Como se vê, havia uma luta incessante entre o bem e o mal e este muitas vezes triunfava sobre aquele. Por outro lado, não se podendo racionalmente admitir que o mal fosse obra de um poder benfazejo, concluiu-se pela existência de dois poderes rivais no governo do mundo. Daí nasceu a doutrina dos dois princípios, o do bem e o do mal, doutrina lógica, aliás, numa certa época, porque o homem ainda não era capaz de conceber outra, nem de penetrar a essência do Ser Supremo. Como, então, haveria de compreender que o mal não passa de estado transitório do qual pode resultar o bem, conduzindo-o à felicidade pelo sofrimento e auxiliando-lhe o progresso? Os limites do seu horizonte moral não lhe permitiam ver coisa alguma fora da vida presente, nem no passado nem no futuro; também não podia compreender que já houvesse progredido, que progrediria ainda individualmente e, muito menos, que as vicissitudes da vida resultavam das imperfeições do ser espiritual que nele reside, o qual preexiste e sobrevive ao corpo, depurando-se numa série de existências até atingir a perfeição. Ora, para compreender o bem que pode resultar do mal, é preciso levar em conta não uma, mas várias existências; é necessário abranger o conjunto, pois só então se tornam claras as verdadeiras causas e seus efeitos.