Capítulo 10
— Mas, — perguntou Hilário, — de cada vez que se retirava da carne, nas quatro existências a que alude, continuava ligada às sombras? — Como não? — Exclamou o Assistente, — quando a queda no abismo é de longo curso, ninguém emerge de um salto. Ela naturalmente entrava pela porta do berço e saía pela porta do túmulo, transportando consigo desajustes interiores que não podia sanar de momento para outro. — Se a situação era assim inalterável, — ponderou meu colega, — para que retomar o corpo físico? Não lhe bastaria sofrer na dolorosa purgação daqui deste lado, sem renascer na Esfera carnal?… — A observação é compreensível, — ajuntou Silas, paciente, — entretanto, nossa irmã, com o amparo de abnegados companheiros, voltou ao pagamento parcelado das suas dívidas, reaproximando-se de credores reencarnados, não obstante mentalmente jungida aos Planos inferiores, desfrutando a bênção do olvido temporário, com o que lhe foi possível angariar preciosa renovação de forças. — Mas sempre conseguiu ressarcir, de alguma sorte, os débitos em que se emaranhou? — De alguma sorte, sim, porque padeceu tremendos golpes no orgulho que trazia cristalizado no coração… Contudo, a par disso, contraiu novas dívidas, de vez que, em certas ocasiões, não conseguiu superar a aversão instintiva, diante dos adversários aos quais passou a dever trabalho e obediência, chegando ao infortúnio de afogar uma criancinha que mal ensaiava os primeiros passos, de modo a ferir a senhora da casa em que servia de ama, tentando vingar-se de crueldades recebidas. Depois de cada desencarnação, regressava habitualmente às zonas purgatoriais de que procedia, com alguma vantagem no acerto das suas contas, mas não com valores acumulados, imprescindíveis à definitiva libertação das sombras, porque todos somos tardios na decisão de pagar nossos débitos, até o integral sacrifício… — Contudo, — tornou Hilário, — sempre que regressava à Esfera espiritual, decerto contava com o auxílio dos benfeitores que lhe amparam os desatinos, embora se demorasse na treva mental… — Exatamente, — confirmou Silas; — ninguém está condenado ao abandono. Vocês não ignoram que o Criador atende à criatura por intermédio das próprias criaturas. Tudo pertence a Deus. — Ainda mesmo o inferno? — Acrescentou Leonel, preocupado. O Assistente sorriu e aclarou: — O inferno, a rigor, é obra nossa, genuinamente nossa, mas imaginemo-lo, assim, à maneira de uma construção indigna e calamitosa, no terreno da vida, que é Criação de Deus. Tendo abusado de nossa razão e conhecimento para gerar semelhante monstro, no Espaço Divino, compete-nos a obrigação de destruí-lo para edificar o Paraíso no lugar que ele ocupa indebitamente. Para isso, o Infinito Amor do Pai Celeste nos auxilia de múltiplos modos, a fim de que possamos atender à Perfeita Justiça. Entendido? O apontamento não podia ser mais claro, entretanto, Hilário parecia interessado em solver qualquer dúvida e, talvez por isso, inquiriu novamente: — Considera possível venhamos a saber quais seriam as existências de Laudemira, antes de haver ingressado na Corte de Joana II? — Sim, — elucidou Silas, tolerante, — será fácil conhecê-las, mas não nos convém num simples estudo efetuar o tentame, porque o assunto em si reclamaria largas quotas de atenção e de tempo. Basta lhe pesquisemos a condição referida para definir-lhe as lutas redentoras de agora, porquanto nossos estágios em qualquer eminência social no mundo, seja no campo da influência ou das finanças, da cultura ou da ideia, servem como pontos vivos de referência da nossa conduta digna ou indigna, no usufruto das possibilidades que o Senhor nos empresta, designando com clareza nosso avanço na direção da Luz ou nosso aprisionamento maior ou menor nos Círculos da treva, pelas virtudes conquistadas ou pelos débitos assumidos. A conceituação luminosa de Silas era verdadeiro jorro solar em meu entendimento… Ainda assim, meu companheiro insistiu: — Não obstante os suas valiosas anotações , quanto à memória () nas regiões inferiores, será interessante saber se Laudemira, antes da atual reencarnação, chegava a lembrar-se com nitidez dos estágios por que passou nas difíceis provações a que se refere… Nosso amigo esclareceu com a maior tolerância: — Estou na Mansão há oito lustros, e acompanhei-lhe a internação em nossa casa, faz precisamente trinta anos. Havia encerrado a existência última, no Plano carnal, no início deste século, e atravessara longos padecimentos, nas Esferas de baixo nível. Ingressou em nosso instituto acusando terrível demência e, submetida à hipnose provocada, revelou os fatos que venho de narrar, fatos esses que constam naturalmente da ficha que lhe define a personalidade, no arquivo das observações que nos orientam. Nossos instrutores, porém, não julgaram necessário mais amplo recuo mnemônico, pelo menos por enquanto, para lhe prestarem auxílio. Sei, no entanto, que Laudemira, conturbada qual se achava, não dispunha de forças para articular qualquer reminiscência na vigília comum; mesmo porque foi trazida à reencarnação atual, sob os auspícios de benfeitores que velam por nossa organização, ainda mentalmente sintonizada com os laços menos dignos do caminho que escolheu. Deve agora receber cinco de seus antigos cúmplices na queda moral, para reerguer-lhes os sentimentos, na direção da luz, em abençoado e longo sacerdócio materno. Do seu êxito no presente, dependerão as facilidades que espera recolher do futuro, para a liberação definitiva das sombras que ainda lhe ofuscam o Espírito, pois, se conseguir formar cinco almas na escola do bem, terá conquistado enorme prêmio, diante da Lei amorosa e justa. O problema de Laudemira, debatido em nosso regresso, valia por preciosa contribuição no tema “causa e efeito” que nos decidíramos estudar. E, reparando que a nossa curiosidade quedara-se, satisfeita, Silas voltou-se com mais carinho para Leonel e Clarindo, sondando-lhe os ideais. Decerto, para conhecer-lhes naturalmente as esperanças, reportou-se aos próprios anseios, quanto aos trabalhos médicos do futuro. Não pretendia perder tempo. Guardava agora a sede de aprender e servir, para demandar o campo humano com os melhores valores do espírito, que se lhe exprimiriam na mente, quando encarnado, em forma de tendência e facilidade na chamada “vocação inata”. Os dois irmãos, sabiamente tocados pela palavra do amigo que lhes ganhara a confiança, sentiam-se agora mais à vontade. A confissão do Assistente e o exemplo de humildade que nos fornecera, espontâneo, penetrara-lhes, fundo. Clarindo, impulsivo e franco, falou dos ideais de que se inflamara, anos antes. Possuía entranhado amor ao solo e projetara, quando jovem, a organização de um reduto agrícola em que lhe fosse possível consagrar-se a nobilitantes experiências. Anelaria ter vivido largo tempo na propriedade familiar, criando um setor de ação própria. Entretanto, comentou algo triste, mas sem o tom de revolta de suas anteriores conversações, a criminosa decisão de Antônio Olímpio aniquilara-lhe os sonhos. Vira-se esbulhado dos seus ideais, em tremenda frustração que, depois do sepulcro, lhe dementava a cabeça… Não conseguia disposições mentais para refazer a esperança… Sentia-se como o desespero em pessoa, como alguém que se identificasse irremediavelmente agrilhoado a pelourinho degradante… E Clarindo mostrava agora inflexão de pranto na voz, revelando-se imensamente transformado. Leonel, cuja inteligência refinada nos infundia cauteloso respeito, estimulado por Silas, começou a dizer de sua inclinação para a música… Quando menino entre os homens, acreditava-se talhado para a arte sublime. Jovem, apaixonara-se pela obra de Beethoven, cuja biografia guardava de cor. Em razão disso, não buscava tão somente o título de bacharel para o qual se preparava, mas também os louros de pianista, com o que se sentiria sumamente feliz… No entanto, e exprimia-se carregando a voz de insofreável amargura, o homicídio de que fora vítima turvara-lhe a visão. Albergava no íntimo tão somente o ódio que passara a reger-lhe a existência e, com o ódio no coração, não sabia rearquitetar os castelos do princípio… Leonel fez longa pausa e acentuou com agradável surpresa para nós: — Entretanto, em nossos contatos pessoais nos dias últimos, começo a perceber que, se tivemos a experiência física ceifada em plena juventude do corpo, indubitavelmente possuíamos débitos que justificavam provação assim tão rude, embora isso não exima Antônio Olímpio, o irmão ingrato, da culpa que carrega, esposando a responsabilidade do horrível assassínio com que nos precipitou nas sombras. — Exatamente, — acrescentou Silas, emocionado, — seu argumento denuncia grande renovação… Contudo, o Assistente não pôde continuar, porque Leonel mergulhou a cabeça nas mãos e clamou em lágrimas: — Mas, ó Deus, por que só conhecemos a alta virtude do perdão, quando já nos enodoamos no crime? Por que só tão tarde o desejo de restaurar o campo de nossas aspirações, quando a vingança já nos crestou a vida no incêndio do mal?!… Enquanto Clarindo lhe acompanhava a explosão de dor e remorso, com sinais de aprovação, e Silas o acolhia, generoso, de encontro ao peito, pressentimos que Leonel se reportava à morte de Alzira, debaixo da obsessão que, sem dúvida, ele e o irmão haviam comandado. O orientador de nossa excursão, todavia, deu-se pressa em consolá-lo, exortando, bondoso: — Chora, meu amigo! Chora, que as lágrimas purificam o coração!…
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