava e o que aquilo queria dizer, Regina verificou que as feições do jovem soldado eram bastante semelhantes às de uma pessoa com a qual ela se correspondera durante algum tempo - um rapaz que vivia na Argélia e era soldado.
Aliás, há algum tempo não recebia carta dele, a primeiro impulso íntimo foi de temor.
Jamais aquilo acontecera. Um pouco tensa, perguntou ao rosto quem era ele e o que queria.
- Nada - foi a resposta - Apenas conversar. Sou um amigo.
- Vá embora - disse ela, e repetiu: - vá embora!
O rosto se desfez. Mal havia desaparecido a figura, porém, Regina arrependeu-se por ter cedido aos seus temores com desnecessária rudeza. Pesarosa, desejou que ele voltasse. Ele voltou a aparecer, mas em vez de formar-se lentamente, a partir de uma nuvem condensada, ressurgiu pronto e completo e sorriu para ela. Regina estava calma e sem receios agora e por isso mais à vontade. Repetiu a pergunta inicial e ele explicou: - Quero conversar. Você não estava se sentindo tão só?
Em seguida ela deixou o corpo físico e saiu com ele. Não era a primeira vez que partia em companhia de um amigo espiritual. Lembrou-se de que uma vez Nita a levara a passeio também. (Falaremos de Nita em outro local deste livro).
Podia, agora, ver o dono do rosto de corpo inteiro. Estava mesmo fardado e de fato era em tudo semelhante ao jovem argelino cujo retrato o tinha consigo. É curioso não ter achado necessário pedir-lhe confirmação disso. Aliás, a pergunta nem lhe ocorreu.
Para que perguntar o que certamente já sabia?
O jovem era simpático e muito tranqüilo. Dirigiram-se a um bosque, e pareceu a ela ser o mesmo local em que estivera com Nitinha há algum tempo. Numa pequena clareira, sentaram-se à beira de um barranco. Conversaram, enquanto ele se propôs a ensinar- lhe um jogo com pequenas pedras que deveriam ser arrumadas de certa maneira.
Explicou-lhe que era um antigo jogo romano, mero passatempo. Fez-se silêncio e ele perguntou: - Por que você está tão aborrecida?
- Ah, nada de especial. É que tenho me sentido muito só e isso, às vezes, me aborrece.
- Por que você não sai um pouco? Vai a um cinema, por exemplo ...
- É. É uma idéia, mas não estou com vontade de sair. Preferia ficar em casa e que alguém viesse me visitar. Mas acho que hoje não vai mesmo aparecer ninguém lá em casa.
Daí em diante ela não se recorda mais do que aconteceu. Só se vê de retorno ao corpo. Ao retomá-lo, sorriu e disse a si mesma: - É, acho que vou aceitar a sugestão dele. Vou a um cinema.
Cerca de vinte minutos depois, porém, a campainha tocou. Era a amiga M. que foi logo dizendo, ao entrar: - Olha, eu não vinha aqui, não. Estava até bem longe e já de volta para casa quando me bateu aquilo assim: "Vai lá na Regina!" E, então, eu resolvi chegar até aqui para ver como você estava.
- Que bom que você veio! - foi o comentário, feliz.
Mas não foi só isso. Conversavam há cerca de meia hora quando novamente a campainha soou. Surpresa das surpresas, era uma velha amiga, que Regina não via há bem um ano ou mais, estava à porta. Alegria, cumprimentos, festa! Ela entrou e comentou: - Não fique muito feliz com minha visita, não. Na verdade eu não estava pretendendo passar aqui. Vinha para casa, de volta de um plantão de 24:00h (ela era enfermeira), mas de repente, quando o ônibus estava chegando aqui, me bateu aquilo assim: "Vai lá na Regina!" Quando percebi, já havia dado o sinal. .. E aqui estou!
Diante disso, Regina sorriu e não teve mais dúvida. Fora o amigo argelino o autor daquela agradável e simpática brincadeira. Sabendo que ela preferia ficar em casa e receber algumas visitas do que fazê-las, ele trabalhara, prontamente (e com indiscutível eficiência), para encaminhar duas amigas para a sua casa, naquela solitária tarde de domingo. Mentalmente, Regina agradeceu-lhe a gentileza. E com emoção.
Nunca mais viu a entidade e jamais ficou sabendo se era de fato seu amigo e correspondente argelino. Nem se ele estava ainda vivo ou se já desencarnara. A correspondência, sempre muito fraterna, fora interrompida sem explicações.
10. O TELEFONEMA
Se eu precisasse de um fenômeno para demonstrar que os vivos também se comunicam pelo desprendimento, bastaria o caso narrado a seguir. Mas como este livro não se destina a provar nada a ninguém, mas a ajudar aos que já se convenceram da realidade espiritual, aí vai ele, como simples relato de uma experiência vivida.
Certa noite, Regina encontrou-se em sonho com um rapaz muito simpático. Não tinha, a essa altura, a menor noção de espiritismo. Sequer sabia o que era desdobramento.
Tiveram uma longa e fraterna conversa e, ao despedir-se, ele lhe deu o nome e um telefone pelo qual poderiam comunicar-se do lado de lá, mergulhados na matéria.
No dia seguinte, Regina comentou o sonho com uma amiga e ela sugeriu testarem a informação onírica, ligando para o número dado.
- E se existir alguém lá com esse nome, supondo-se que o telefone seja mesmo esse?
- perguntou Regina, apreensiva.
- Ora - disse a outra. - Fala com ele, ué!
Regina ligou. Atenderam. Era uma gráfica. Ela perguntou pelo rapaz cujo nome deu.
Ele estava! E Regina desligou. O sonho não era um sonho, mas um encontro, além dos padrões da matéria. Como iria explicar isso ao jovem do outro lado da linha?
11. UM ESPÍRITO TOCA A CAMPAINHA