O Sr. Jobard e os Médiuns Mercenários – Exemplo notável de concordância
Mulheres ou homens que deixais a roda de fiar ou as ferramentas para vos tornardes pregador ou médium e pedis um salário: só o orgulho vos guia. Quereis um pouco de glória em torno de vosso nome: o metal só tem reflexos vis, que o tempo enferruja, enquanto a verdadeira glória tem mais esplendor na abnegação. Prefiro Malfilatre, Gilbert e Moreau, cantando sua agonia num leito de hospital, ao poeta mendicante, que, para preservar o luxo em torno de seu leito de morte, vende o próprio coração. Os desinteressados serão mais bem recompensados; uma felicidade duradoura os espera e seus nomes serão tanto mais poderosos quanto mais lágrimas tiverem derramado e mais suor e poeira coberto suas frontes. Isto é tudo quanto vos posso dizer a respeito, caro presidente, e aproveito a ocasião que se me apresenta para vos apertar a mão e reiterar todos os meus votos e meus sinceros sentimentos. Conservai sempre a coragem e a energia na tarefa que vos impusestes. Fazei calar os invejosos e os maledicentes que vos cercam por esta firmeza e simplicidade que vos assenta tão bem. Hoje é preciso ser positivo; não vos deixeis arrastar à pesquisa da Lua quando a Terra está aos vossos pés e que nesta tendes com que completar o vosso trabalho. Há materiais em abundância em torno de vós. Provai vossas teorias pelos fatos, e que vossos exemplos não se apoiem em teoremas algébricos, que nem todos poderiam compreender, mas sobre axiomas matemáticos. Uma criança sabe que dois e dois são quatro. Deixai correr na frente os que têm pernas compridas; eles quebrarão o pescoço e é inútil que os acompanheis na queda. Apressemo-nos com prudência; o mundo ainda é novo e os homens dispõem de tempo para se instruírem. O Sol se põe ao entardecer porque a obscuridade se faz necessária para compreendermos o seu brilho. Por vezes a verdade se veste de trevas para não ofuscar os que a olham muito de frente. P. – Dissestes que jamais vos comunicastes com aquela senhora. Contudo, ela afirma que a magnetizastes! Resp. – Pobre mulher! ela atribui a seres inteligentes o que só a tolice pode ditar, ou então algumas palavras muito boas e muito simples a grandes oráculos. É uma doença que não se deve contrair; tem sede nos nervos e se cura pela prudência e por duchas frias. Jobard (Médium: Sra. Delanne) Saudações fraternais a todos, meus bons amigos, que trabalhais com ardor para esclarecer a Humanidade. É preciso que redobreis a atenção, porque, neste momento, uma incrível revolução se opera entre os desencarnados. Também tendes entre eles adversários que se empenham em vos suscitar entraves, mas Deus vela por sua obra. Ele vos colocou como cabeça um chefe vigilante, dotado de sangue-frio, perspicácia e uma vontade enérgica para vos fazer vencer os obstáculos que os vossos inimigos visíveis e invisíveis erguem a cada instante aos vossos passos. Por isso ele não se enganou lendo esta comunicação; ele bem compreendeu que Jobard não podia falar assim, nem aprovar semelhante linguajar. Não, meus amigos, o Espiritismo não deve ser explorado por espíritas sinceros e de boa-fé. Pregais contra os abusos desta natureza, que desacreditam a religião; portanto, não podeis praticar o que condenais, porque afastais aqueles que o vosso desinteresse poderia trazer a vós. Alguma vez já refletistes seriamente nas funestas conseqüências das reuniões pagas? Compreendei bem que se Allan Kardec autorizasse semelhantes idéias, por seu silêncio ou sua aprovação tácita, em dois anos o Espiritismo estaria exposto a uma multidão de exploradores, e essa coisa santa e sagrada seria desacreditada pelo charlatanismo. Eis a minha opinião. Assim, repilo hoje, como sempre, toda idéia de especulação, seja qual for o pretexto, que entravasse a doutrina, em vez de ajudá-la. Empenhai-vos, no momento e antes de tudo, a reformar os homens por vossos ensinos e exemplos. Que vosso desinteresse e vossa moderação falem tão alto que nenhum de vossos adversários possa vos censurar. Estando cada um de vós colocado em posições diferentes, deveis trabalhar conforme vossas forças: Deus não pede o impossível. Tende confiança nEle, e deixai que cada coisa venha a seu tempo. Se Ele tivesse querido que o Espiritismo marchasse mais rapidamente, teria enviado mais cedo os grandes Espíritos que estão encarnados e que surgirão quase ao mesmo tempo em todos os pontos do globo, quando chegar o tempo. Enquanto esperais, preparai os caminhos com prudência e sabedoria. Coragem, caro presidente, cada dia as rédeas se tornam mais difíceis. Mas aqui estamos para vos sustentar e Deus vela por vós. Jobard (Médium: Sr. d’Ambel) Ora, ora! isto vos admira! Mas há tantos bobos no mundo dos Espíritos, como entre vós – e não vos estou ofendendo – que um bobo pôde dar a outro a comunicação sonambúlica em questão. Quanto ao médium, é preciso inquietar-se tanto? Deixai o tempo passar: é um grande reformador. Os que põem à venda sua mediunidade fazem como certas pessoas que, abrindo um baralho a seus consulentes, dizem: “Eis um homem da cidade, ou um homem do campo; há uma carta em caminho, eis o ás de ouro.” Quem sabe se, nalguns, não é uma volta ao passado, um resquício de antigos hábitos? Pois bem! tanto pior para os que caem nesta difícil situação. Não lucrarão e lamentarão que um dia hajam tomado o caminho errado. Tudo quanto vos posso dizer é que, estando completamente alheio a esse comércio, bem o sabeis, lavo as mãos e lamento a pobre Humanidade, porque ainda recorre a tais expedientes. Adeus, Jobard. OBSERVAÇÕES A necessidade de desinteresse nos médiuns de tal modo passou a ser um princípio, que teria sido supérfluo publicar o fato acima, se ele não oferecesse, além da questão principal, um notável exemplo de coincidência e uma prova manifesta de identidade, pela similitude de pensamentos e o cunho de originalidade que, de modo geral, caracterizam todas as comunicações do nosso antigo colega Jobard. É a tal ponto que quando ele se manifesta espontaneamente na Sociedade, é raro que, desde as primeiras linhas, não se adivinhe o autor. Assim, não se levantou nenhuma dúvida quanto à autenticidade das que acabamos de referir, ao passo que, nas que nos haviam pedido para controlar, a fraude salta aos olhos de quem quer que conheça a linguagem e o caráter do Sr. Jobard, bem como os princípios que ele havia professado constantemente, como homem e como Espírito. Teria sido irracional admitir que subitamente ele tivesse mudado em benefício dos interesses materiais de um indivíduo. Que trapaça desastrada! Quanto à questão do desinteresse, seria inútil repetir tudo quanto foi dito sobre esse ponto, e que se encontra admiravelmente resumido nas respostas do Sr. Jobard. Apenas acrescentaremos uma consideração, que não é sem importância. Certos médiuns exploradores julgam salvar as aparências fazendo-se pagar apenas pelos ricos, ou só aceitando uma contribuição voluntária. Em primeiro lugar, isto não deixa de ser um ofício, a exploração de uma coisa santa, e um lucro tirado do que se recebe gratuitamente. Quando Jesus e seus apóstolos ensinavam e curavam, não mercadejavam suas palavras, nem os seus cuidados, embora não tivessem renda para viver. Por outro lado, esta maneira de operar não é garantia de sinceridade nem afasta a suspeita de charlatanismo. Certos médicos e certos negociantes de artigos agem com segundas intenções no campo da filantropia, os primeiros dando consultas gratuitas, e os segundos vendendo com prejuízo, ou quase de graça. Em algumas ocasiões, a gratuidade é um meio de atrair a clientela produtiva. Existe, porém, outra consideração, ainda mais poderosa. Por que sinal reconhecer o que pode ou não pagar? A aparência por vezes é enganosa e, muitas vezes, uma roupa limpa oculta miséria maior que a blusa de um operário. Então é preciso declinar sua pobreza, seus títulos à caridade, ou exibir um atestado de indigência? Aliás, quem diz que o médium, mesmo admitindo de sua parte a maior sinceridade, terá a mesma solicitude para o que não paga, ou paga menos, do que para o que paga generosamente, e que não dará a cada um conforme o seu dinheiro? Que, se um rico e um pobre a ele se dirigissem ao mesmo tempo, não receberia primeiro o rico, que apenas tinha em vista satisfazer à vã curiosidade, enquanto o pobre, que talvez esperasse suprema consolação, seria atendido mais tarde? Sem o querer, sua consciência estará em luta com a tentação da preferência; será levado a olhar melhor para o que paga, ainda mesmo que lhe atirasse com desdém uma moeda de outro, como se faz com um mercenário, enquanto olhará com indiferença os parcos centavos que lhe apresentar timidamente o pobre envergonhado. Tais sentimentos são compatíveis com o Espiritismo? Não é manter entre o rico e o pobre essa demarcação humilhante, que já fez tanto mal, e que o Espiritismo deve fazer desaparecer, provando a igualdade do rico e do pobre perante Deus? pois Deus não mede os raios de seu sol pela fortuna, nem a esta pode subordinar mais consolações do coração que as prodigalizadas aos homens pelos Espíritos bons, seus mensageiros. Pensando bem, se houvesse uma escolha a fazer, preferiríamos o médium que cobrasse sempre, porque ao menos não há hipocrisia; sabe-se imediatamente com quem se está tratando.
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Mês Dezembro
Ano 1864