XVII
O estudo atento da história dos povos não nos mostra somente o caráter universal da doutrina palingenésica. Permite-nos, talvez, seguir o encadeamento grandioso das causas e dos efeitos que repercutem através dos tempos, na ordem social. Nela vemos, principalmente, que esses efeitos renascem de si mesmos e volvem à sua causa, encerrando os indivíduos e as nações na rede de uma lei inelutável. Sob esse ponto de vista, as lições do passado são surpreendentes. Há um cunho de majestade, gravado no testemunho dos séculos, que impressiona o mais indiferente homem, o que nos demonstra a irresistível força do direito. Todo mal feito, o sangue vertido e as lágrimas derramadas recaem cedo ou tarde fatalmente sobre seus autores – indivíduos ou coletividades. Os mesmos fatos criminosos, os mesmos erros produzem as mesmas conseqüências nefastas. Enquanto os homens persistem em se hostilizarem uns aos outros, em se oprimirem, em se dilacerarem, as obras de sangue e luto prosseguem e a humanidade sofre até ao mais profundo das suas entranhas. Há expiações coletivas como há reparações individuais. Através dos tempos exerce-se uma justiça imanente, que faz desabrochar os elementos de decadência e destruição, os germens de morte, que as nações semeiam no seu próprio seio, cada vez que transgridem as leis superiores. Se lançarmos as vistas para a história do mundo, veremos que a adolescência da humanidade, como a do indivíduo, tem seus períodos de perturbações, de desvarios, de experiências dolorosas. Através de suas páginas desenrola-se o cortejo de misérias conseqüentes; as quedas profundas alternam com as elevações, os triunfos com as derrotas. Civilizações precárias assinalam as primeiras idades; os maiores impérios esboroam-se uns após outros na refrega das paixões. O Egito, Nínive, Babilônia e o império dos persas caíram. Roma e Bizâncio, roídas pela corrupção, baqueiam ao embate da invasão dos bárbaros. Depois da Guerra dos Cem Anos e do suplício de Joana d'Arc, a Inglaterra é açoitada por terrível guerra civil, a das Duas Rosas, York e Lencastre, que a conduz a dois passos de sua perda. Que é feito da Espanha, responsável por tantos suplícios e degolações, da Espanha com seus “conquistadores” e seu Santo Ofício? Onde está hoje esse vasto império no qual o Sol jamais se punha? Vede os Habsburg, herdeiros do Santo Império e, talvez, reencarnações dos algozes dos Hussitas? A Casa de Áustria é ferida em todos os seus membros: Maximiliano é fuzilado; Rodolfo cai no meio de uma orgia; a Imperatriz é assassinada. Chega a vez de François-Ferdinand e o velho imperador, com a cabeça encanecida, fica sozinho, em pé, no meio dos destroços de sua família e de seus Estados ameaçados de desagregação completa. Onde estão os impérios fundados pelo ferro e pelo sangue, dos Califas, dos Mongóis, dos Carlovíngios, de Carlos V? Napoleão disse: “Tudo se paga!” E ele mesmo pagou e a França pagou com ele. O império de Napoleão passou como um meteoro! Detenhamo-nos um instante nesse prodigioso destino, que, depois de haver lançado, em sua trajetória através do mundo, um clarão fulgurante, vai extinguir-se miseravelmente num rochedo do Atlântico. É bem conhecida de todos esta vida e, por conseguinte, melhor do que qualquer outra deve servir de exemplo; nela, como disse Maurice Maëterlinck, pode-se observar que as três causas principais da queda de Napoleão foram as três maiores iniqüidades que ele cometeu: “Foi, primeiro que tudo, o assassínio do Duque de Enghien, condenado por sua ordem, sem julgamento e sem provas, e executado nos fossos de Vincennes, assassínio que fez ao redor do ditador ódios daí em diante implacáveis e um desejo de vingança que nunca abrandou; foi, depois, a odiosa emboscada de Bayonne, a que ele atrai, por baixas intrigas, para despojá-los de sua coroa hereditária, os bonacheirões e excessivamente confiados Bourbons de Espanha; a horrível guerra que se seguiu, que tragou trezentos mil homens, toda a energia, toda a moralidade, a maior parte do prestígio, quase todas as garantias, quase todas as dedicações e todos os destinos felizes do Império; foi, finalmente, a horrorosa e indesculpável campanha da Rússia que terminou pelo desastre definitivo da sua fortuna nos gelos de Berezina, ou nas neves da Polônia.” (188) A história da diplomacia européia nos últimos cinqüenta anos não escapa a estas regras. Os autores de faltas contra a Eqüidade têm sido castigados como que por mão invisível. A Rússia, depois de dilacerada a Polônia, prestou seu apoio à Prússia para a invasão dos ducados dinamarqueses, “o maior crime de pirataria cometido nos tempos modernos” – diz um historiador. Foi por causa disso punida, primeiro pela própria Prússia que, em 1877, no Congresso de Berlim, desapossava-a de todas as vantagens obtidas sobre a Turquia; depois, mais cruelmente ainda, pelos reveses da Guerra da Mandchúria e sua terrível repercussão em todo o império dos czares. A Inglaterra, depois de ter arrastado a França à longa campanha da Criméia, que foi toda em seu favor, não deixou de continuar, mais ou menos por toda a parte, uma política fria, egoísta e homicida. Depois da Guerra do Transvaal, vê-se mais enfraquecida, aproximando-se talvez dos tempos que Sir Robert predisse em termos que causam admiração: “A habilidade de nossos homens de Estado os imortalizará, se, para nós, suavizarem essa descida, de modo a evitar que se transforme numa queda; se a dirigirem de modo a fazê-la parecer-se com a Holanda e não com Cartago e Veneza.” O destacamento da Irlanda, do Egito, a revolta dos Indianos vieram a confirmar essas previsões. Tal será a sorte de todas as nações que foram grandes por seus filósofos e pensadores, mas que tiveram a fraqueza de pôr seus destinos nas mãos de políticos ávidos e desonestos. Napoleão III, no exílio, Bismarck, em desvalimento e doloroso retiro, começaram a expiar o seu pouco respeito às leis morais. Não insistimos sobre esses fatos. Não vimos desenvolver-se sob nossos olhos, de 1914 a 1918,(189) o drama imenso e vingador, que deixou a Alemanha vencida, punida por seu orgulho e por seus crimes? Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que a França recebia uma lição terrível, talvez por causa da leviandade, imprevidência e sensualismo de um grande número de seus filhos; mas, com a vitória, encontrava o seu prestígio no mundo. Assim se afirmava uma vez mais a grande missão, o papel providencial que lhe parece destinado e que consiste em proclamar e defender, de todas as formas, pelo verbo e pela espada, o direito, a verdade, a justiça! A Alemanha e a Áustria, aventuradas num pacto e numa cumplicidade ferozes, tinham sonhado com o domínio da Europa e do mundo: uma sobre o Oriente e a outra sobre o Ocidente. Na perseguição desse objetivo, calcaram os pés nos empenhos mais solenes, por exemplo, para com a Bélgica; não recuaram diante dos crimes mais odiosos. Qual foi o resultado? Após quatro anos de luta encarniçada, os impérios centrais rolaram no abismo. A Áustria é apenas um fantasma de nação, a Alemanha diminuiu, arruinada, presa às lutas internas e a todos os males econômicos. Não é a repercussão dos acontecimentos de 1870 a 1871? Por sua vez, os alemães tiveram que conhecer a derrota e a anarquia. Talvez, em nenhuma outra guerra, a luta de dois princípios ficou tão evidente. De um lado, a força brutal, do outro, o direito e a liberdade. E o que prova que Deus não se desinteressou pelo destino de nosso pequeno globo é que o direito venceu! Pode-se dizer que, como os gregos em Maratona e em Salamina, os soldados de Marne e de Verdun, sustentados por esses poderes invisíveis, preservaram a humanidade do domínio da espada e salvaram a civilização.(190) Este será o justo julgamento da História! Sim, a História é um grande ensino, podemos ler em suas profundezas a ação de uma lei poderosa. Através da sucessão dos acontecimentos, sentimos, por vezes, perpassar como que um sopro sobre-humano; no meio da noite dos séculos vemos luzirem, por um instante, como relâmpagos, as radiações de um pensamento eterno. Para os povos, como para os indivíduos, há uma justiça; no que respeita aos povos, podemos seguir-lhes a marcha silenciosa. Vemo-la muitas vezes manifestar-se através do encadeamento dos fatos. Não sucede o mesmo com relação ao indivíduo. Nem sempre ela é visível como na vida de Napoleão. Não se lhe pode seguir a marcha quando sua ação, em vez de ser imediata, se exerce a longo prazo. A reencarnação, o regresso à carne, o escuro invólucro da matéria que cai sobre a alma e produz o esquecimento, encobrem-nos a sucessão dos efeitos e das causas; mas, como vimos, particularmente nos fenômenos do transe, desde que podemos erguer o véu estendido sobre o passado e ler o que está gravado no fundo do ser humano, então, na adversidade que o fere, nas grandes dores, nos reveses, nas aflições pungentes, somos obrigados a reconhecer a ação de uma causa anterior, de uma causa moral, e a nos inclinarmos ante a majestade das leis que presidem aos destinos das almas, das sociedades e dos mundos! O plano da História desenrola-se em suas linhas formidáveis. Deus envia à humanidade seus messias, seus reveladores, visíveis e invisíveis, os guias, os educadores de todas as ordens; mas o homem, na liberdade de seus pensamentos, de sua consciência, escuta-os ou desatende-os. O homem é livre; as incoerências sociais são obra sua. Ele lança a sua nota confusa no comércio universal, mas essa nota discordante nem sempre consegue dominar a harmonia dos séculos.
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Título As vidas sucessivas – Provas históricas
Parte Segunda
Título da Parte O Problema do Destino