Além do mais, a multiplicidade sempre crescente dos médiuns em todas as camadas da sociedade e no seio da maioria das famílias, tira à mediunidade remunerada toda utilidade e toda razão de ser. Essa multiplicidade matará a exploração pelo sentimento de repulsa que a ela se liga.
Chamam-nos a atenção para o encerramento das atividades de um antigo e numeroso grupo espírita de província, organizado com propósitos interesseiros. O chefe desse grupo, bem como a família, tinha deixado de lado suas obrigações, sob o enganoso pretexto de devotamento à causa, à qual queria consagrar todo o seu tempo. Sua bolsa estaria garantida com os recursos que esperava tirar do Espiritismo. Infelizmente, a exploração da mediunidade está de tal modo desacreditada na província que, na maior parte das cidades, quem dela faz uma profissão, ainda que tivesse as mais transcendentes faculdades, não inspiraria a menor confiança; aí seria muito malvisto e todos os grupos sérios lhe fechariam as portas. A especulação não correspondeu à expectativa e consta que o chefe desse grupo teria se queixado, junto aos seus freqüentadores, pelas dificuldades por que passava, pedindo-lhes auxílio. Responderam-lhe que, se estava em apuros, a culpa era sua; que tinha errado em fechar a sua oficina para viver do Espiritismo e cobrar pelas instruções que os Espíritos lhe davam de graça; o médium refutou e pôs a culpa nos Espíritos. Dos nove médiuns presentes, aos quais a questão foi apresentada, oito receberam comunicações censurando sua maneira de agir; só uma o aprovou: era a de sua esposa. Submetendo-se de bom grado ao conselho dos Espíritos, o chefe do grupo anunciou que a partir daquele momento seu grupo estaria fechado. Por certo teria sido mais prudente escutar os conselhos que, desde muito tempo, lhe eram dados por amigos sinceros do Espiritismo.
Um outro grupo, em condições mais ou menos idênticas, aos poucos foi sendo abandonado por seus freqüentadores e, finalmente, forçado a se dissolver.
Assim, eis dois grupos que sucumbem sob a pressão da opinião. Escrevem-nos que o parágrafo da Imitação do Evangelho, número 392 e seguintes, por certo não é estranho a esse resultado.
Aliás, é impossível que todo espírita sincero, compreendendo a essência e os verdadeiros interesses da doutrina, se torne defensor e suporte de um abuso que, inevitavelmente, tenderia a desacreditá-la. Nós os exortamos a desconfiar das armadilhas que os inimigos do Espiritismo lhes tentassem estender a tal propósito. Sabe-se que em falta de boas razões para o combater, uma de suas táticas é buscar arruiná-lo por si mesmo. Assim, vê-se com que ardor espreitam as ocasiões de o surpreender em falta ou em contradição consigo mesmo. É por isto que os Espíritos nos dizem, sem cessar, que vigiemos e nos mantenhamos em guarda.
Quanto a nós, não ignoramos que nossa persistência em combater o abuso de que falamos não fizeram nossos amigos os que viram no Espiritismo uma matéria explorável, nem os que os sustentam. Mas, que nos importa a oposição de alguns indivíduos! Defendemos um princípio verdadeiro, e nenhuma consideração pessoal nos fará recuar ante o cumprimento de um dever. Nossos esforços tenderão sempre a preservar o Espiritismo da usurpação e da venalidade; o momento presente é o mais difícil, mas, à medida que a doutrina for mais bem compreendida, essa usurpação será menos temível, pois a opinião das massas lhe oporá uma barreira intransponível. O princípio do desinteresse, que satisfaz ao mesmo tempo o coração e a razão, terá sempre as mais numerosas simpatias, e o fará triunfar, pela força das coisas, sobre o princípio da especulação.