XVIII
Do que se depreende que, em matéria de lixo mental, o caminho certo é o da profilaxia, da prevenção, muito mais do que o da terapêutica. Em outras palavras: é infinitamente melhor tomar a vacina para não se contaminar contra o vírus do que encher-se de remédios para se livrar dele, depois que o mesmo está instalado. Se conseguirmos que não entre mais lixo em nossa mente, já teremos alcançado importante vitória nas inúmeras batalhas da vida. Insisto em dizer, contudo, que o médium, ou qualquer outro participante de trabalhos mediúnicos, não tem obrigação de levar uma existência monástica, preservado em atmosfera asséptica, dentro de uma redoma de vidro. A vida está aí para ser vivida, com as suas experiências, confrontos, vitórias, derrotas - pois estas nos ensinam, também, importantes lições. Como iriamos opinar sobre os problemas da vida - que são todos os problemas humanos - se não participamos dela? Como ajudar os que nos buscam com as suas aflições, se nunca soubermos o que é uma dificuldade, um problema, uma dor? Nem a prática espírita em geral, nem a mediunidade em particular, exige como condição preliminar um estado de santidade de todos e de cada um. Sê assim fosse, não haveria ninguém entre nós, ou seriam raros aqueles em condições de exercer tais atividades. O importante em tudo isso é que não nos deixemos arrastar pelos chamamentos da inferioridade que remanesce em nós, em decorrência de antigas e recentes atitudes equívocas ou francamente desarmonizadas. Sobre esse aspecto. Regina tem isto a dizer: " ... o que mais temos dentro de nós são sensações negativas e deformadas, trazidas do passado. Por isso é muito mais fácil sintonizar com o negativo, do que com o positivo." Agora, como livrar-se? Isto já é mais difícil. Com exercícios constantes de auto-reforma interior, meditando e orando muito. Pedindo ajuda aos amigos espirituais que nos mostrem as coisas erradas que há dentro de nós para possamos eliminá-las. Aceitando a nossa própria realidade de seres inferiores e cheios de mazelas morais e temando nos melhorar, dia a dia. É uma luta enorme, difícil. Mas é o que nos cabe fazer. Não adianta querer ser bom e puro de uma hora para outra. Há que trabalhar, e muito mesmo. Carregamos séculos de erros e alguns anos (na existência atual) de boas intenções. É claro que não podemos mudar sem esforço. 6. REFORMA MORAL Isto nos leva de volta ao tema central de todo o conceito do chamado desenvolvimento mediúnico. Afinal de contas, o objetivo básico do espiritismo é, segundo Kardec - a reforma moral do indivíduo. O problema fundamental da mediunidade iniciante não está em desenvolvê-la, pois, quando a pessoa vem programada para o trabalho mediúnico, as faculdades correspondentes saberão encontrar seus próprios caminhos para se expressarem. Só precisam ser acompanhadas. No dia em que todos entenderem que a mediunidade é uma faculdade normal do ser humano, como a de desenhar, escrever, cozinhar ou tocar piano, será muito facilitada a tarefa de desenvolvê-la em si mesma e ajudar a desenvolvê-la nos outros. É só deixar que ela siga o seu rumo, dentro do ritmo que lhe é próprio. Ninguém ensina uma planta a crescer ou um recém-nascido a mamar. Para que a planta se desenvolva, precisa apenas que lhe sejam proporcionadas as condições adequadas de terreno, umidade, luz, adubagem, combate às pragas, temperatura apropriada etc. Crescer, ela sabe fazer sozinha, pois para isso veio programada, desde a semente. Alguns dirigentes, porém, acham que o médium precisa ser podado neste ou naquele aspecto, ou que tem de trabalhar desta ou daquela maneira, sem abrir os olhos, por exemplo, ou jamais permitir que o espírito manifestante se irrite, ou que não receba mensagens de espíritos considerados importantes, ou que mantenha as mãos sobre a mesa, sem agitar-se. São tantas as restrições e imposições que, em vez de desenvolver-se, a planta se estiola ou cresce torta, anêmica, sem vitalidade. Em vez de disciplina - que é necessária - é preciso evitar que se imponha um regime de opressão que iniba a mediunidade nascente e lhe retire todo o frescor da espontaneidade. Por que razão todos os médiuns têm de ser iguais nas suas manifestações mediúnicas? Quando se descobre algum talento numa criança, como o da música, por exemplo, ela é estimulada a buscar realizar-se naquilo que faz como que por instinto, que é ouvir, executar ou compor música. É preciso proporcionar-lhe condições para que desenvolva seus talentos, instrumentos para tocar, professores e instrutores que lhe ensinem as diferentes técnicas e a teoria musical de que ela necessita para chegar a expressar-se convenientemente na arte de sua escolha. Seria lamentável, porém, que a obrigassem a tocar piano, se ela quer aprender violino, ou a compor exatamente como Beethoven, porque este foi um grande compositor, ou tocar como Paganini porque este foi um estupendo violinista. O que se deseja dela é que seja uma boa pianista, uma boa compositora ou uma competente violinista, não que adote precisamente este ou aquele padrão arbitrariamente escolhido para ela. Se o indivíduo é pintor, que pinte com a sua sensibilidade e que aplique nos problemas suscitados na comunicação da sua mensagem artística as soluções que, a seu ver, lhe pareçam mais adequadas; não que pinte no estilo de Van Gogh, Raphael ou Giotto. Ele precisa de telas, pincéis, tintas e de alguém que lhe guie os passos na exploração das técnicas exigidas, mas que lhe seja permitido abrir os seus próprios caminhos. Na arte, como na mediunidade, a padronização é indesejável. Na realidade, ninguém ensina ao médium como ser médium, tanto quanto ninguém ensina ao artista a ser artista; isso eles são capazes de fazer por si mesmos. No caso do médium, o que se tem a fazer é estimular nele uma boa 'arrumação' da sua mente, uma disciplina de suas emoções, dos seus impulsos e do seu comportamento. Mesmo aí, contudo, a disciplina não deve ser imposta a grito, na base da intolerância, da rigidez intransigente. O médium precisa de apoio, esclarecimento, compreensão e crítica, certamente construtiva e moderada, firme e amorosa; mas nunca inibidora e sufocante, possessiva e arbitrária. É preciso ajudá-lo a ser, acima de tudo, uma boa pessoa; um ser pacificado e ajustado, tanto quanto lhe permitam suas condições humanas. Conseguido isso, a mediunidade correta será conseqüência natural e espontânea. O médium não deve ser endeusado e nem escravizado; nem indisciplinado ou inibido. Se, ao cabo de algum tempo, verificar-se que as faculdades embrionárias que traz no seu psiquismo não se desenvolvem, nesta ou naquela direção deve ser redirecionado para outro setor de trabalho ou desestimulado a prosseguir forçando a eclosão de faculdades para o exercício das quais não está programado. Sabemos de casos em que, só porque a pessoa, às vezes, ouve vozes ou traça alguns rabiscos no papel, fica presa à mesa mediúnica anos à fio, segurando um lápis diante de uma folha de papel ou esperando que espíritos se manifestem por 'incorporação'. Pura perda de tempo. Poderia estar dando passes, talvez, ou visitando doentes em hospitais, arrecadando víveres para distribuir aos necessitados, ou ainda, empenhado em alguma tarefa manual no centro que freqüenta. Se é verdade que todos temos algum conteúdo mediúnico em potencial, não é menos verdadeiro que nem todos estamos destinados a ser médiuns dessa ou daquela modalidade. Assim é que se perdem muitas oportunidades, dado que ficam criaturas, metade da vida à espera de se tornarem, um dia, psicógrafos, por exemplo deixam de realizar a tarefa para a qual vieram programadas. E, além do mais, para que tanto psicógrafo? O que não nos faltam são textos psicografados de boa qualidade para estudar e meditar, enquanto sobram, como já vimos textos que não oferecem a mínima condição de serem aproveitados. Como pode o leitor observar, voltamos ao mesmo ponto crítico de sempre: o do preparo do médium como pessoa humana. Esse é o aspecto vital em todo o esquema do desenvolvimento da mediunidade. A rigor, médium, é desde que renasceu com as programações correspondentes, na trilogia corpo/perispírito/espírito. O que tem ele a fazer para que suas faculdades funcionem a contento é criar em si mesmo condições adequadas de comportamento, de seriedade, de harmonização interior. Nisso é que está o seu programa de ação e o daqueles que se incumbem de orientá-lo e que, muitas vezes acarretam-lhe ainda mais desorientação. Ninguém precisa ensinar ao rio que leito escolher, que traçado fazer na face da terra. As águas podem ser disciplinadas e canalizadas; o rio pode ser cortado de pontes; suas águas podem ser preservadas da poluição para que a vida encontre nelas abrigo e sustento; suas cachoeiras podem ser aproveitadas para gerar energia elétrica, mas é preciso deixar que ele siga o seu curso. Ele sabe fazê-lo até que, cumprida a tarefa, suas águas se entregam ao mar imenso. A diferença de um bom médium e um médium desajustado não está na mediunidade, mas no caráter de um e de outro; na formação moral; no esforço que um faz, e outro não, para criar as condições adequadas de comportamento. Nisso, como vimos, é que diferem os médiuns dos artistas. O compositor emocionalmente desajustado pode produzir uma sinfonia tão bela quanto a de outro companheiro equilibrado e sensato, e ninguém notará diferença alguma de técnica ou de beleza se realmente forem boas sinfonias. O trabalho do médium, nesse ponto, é infinitamente mais delicado, porque suas condições morais afetam definitivamente a qualidade do seu trabalho, num sentido ou noutro, para o bem ou para o mal. Daí a sua responsabilidade e a responsabilidade correspondente daqueles que se propõem a ajudá-lo no desenvolvimento de suas faculdades.
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