Ainda assim, não permitas que o pranto te esmague a lavoura de esperança… Quem de nós, aqui, jaz sem culpa? Todos detemos compromissos a resgatar e o Tesouro do Senhor jamais se empobrece de compaixão. O tempo é a nossa bênção… Com os dias coagulamos a treva ao redor de nós e, com os dias, convertê-la-emos em sublimada luz… Entretanto, para isso, é indispensável perseveremos na coragem e na humildade, no amor e no sacrifício. Levantemo-nos na direção do futuro, dispostos à reconstrução dos nossos destinos. Reparamos que Leonel, naquela hora, propunha-se vazar o coração em nossos ouvidos. Queria desabafar, confessar-se… Silas, no entanto, restituindo-o à meditação, convidou-nos ao regresso, prometendo voltar na noite seguinte. Os dois companheiros, completamente modificados, reinstalaram-se no lar de Luís, e prosseguimos de retorno. A caminho, o Assistente rejubilava-se. O processo Antônio Olímpio, a nós confiado, atingia bom termo. A renovação dos obsessores coroara-se de êxito. E o chefe da nossa expedição dizia aguardar para a noite imediata o entendimento entre Alzira e aqueles que lhe seriam filhos no porvir, depois do qual seriam ambos internados na Mansão, com o pleno assentimento deles mesmos, tendo em vista a preparação do futuro… Na casa dirigida por Druso, trabalhariam e reeducar-se-iam, encontrando novos interesses mentais e novos estímulos para a necessária recuperação… Assim que o nosso amigo entrou em silêncio, Hilário indagou, preocupado:
— Quanto tempo gastarão Clarindo e Leonel, aplainando os caminhos para a volta ao corpo físico?
— Provavelmente um quarto de século… — Por que tanto?
— Precisarão reconstituir as ideias, no campo do bem, plasmando-as de modo indelével na mente, a fim de que se consagrem à efetivação dos novos planos. Refugiar-se-ão no serviço ativo, ajudando aos outros e criando, assim, preciosas sementeiras de simpatia, que lhes facilitarão as lutas na Terra, amanhã… No trabalho e no estudo, tanto quanto nos empreendimentos da pura fraternidade, amealharão incorruptíveis valores morais, e a reeducação; dessa forma, aperfeiçoar-lhes-á as tendências, predispondo-os à vitória de que necessitam nas provações remissoras.
— E Antônio Olímpio?
— Insistiu Hilário, — pelo que deduzo, permanecerá muito menos tempo na Mansão… — Sim, — aprovou o Assistente, — Antônio Olímpio, depois de breve reconciliação com os manos, renascerá, sem dúvida, dentro de dois a três anos.
— Por que tão grande diferença?
— Não podemos esquecer, — explicou Silas, sereno, — que foi ele quem começou a criminosa trama sob nosso estudo. Por isso, do grupo de reencarnantes, será o companheiro menos favorecido na Lei, durante a viagem prevista à Esfera humana, pelas agravantes que lhe marcam o problema individual. Com o Espírito ainda sombreado de angústia e arrependimento, ressurgirá no berço da família que ele prejudicou, pela prática da usura, movimentando-se num horizonte mental muito restrito, de vez que, instintivamente, a sua maior preocupação será devolver aos irmãos espoliados a existência física, o dinheiro e as terras que deles furtou… Em razão disso, apenas disporá de facilidades íntimas para a cultura e o aprimoramento de si mesmo, na idade madura do corpo, quando houver encaminhado os filhos para o triunfo que a eles compete alcançar.
— Entretanto, — ponderou meu colega, — Clarindo e Leonel também mataram… — E decerto pagarão por isso; contudo, não podemos negar-lhes atenuantes no lamentável delito… Antônio Olímpio planejou o crime, friamente, para acomodar-se nas vantagens materiais que lhe adviriam da crueldade e da violência, e os irmãos infelizes agiram no pesadelo do ódio, traumatizados de pavorosa dor… Inegavelmente, Clarindo e Leonel padecem angústia e remorso e farão jus a doloroso resgate, em momento oportuno, mas, ainda assim, são credores do irmão que lhes retardou os passos evolutivos… — E Alzira nessa história?
— Alzira já conseguiu entesourar bastante amor para entender, perdoar e auxiliar… Por esse motivo, dispõe, diante da Lei, do poder de ajudar, tanto ao esposo como aos cunhados, até agora infelizes, tanto ao filho Luís, ainda na carne, como a todos os descendentes de sua organização familiar, porque, quanto mais amor puro no Espírito, mais amplos recursos da alma perante Deus… E, lançando expressivo olhar sobre nós, acentuou:
— Aqueles que amam realmente, governam a vida. Sentia-me satisfeito. Os apontamentos não poderiam ser mais claros. Hilário, contudo, pedindo desculpas pela insistência, levantou ainda nova questão. Por que sofrera Alzira aflitiva desencarnação no lago? Silas, no entanto, considerou:
— Compreendendo-se que nossa amiga já conquistou a felicidade do perdão irrestrito, filho do amor que não se preocupa em ser amado, não nos convém mais profunda imersão no pretérito, tornando nosso estudo fastidioso. E sorrindo:
— Alzira, diante de nós outros, já é alguém que possui larga faixa de Céu no coração… Os assuntos que lhe dizem respeito devem ser analisados no Céu… Atingíramos a Mansão e, recolhidos a nós mesmos, passamos a digerir as lições da hora em curso… As peças de amor e ódio, sofrimento e vingança do processo Antônio Olímpio eram as mesmas de nossos dramas pessoais, destacando a necessidade de amor e perdão em nossas vidas, para que, através do sentimento puro, pudéssemos avançar da sombra para a luz… Nessas graves reflexões, aguardamos ansiosamente a noite seguinte. E, em chegando a hora abençoada de nossos estudos, o Assistente entendeu-se com a irmã Alzira, em longa conversação particular, solicitando-lhe nos reencontrasse, a determinada hora, no lago em que ocorrera a desencarnação dela. Em seguida, recomendou a duas cooperadoras da casa lhe acompanhassem a viagem, instruindo-as para que nossa amiga somente viesse até nós quando chamada por nosso grupo em serviço. Depois da costumeira excursão, entrávamos no lar de Luís, onde Clarindo e Leonel nos aguardavam com carinhoso interesse. Silas reconduziu-nos ao hospital que visitáramos na véspera, administrando passes magnéticos em Laudemira e no filhinho recém-nato e, findas essas ligeiras atividades de assistência, transportou-nos para vasto domicílio, em cujo umbral um velhinho desencarnado, de fisionomia simpática, recebeu-nos amavelmente.
— É o nosso irmão Paulino, que vem amparando as obras do filho, dedicado à engenharia na Terra, — explicou o orientador de nossas tarefas. E Paulino deu-nos acesso ao interior familiar, situando-nos num espaçoso gabinete em que um homem maduro jazia debruçado sobre um livro. O generoso anfitrião no-lo apresentou como sendo o filho encarnado, cuja missão técnica assistia com invariável desvelo. E, porque indagasse ao diretor de nossa excursão em que poderia servir-nos, Silas rogou-lhe os bons ofícios, junto ao filho, para que nos fosse propiciado, ali, o prazer de alguns momentos de música, solicitando-lhe, se possível, alguma página especial de Beethoven. Com surpresa, vimos nosso amigo abeirar-se do engenheiro, segredando-lhe algo aos ouvidos. E, longe de assinalar-nos a presença, qual se estivesse constrangido por si mesmo a ouvir música, o cavalheiro interrompeu a leitura, dirigiu-se à eletrola e consultou pequena discoteca, de que retirou a Pastoral do grande compositor a que nos referimos. Em breves momentos, o recinto povoava-se para nós de encantamento e alegria, sonoridade e beleza. Silas, com alma e coração, ouvia conosco a sinfonia admirável, toda ela estruturada em bênçãos da Natureza sublimada. Com Clarindo, atraído para as lides campestres, sentíamos mentalmente a presença do bosque, repleto de pássaros cantores sobrevoando um regato cristalino a deslizar sobre leitosos seixos, e, qual se a paisagem imaginária obedecesse à narração melódica, vimo-la transformar-se, de repente, dando-nos a ideia de que o céu, dantes azul, se cobria de nuvens pesadas e pardacentas, a despejarem faíscas e trovões, para depois retornar ao quadro florido, entre cânticos e preces… E, com Leonel, apaixonado pela arte divina, registávamos o império da música, em sua majestade soberana, arrebatando-nos às mais sublimes emoções. Aqueles minutos valiam para nós como abençoada oração. Os lances da magnífica sinfonia como que nos elevavam a Círculos harmoniosos de ignota beleza e todos trazíamos lágrimas abundantes, de vez que os encantadores acordes em movimento guardavam a faculdade de lavar-nos, miraculosamente, os refolhos do ser. Findas as notas derradeiras, despedimo-nos, maravilhados. Nossos pensamentos vibravam em sintonia mais pura, e os nossos corações pareciam mais fraternos. Por solicitação de Leonel, que parecia atender instintivamente à sugestão de Silas, demandamos o lago na velha propriedade dos Olímpios. O plenilúnio coroava o campo de prateadas fulgurações. A noite ia alta… Tomando a iniciativa, o irmão de Clarindo passou, então, a relatar-nos quanto já sabíamos, detendo-se em copioso pranto, ao referir-se à morte da cunhada, sobre quem atirara as farpas da sua ira… Extremamente surpreendidos, Hilário e eu anotávamos a paciente atenção de Silas em lhe ouvindo a confissão, qual se o assunto lhe fora absoluta novidade.