Contudo, não lhe faltaram meios de ação. Não tem pessoal e recursos materiais imensos? as pregações desde as capitais até as menores aldeias? a pressão que exerce sobre as consciências pela confissão? o terror das penas eternas? a instrução religiosa que acompanha a criança durante todo o curso de sua educação? o prestígio das cerimônias do culto e de sua ancianidade? Como é que uma doutrina, apenas desabrochada, que não tem sacerdotes, nem templos, nem culto, nem pregações; que é combatida com rigor pela Igreja, caluniada, perseguida como o foram os primeiros cristãos, em tão pouco tempo reconduziu à fé e à crença na imortalidade um tão grande número de incrédulos? Entretanto, a coisa não é muito difícil, pois basta à maioria ler alguns livros para se dissiparem todas as dúvidas.
Tirai daí as conclusões que quiserdes; mas confessai que, se isto é obra do diabo, ele fez o que vós mesmos não pudestes fazer, e que ele se desobrigou da vossa tarefa.
Por certo direis que o que depõe contra o Espiritismo é que ele não emprega, para convencer, os mesmos argumentos que vós, e que, se triunfa da incredulidade, não conduz completamente a vós.
Mas o Espiritismo não tem a pretensão de marchar convosco, nem com ninguém; ele mesmo faz os seus trabalhos, e como entende. A incredulidade foi refratária aos vossos argumentos; de boa-fé acreditaríeis que o Espiritismo teria triunfado servindo-se dos mesmos? Se um médico não cura um doente com um remédio, outro médico o curará empregando o mesmo remédio?
O Espiritismo não procura reconduzir os incrédulos ao seio absoluto do catolicismo, nem ao de qualquer outro culto. Em lhes fazendo aceitar as bases comuns a todas as religiões, ele destrói o principal obstáculo e os leva a fazer a metade do caminho; cabe a cada um fazer o resto, no que lhe concerne; as que fracassam dão uma prova manifesta de incapacidade.
Desde o instante que a Igreja reconhece a existência de todos os fatos de manifestações sobre os quais se apóia o Espiritismo; que ela os reivindica para si mesma, a título de milagres divinos; que, entre os fatos que se passam nos dois campos, há uma analogia completa, quanto aos efeitos, analogia que o Sr. abade Poussin demonstra com a última evidência e peças de apoio, pondo-as à vista, toda a questão se reduz, então, em saber se é Deus que age de um lado e o diabo do outro. É uma questão pessoal. Ora, quando duas pessoas fazem exatamente a mesma coisa, conclui-se que uma é tão poderosa quanto a outra. Toda a argumentação do Sr. Poussin termina, assim, por demonstrar que o diabo é tão poderoso quanto Deus.
De duas coisas, uma: ou os efeitos são idênticos, ou não o são; se são idênticos, é que provêm de uma mesma causa, ou de duas causas equivalentes; se não o são, mostrai em que diferem.
Nos resultados? Mas, então, a comparação seria em favor do Espiritismo, porque ele reconduz a Deus os que nele não acreditavam.
Está, pois, bem entendido, por decisão formal das autoridades competentes, que os Espíritos que se manifestam não são, nem podem ser, senão demônios. Convenhamos, entretanto, senhor abade, que se esses mesmos Espíritos, em vez de contradizerem a Igreja sobre alguns pontos, tivessem sido em tudo de sua opinião, se tivessem vindo apoiar todas as suas pretensões temporais e espirituais, aprovar sem restrição tudo quanto ela diz e faz, ela não os chamaria de demônios, mas antes de Espíritos angélicos.
O abade Poussin escreveu o seu livro, diz ele, tendo em vista premunir os fiéis contra os perigos que pode correr sua fé, pelo estudo do Espiritismo. É testemunhar pouca confiança na solidez das bases sobre as quais está assentada esta fé, já que pode ser abalada tão facilmente. O Espiritismo não tem o mesmo receio.
Tudo quanto puderam dizer e fazer contra ele não lhe fez perder uma polegada de terreno, pois que o ganha todos os dias; entretanto, não faltou talento a mais de um de seus adversários. As lutas empenhadas contra ele, longe de o enfraquecer, o fortificaram; elas contribuíram poderosamente para o espalhar mais rapidamente do que o teria feito sem isto, de tal sorte que esta rede que, em alguns anos envolveu a sociedade inteira, é, em grande parte, obra de seus antagonistas. Sem nenhum dos meios materiais de ação, que fazem os sucessos neste mundo, ele não se propagou senão pelo poder da idéia. Desde que os argumentos, com o auxílio dos quais o combateram, não o derrubaram, é que, aparentemente, os julgaram menos convincentes que os seus. Quereis ter o segredo de sua fé? ei-lo: é que antes de crer, compreendem.
O Espiritismo não teme a luz; ele a chama sobre suas doutrinas, porque quer ser aceito livremente e pela razão. Longe de temer para a fé dos espíritas a leitura das obras que o combatem, ele lhes diz: Lede tudo; os prós e os contras, e escolhei com conhecimento de causa. É por isto que assinalamos à sua atenção a obra do abade Poussin.2 Damos a seguir, sem comentários, alguns fragmentos tirados da primeira parte: 1. – Certos católicos, mesmo piedosos, em matéria de fé têm singulares idéias, resultado inevitável do cepticismo ambiente que, mau grado seu, os domina e dos quais sofrem a influência deletéria. Falai de Deus, de Jesus-Cristo, eles aceitam tudo imediatamente; mas se tentardes falar do demônio, e sobretudo da intervenção diabólica na vida humana, não mais vos escutam. Como os nossos racionalistas contemporâneos, de boa vontade tomariam o demônio como um mito ou uma personificação fantástica do gênio do mal, os êxtases dos santos por fenômenos de catalepsia e as possessões diabólicas, mesmo as do Evangelho, se não como epilepsia, ao menos como parábolas. São Tomás3, em sua linguagem precisa, responde em duas palavras a esse perigoso cepticismo: “Se a facilidade de ver falar o demônio, diz ele, procede da ignorância das leis da Natureza e da credulidade, a tendência geral a não ver a sua ação em parte alguma procede da irreligião e da incredulidade.” Negar o demônio é negar o Cristianismo e negar Deus.
2. – A crença na existência dos Espíritos e sua intervenção no domínio de nossa vida, mais ainda, o próprio Espiritismo ou a prática da evocação dos Espíritos, almas, anjos ou demônios, remontam à mais alta antiguidade, e são tão antigas quanto o mundo. – Sobre a existência e o papel dos Espíritos, interroguemos, primeiramente, nossos livros santos, os mais antigos e os mais incontestados livros de História e, ao mesmo tempo, o código divino de nossa fé. O demônio seduzindo sob uma forma sensível Adão e Eva no Paraíso; os querubins que guardavam a sua entrada; os anjos que visitam Abraão e discutem com ele a questão da salvação de Sodoma; os anjos insultados na cidade imunda, arrancando Loth ao incêndio; o anjo de Isaque, de Jacó, de Moisés e de Tobias; o demônio que mata os sete maridos de Sara; o que tortura a alma e o corpo de Job; o anjo exterminador dos egípcios sob Moisés, e dos israelitas sob Davi; a mão invisível que escreve a sentença de Baltazar; o anjo que fere Heliodoro; o anjo da Encarnação, Gabriel, que anuncia São João e Jesus-Cristo: Que mais é preciso para mostrar a existência dos Espíritos, bons ou maus, nos atos da vida humana? Deus fez dos Espíritos seus embaixadores, diz o salmista; são os ministros de Deus, diz São Paulo; São Pedro nos ensina que os demônios rondam sem cessar em torno de nós, como leões rugidores; São Paulo, tentado por eles, nos declara que o ar está repleto deles.
3. – Notemos aqui que as tradições pagãs estão em perfeita harmonia com as tradições judaicas e cristãs. O mundo, segundo Tales e Pitágoras, está cheio de substâncias espirituais.
Todos esses autores os dividem em Espíritos bons e maus; Empédocles diz que os demônios são punidos pelas faltas que cometeram; Platão fala de um príncipe, de natureza malfazeja, preposto desses Espíritos expulsos pelos deuses e caídos do céu, diz Plutarco. Todas as almas, acrescenta Porfírio, que têm por princípio a alma do universo, governam os grandes países situados sob a Lua: são os bons demônios (Espíritos); e, fiquemos bem convencidos, eles só agem no interesse de seus administrados, quer com o cuidado que tomam dos animais, quer velem pelos frutos da terra, quer presidam às chuvas, aos ventos moderados, ao bom tempo. Deve-se ainda colocar na categoria dos bons demônios os que, segundo Platão, estão encarregados de levar aos deuses as preces dos homens, e que trazem aos homens as advertências, as exortações, os oráculos dos deuses.
4. – Os árabes chamam de Iba o chefe dos demônios; os caldeus com eles enchiam o ar; enfim, Confúcio ensina absolutamente a mesma doutrina: “Como são sublimes as virtudes dos Espíritos! dizia ele; olha-se-os e não se os vê; escuta-se-os e não se os entende; unidos à substância das coisas, delas eles não podem separar-se; são a causa de que todos os homens em todo o Universo se purifiquem e se revistam de roupas de gala para oferecer sacrifícios; estão espalhados como as ondas do oceano acima de nós, à nossa esquerda e à nossa direita.”
O culto dos Manitós, espalhado entre os selvagens da América, não é senão o culto dos Espíritos.