Considerações Sobre a Propagação da Mediunidade Curadora
É também a faculdade que mais escapa à acusação de charlatanice e de fraude; afronta a zombaria, porque nada há de risível num doente curado que a Ciência havia abandonado. O charlatanismo pode simular mais ou menos grosseiramente a maioria dos efeitos mediúnicos, e a incredulidade nele sempre procura os seus cordões.24 Mas onde encontrará os cordões da mediunidade curadora? Podem ser dados golpes de habilidade para os efeitos mediúnicos, e os efeitos mais reais, aos olhos de certa gente, podem passar por golpes de mestre, mas que daria quem tomasse indevidamente a qualidade de médium curador? De duas, uma: cura ou não cura. Não há simulacro que possa suprir uma cura. Ademais, a mediunidade curadora escapa completamente à lei sobre o exercício ilegal da Medicina, visto não prescrever nenhum tratamento. Com que penalidade se poderia atingir aquele que cura somente pela sua influência, secundada pela prece que, além disso, nada pede como preço de seus serviços? Ora, a prece não é uma substância farmacêutica. Em vossa opinião é uma parvoíce; seja. Mas se a cura está no fim dessa tolice, que direis vós? Uma tolice que cura vale bem os remédios que não curam. Puderam proibir o Sr. Jacob de receber doentes no campo e de ir à casa deles, e ele se submeteu dizendo que só retomaria o exercício de sua faculdade quando a interdição fosse levantada oficialmente, porque, sendo militar, quis mostrar-se escrupuloso observador da disciplina, por mais dura que fosse. Nisto agiu sabiamente, pois provou que o Espiritismo não leva à insubordinação; mas aqui é um caso excepcional. Desde que esta faculdade não é privilégio de um indivíduo, por que meio poderiam impedi-la de propagar-se? Se ela se propaga, queiram ou não, terão de aceitá-la com todas as suas conseqüências. Como a mediunidade curadora depende de uma disposição orgânica, muitas pessoas a possuem, ao menos em germe, mas fica em estado latente por falta de exercício e de desenvolvimento. É uma faculdade que muitos ambicionam, e com razão. Se todos os que desejam possuí-la a pedissem com fervor e perseverança pela prece, e com fim exclusivamente humanitário, é provável que, desse concurso, saísse mais de um verdadeiro médium curador. Não é de admirar ver pessoas favorecidas com esse dom precioso e que, à primeira vista, não parecem dignas desse favor. É que a assistência dos Espíritos bons é dispensada a todo o mundo, para abrir a todos a via do bem; mas cessa se não se souber tornar-se digno dela, melhorando-se. O mesmo se dá com os dons da fortuna, que nem sempre vem ao mais merecedor; é, então, uma prova para o uso que dela se faz: felizes os que saírem vitoriosos. Pela natureza de seus efeitos, a mediunidade curadora exige imperiosamente o concurso de Espíritos depurados, que não poderiam ser substituídos por Espíritos inferiores, enquanto há efeitos mediúnicos para a produção dos quais a elevação dos Espíritos não é uma condição necessária e que, por esta razão, são obtidos mais ou menos em qualquer circunstância. Certos Espíritos até, menos escrupulosos que outros quanto a estas condições, preferem os médiuns em que encontram simpatia. Mas pela obra se reconhece o obreiro. Há, pois, para o médium curador necessidade absoluta de atrair o concurso dos Espíritos superiores, se quiser conservar e desenvolver sua faculdade, senão, em vez de crescer, ela declina e desaparece pelo afastamento dos Espíritos bons. A primeira condição para isto é trabalhar em sua própria depuração, a fim de não alterar os fluidos salutares que está encarregado de transmitir. Esta condição não poderia ser preenchida sem o mais completo desinteresse material e moral. O primeiro é mais fácil; o segundo é mais raro, porque o orgulho e o egoísmo são os sentimentos mais difíceis de extirpar e porque várias causas contribuem para os superexcitar nos médiuns. Desde que um deles se revele com faculdades um pouco transcendentes – falamos aqui dos médiuns em geral, escreventes, videntes e outros – é procurado, adulado e alguns sucumbem à tentação da vaidade. Sem tardança, esquecendo que sem os Espíritos nada seria, considera-se como indispensável e o único intérprete da verdade; denigre os outros médiuns e se julga acima de conselhos. O médium que assim se encontra está perdido, porque os Espíritos se encarregam de lhe provar que podem passar sem ele, fazendo surgir outros médiuns mais bem assistidos. Comparando a série das comunicações de um mesmo médium, pode-se julgar facilmente se ele cresce ou degenera. Quantos vimos, oh! de todos os gêneros, cair triste e deploravelmente no terreno escorregadio do orgulho e da vaidade! Pode-se, pois, esperar ver surgir uma multidão de médiuns curadores. Nesse número, vários deles permanecerão como frutos secos e se eclipsarão, depois de terem brilhado passageiramente, enquanto outros continuarão a elevar-se. Eis um exemplo disto, que há seis meses nos assinalava um de nossos correspondentes. Num Departamento do Sul, um médium que se tinha revelado como curador, havia operado várias curas notáveis e sobre ele repousavam grandes esperanças. Sua faculdade apresentava particularidades que deram, num grupo, a idéia de fazer um estudo a respeito. Eis a resposta que obtiveram dos Espíritos, e que nos foi transmitida na ocasião. Ela pode servir de instrução a todos. “X... realmente possui a faculdade de médium curador notavelmente desenvolvida. Infelizmente, como muitos outros, ele exagera muito o seu alcance. É um excelente rapaz, cheio de boas intenções, mas que um orgulho desmesurado e uma visão extremamente curta dos homens e das coisas farão periclitar prontamente. Seu poder fluídico, que é considerável, bem utilizado e secundado pela influência moral, poderia produzir excelentes resultados. Sabeis por que muitos de seus doentes só experimentam um bem-estar momentâneo, que desaparece quando ele não mais está lá? É que ele age somente por sua presença, mas nada deixa ao Espírito para triunfar dos sofrimentos do corpo. “Quando parte, nada resta dele, nem mesmo o pensamento que segue o doente, no qual não pensa mais, ao passo que a ação mental poderia, em sua ausência, continuar a ação direta. Ele acredita em seu poder fluídico, que é real, mas cuja ação não é persistente, porque não é corroborada pela influência moral. Quando tem sucesso, fica mais satisfeito por ser notado do que por ter curado; e, contudo, é sinceramente desinteressado, pois coraria se recebesse a menor remuneração. Embora não seja rico, jamais pensou em fazer disto um recurso. O que deseja é que falem dele. Falta-lhe também a afabilidade de coração, que atrai. Os que vêm a ele ficam chocados por suas maneiras, que não geram simpatia, resultando uma falta de harmonia que prejudica a assimilação dos fluidos. Longe de acalmar e apaziguar as más paixões, ele as excita, crendo fazer o que é preciso para as destruir, e isto pela falta de raciocínio. É um instrumento desafinado; por vezes dá sons harmoniosos e bons, mas o conjunto só pode ser mau, ou, pelo menos, improdutivo. Também não é útil à causa quanto o poderia; a maior parte das vezes a prejudica, porque, por seu caráter, faz apreciar muito mal os resultados. É desses que pregam com violência uma doutrina de doçura e de paz.” P. – Então pensais que ele perderá o seu poder curador? Resp. – Estou persuadido disto, a menos que ele entrasse no bom caminho, o que, infelizmente, não o creio capaz. Os conselhos seriam supérfluos, porque está convicto de saber mais que todo o mundo. Talvez parecesse escutá-los, mas não os seguiria. Assim, perde duplamente o benefício de uma excelente faculdade. O acontecimento justificou a previsão. Mais tarde soubemos que esse médium, depois de uma série de insucessos que seu amor-próprio teve de sofrer, tinha renunciado a novas tentativas de curas. O poder de curar é independente da vontade do médium; é um fato constatado pela experiência. O que depende dele são as qualidades que podem tornar esse poder frutuoso e durável. Essas qualidades são, sobretudo, o devotamento, a abnegação e a humildade. O egoísmo, o orgulho e a cupidez são pontos de parada, contra os quais se quebra a mais bela faculdade. O verdadeiro médium curador, o que compreende a santidade de sua missão, é movido pelo único desejo do bem; não vê no dom que possui senão um meio de tornar-se útil aos semelhantes, e não um degrau para elevar-se acima dos outros e pôr-se em evidência. É humilde de coração, isto é, nele a humildade e a modéstia são sinceras, reais, sem pensamento dissimulado, e não em palavras, que muitas vezes desmentem os atos. A humildade por vezes é um manto, sob o qual se abriga o orgulho, mas que não poderia iludir ninguém. Não procura o brilho, nem a fama, nem o ruído de seu nome, nem a satisfação de sua vaidade; não há, em suas maneiras, nem jactância, nem bazófia; não exibe as curas que realiza, ao passo que o orgulhoso as enumera com complacência, muitas vezes as amplifica, e acaba por se convencer de que fez tudo o que diz. Feliz pelo bem que faz, não o é menos pelo que outros podem fazer; não se julgando o primeiro nem o último capaz, não inveja nem denigre nenhum médium. Para ele, os que possuem a mesma faculdade são irmãos que concorrem para o mesmo objetivo: ele diz que quanto mais os houver, maior será o bem.
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Mês Novembro
Ano 1866