O Espiritismo Diante da História e da Igreja
5. – Por seu lado, os Pais da Igreja interpretaram admiravelmente a doutrina das Escrituras sobre a existência e a intervenção dos Espíritos: Nada há no mundo visível que não seja regido e disposto pela criatura invisível, diz São Gregório. Neste mundo cada ser vivo tem um anjo que o dirige, acrescenta Santo Agostinho. Os anjos, diz São Gregório de Nazianza, são os ministros da vontade de Deus; eles têm, naturalmente e por comunicação, uma força extraordinária; percorrem todos os lugares e se acham em toda parte, tanto pela prontidão com que exercem seu ministério, quanto pela leveza de sua natureza. Uns são encarregados de velar sobre alguma parte do Universo, que lhes é marcada por Deus, de quem dependem em todas as coisas; outros estão na guarda das cidades e das igrejas; ajudam-nos em tudo quanto fazemos de bom. 6. – Em relação à razão fundamental, Deus governa imediatamente o Universo; mas relativamente à execução, há coisas que ele governa por outros intermediários. 7. – Quanto à própria evocação dos Espíritos, almas, anjos ou demônios, e a todas as práticas da magia, de que o Espiritismo não passa de uma forma, mais ou menos disfarçada de charlatanismo, é uma prática tão antiga quanto a crença nos próprios Espíritos. 8. – São Cipriano assim explica os mistérios do Espiritismo pagão: “Os demônios, diz ele, introduzem-se nas estátuas e nos simulacros que o homem adora; são eles que animam as fibras das vítimas, que inspiram com seu sopro o coração dos adivinhos e dão uma voz aos oráculos. Mas como podem curar? Laedunt primo, diz Tertuliano, postque laedere desinunt, et curasse creduntur. Primeiro ferem e, cessando de ferir, passam por curar.” Na Índia são os Lamas e os bramanitas que, desde a mais alta antiguidade, têm o monopólio dessas mesmas evocações, que ainda continuam. “Faziam comunicar-se o Céu com a Terra, o homem com a Divindade, absolutamente como nossos médiuns atuais. A origem desse privilégio parece remontar à gênese mesma dos hindus e pertencer à casta sacerdotal desses povos. Saída do cérebro de Brama, a casta sacerdotal deve ficar mais perto da natureza desse Deus criador e entrar mais facilmente em comunicação com ele do que a casta guerreira, nascida de seus braços e, com mais forte razão, que a casta dos Párias, formada da poeira de seus pés.” 9. – Mas o fato mais interessante e mais autêntico da História é, sem contradita, a evocação de Samuel4 pelo médium da pitonisa de Endor, que interroga Saul: “Samuel tinha morrido, diz a Escritura; toda Israel o tinha chorado, e ele fora enterrado na cidade de Ramatá, lugar de seu nascimento. E Saul havia expulsado os magos e os adivinhos de seu reino. Estando então reunidos, os filisteus vieram acampar em Sunam; por seu lado, Saul reuniu todas as tropas de Israel e veio para Gilboé. Tendo visto o exército dos filisteus, foi tomado de espanto e de temor até o fundo do coração. Consultou o Senhor; mas o Senhor não lhe respondeu, nem em sonhos, nem pelos sacerdotes, nem pelos profetas. Então disse aos seus oficiais: “Procurai-me uma mulher que tenha o Espírito de Píton, para que me encontre com ela e a consulte.” Seus servidores lhe disseram: “Há uma mulher em Endor que tem um Espírito de Píton.” Saul disfarçou-se, vestiu outras roupas e se foi, acompanhado apenas por dois homens. Veio a noite, chegaram à casa dessa mulher e lhe disse: “Consultai para mim o Espírito de Píton e evocai-me aquele que eu vos disser.” A mulher lhe respondeu: “Bem sabeis o que fez Saul e de que maneira exterminou os mágicos e os adivinhos de todas as suas terras. Por que, então, armais uma cilada para me perder?” Então Saul lhe jurou pelo Senhor, dizendo: “Viva o Senhor! Nenhum mal vos sobrevirá por isso.” A mulher lhe disse: “Quem quereis ver?” Ele lhe respondeu: “Fazei-me vir Samuel.” A mulher, tendo visto Samuel, soltou um grande grito, e disse a Saul: “Por que me enganastes? porque sois Saul.” O rei lhe disse: “Não temais. Que vistes? – Vi, disse ela, um deus que saía da terra. Saul lhe disse: “Como é a sua figura?” – “É, disse ela, um velho envolto num manto.” Então Saul reconheceu que era Samuel; e lhe fez uma profunda reverência, curvando-se até o chão. Samuel disse a Saul: “Por que perturbastes meu repouso, fazendo-me evocar?” Saul lhe respondeu: “Estou em grande dificuldade. Os filisteus me fazem guerra e Deus se retirou de mim; não me quis responder nem pelos profetas, nem em sonhos. Eis por que vos fiz evocar, a fim de que ensineis o que devo fazer.” Samuel lhe disse; “Por que vos dirigis a mim, já que o Senhor vos abandonou e passou ao vosso rival? Porque o Senhor vos tratará como eu disse de sua parte. Ele destroçará o vosso reino por vossas mãos para o dar a Davi, vosso genro, porque não obedecestes à voz do Senhor, nem executastes a sentença de sua cólera contra os amalequitas. É por isso que o Senhor vos envia hoje aquilo que sofreis. Ele entregará mesmo Israel convosco nas mãos dos filisteus. Amanhã estareis comigo, vós e o vosso filho; e o Senhor abandonará aos filisteus o próprio campo de Israel.” De súbito, caiu Saul estendido por terra e foi tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel; e faltavam-lhe as forças, porque não comera pão todo aquele dia e toda aquela noite. A maga veio a ele na perturbação em que estava e lhe disse: “Vedes que vossa serva vos obedeceu, que expus minha vida por vós e que atendi ao que desejáveis de mim.” “Eis que há quarenta anos faço profissão de evocar os mortos ao serviço de estranhos, diz Philon após esse relato; mas jamais vi semelhante aparição. O Eclesiástico encarregou-se de nos provar que se trata de uma verdadeira aparição, e não de uma alucinação de Saul. Samuel, diz o Espírito-Santo, depois de sua morte falou ao rei, predisse o fim de sua vida e, saindo da terra, ergueu sua voz para profetizar a ruína de sua nação, por causa de sua impiedade.”
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Mês Janeiro
Ano 1868