XVII
Os gênios enviados do Alto brilham como faróis na escuridão da noite. Sem remontarmos à mais alta Antigüidade, sem falarmos dos Hermes, dos Zoroastros, dos Krishnas, desde a aurora dos tempos cristãos vimos erguer-se a estátua enorme dos profetas, gigantes que avultam também na História. Foram eles, com efeito, que prepararam as vias do Cristianismo, a religião dominadora, da qual mais tarde há de nascer, no evolver dos tempos, a fraternidade universal. Depois vemos o Cristo, o homem de dor, o homem de amor, cujo pensamento irradia, como beleza imperecível, o drama do Gólgota, a ruína de Jerusalém, a dispersão dos judeus. Aquém do mar azul, o desabrochar do gênio grego, foco de educação, esplendor de arte e ciência, há de iluminar a humanidade. Finalmente, o poder romano, que ensinará ao mundo o direito, a disciplina, a vida social. Voltam, depois, os tempos de torva ignorância, mil anos de barbárie, a grande vaga e a revessa das invasões, a emergência dos elementos ferozes na civilização, o rebaixamento do nível intelectual, a noite do pensamento; mas aparecem Gutenberg, Cristóvão Colombo, Lutero. Erguem-se as catedrais góticas, revelam-se continentes desconhecidos, a Religião entra na disciplina. Graças à Imprensa, o novo pensamento espalhar-se-á por todos os pontos do mundo. Depois da Reforma virá a Renascença e, em seguida, as Revoluções! E eis que, após muitas vicissitudes, lutas e dilacerações, a despeito das perseguições religiosas, das tiranias civis e das inquisições, o pensamento se emancipa. O problema da vida que, com as concepções de uma igreja que se tornara fanática e cega, continuava impenetrável, vai esclarecer-se de novo. Qual estrela sobre o mar brumoso, reaparece a grande lei. O mundo vai renascer para a vida do espírito. A existência humana deixará de ser um escuro beco sem saída para se transformar em estrada largamente aberta para o futuro. As leis da Natureza e da História completam-se e afirmam-se na sua unidade imponente. Uma lei circular preside à evolução dos seres e das coisas, rege a marcha dos séculos e das humanidades. Cada destino gravita num círculo imenso, cada vida descreve uma órbita. Toda a ascensão humana divide-se em ciclos, em espirais que se vão amplificando, de modo a tomar um sentido cada vez mais universal. Assim como a Natureza se renova sem cessar em suas ressurreições, desde as metamorfoses dos insetos até o nascimento e a morte dos mundos, assim também as coletividades humanas nascem, desenvolvem-se e morrem nas suas formas sucessivas; mas, não morrem senão para renascer e crescer em perfeições, em instituições, artes e ciências, cultos e doutrinas. Nas horas de crise e desvario, surgem enviados que vêm restabelecer as verdades obscurecidas e encaminhar a humanidade. E, não obstante a emigração das melhores almas humanas para as esferas superiores, as civilizações terrestres vão-se regenerando e as sociedades evolvem. A despeito dos males inerentes ao nosso Planeta, a despeito das múltiplas necessidades que nos oprimem, o testemunho dos séculos diz-nos que, em sua ascensão secular, as inteligências apuram-se, os corações tornam-se mais sensíveis, a humanidade, no seu conjunto, sobe devagar; a contar de hoje ela aspira à paz na solidariedade. Em cada renascimento volve o indivíduo à massa; a alma, reencarnando, toma nova máscara; as respectivas personalidades anteriores apagam-se temporariamente. Reconhecem-se, entretanto, através dos séculos, certas grandes figuras do passado; torna-se a encontrar Krishna no Cristo e, em ordem menos elevada, Vergílio em Lamartine, Vercingetorix em Desaix, César em Napoleão. Em certa mendiga, de feições altivas, de olhar imperioso, acocorada sobre uma esterqueira às portas de Roma, coberta de úlceras e estendendo a mão aos transeuntes, poder-se-ia, segundo as indicações dos Espíritos, no século passado, reconhecer Messalina. Quantas outras almas culpadas vivem em torno de nós escondidas em corpos disformes, expostas a males que elas por si mesmas prepararam e, de alguma sorte, moldaram com seus pensamentos, com seus atos de outrora? O Dr. Pascal exprime-se assim, a esse respeito: “O estudo das vidas anteriores de certos homens, particularmente feridos, revelou estranhos segredos. Aqui, uma traição, que causa uma carnificina, é punida, passados séculos, com uma vida dolorosa desde a infância e com uma enfermidade que traz a marca da sua origem – a mudez: os lábios que traíram já não podem falar; ali, um inquisidor torna à encarnação, com um corpo doente desde a meninice, para um meio familiar eminentemente hostil e com intuições nítidas da crueldade passada; os sofrimentos físicos e morais mais agudos acossam-no sem afrouxar.” (191) Esses casos são mais numerosos do que se supõe; cumpre ver neles a aplicação de uma regra inflexível. Todos os nossos atos, consoante sua natureza, traduzem-se por um acréscimo ou diminuição de liberdade; daí, para os culpados, o renascimento em invólucros miseráveis, prisões da alma, imagens e repercussão de seu passado. Nem os problemas da vida individual nem os da vida social se explicam sem a lei dos renascimentos; todo o mistério do ser se resume nela! É dela que nosso passado recebe sua luz e o futuro se engrandece; nossa personalidade amplifica-se inesperadamente. Compreendemos que não é de ontem que data o nosso aparecimento no universo, como ainda é crença de muitos; mas, ao inverso, nosso ponto de origem, nosso primeiro nascimento afunda-se na escuridão dos tempos. Sentimos que mil laços, tecidos lentamente através dos séculos, prendem-nos à humanidade. É nossa a sua história; havemos viajado com ela no oceano das idades, afrontando os mesmos perigos, sofrendo os mesmos reveses. O esquecimento dessas coisas é apenas temporário; dia virá em que um mundo completo de recordações reavivar-se-á em nós. O passado, o futuro e toda a História tomarão a nossos olhos um novo aspecto, um interesse profundo. Aumentará nossa admiração à vista de tão magníficos destinos. As leis divinas parecer-nos-ão maiores, mais sublimes, e a própria vida tornar-se-á bela e desejável, apesar de suas provas, de seus males!
TAG Valor
Título As vidas sucessivas – Provas históricas
Parte Segunda
Título da Parte O Problema do Destino