XV
Muitas vezes mesmo é tão forte essa expressão, tão trágica até em certas árias melancólicas ou fúnebres, que se tem a sensação de que Pepito não pode, com a sua dedilhação imperfeita, exprimir todas as idéias musicais que nele fremem, de maneira que quase me atreveria a dizer que ele é muito maior músico do que aparenta... Não somente executa as músicas que acaba de ouvir tocar no piano, mas pode também, posto que com mais dificuldade, executar ao piano as árias que ouviu cantar. “Causa pasmo vê-lo então achar, imaginar, reconstituir os acordes do contraponto e da harmonia, como o poderia fazer um músico perito.” Numa experiência feita há pouco tempo, um amigo meu cantou-lhe uma melodia muito complexa. Depois de tê-la ouvido cinco ou seis vezes, sentou-se ao piano, dizendo que se tratava de uma habanera, o que era verdade, e repetiu-a, senão no todo, pelo menos nas partes essenciais. Invenção – É muitas vezes bem difícil, quando se ouve um improvisador, distinguir o que é invenção do que é reprodução, pela memória, de árias e trechos musicais já ouvidos. É certo, entretanto, que, quando Pepito se põe a improvisar, raras vezes lhe falha a inspiração e acha, muitas vezes, melodias extremamente interessantes, que pareceram mais ou menos originais a todos os assistentes. Há uma introdução, um meio, um fim; há, ao mesmo tempo, uma variedade e uma riqueza de sons que talvez admirassem, se se tratasse de um músico de profissão, mas que, numa criança de três anos e meio, causam verdadeira estupefação.” Desde essa época prosseguiu o jovem artista o curso dos seus triunfos cada vez maiores. Tendo-se feito violinista incomparável, causa a admiração do mundo musical com o seu talento prematuro. Deu também muitos concertos em Leipzig e representações musicais em S. Petersburgo.(164) Assinalava-se de Rennes, a 28 de novembro de 1911, ao Le Matin, o caso de outra criança musicista: “Nossa cidade possui um novo Mozart. Esse pequeno prodígio, filho de um empregado da Posta, nasceu em Rennes a 8 de outubro de 1904; tem, pois, 7 anos e dois meses. O jovem René Guillon, tal é o nome dessa criança extraordinária, compõe, não obstante sua idade, e executa ao piano sinfonias, sonatas, melodias, fugas, duos para piano e violão, duos para violões. Ainda bebê já parecia com disposição para o desenho; sentiu inclinação muito viva para a música, em seguida à audição da Marcha Fúnebre de Chopin, executada pela banda do 41º de Linha. Posto que nunca tivesse tocado um único instrumento, assim que entrou em casa dos pais, pôs-se ao piano e executou a célebre peça. Desde esse momento, começou a compor, ao correr da inspiração, pedaços de música que fazem a admiração dos professores do Conservatório.” Ajuntemos a essa lista dos meninos músicos o nome de Willy Ferreros que, com a idade de 4 anos e meio, dirigia com maestria a orquestra do Folies-Bergère, de Paris, depois a do Cassino de Lyon. Eis o que a seu respeito nos diz, no número de 17 de fevereiro de 1911, a revista Comédia: “É um homenzinho que traz já garbosamente o traje negro, as calças de cetim, o colete branco e as botinas de verniz. Tendo na mão a batuta, dirige com desembaraço, segurança e precisão incomparáveis uma orquestra de 80 músicos, sempre atento às menores particularidades, escrupuloso observador do ritmo... Há dias, ao acaso de uma viagem ao Meio-dia (Sul da França), o Sr. Clément Baunel descobriu esse pequeno prodígio; entusiasmou-se com tal instinto musical e trouxe o menino para Paris, que conquistou desde ontem à tarde. Ao correr da revista do Folies-Bergère, Willy Ferreros regeu, com os Cadets, de Souza, a Sylvia, de Léo Delibes. Foi um extraordinário acontecimento.” O Intransigeant, de 22 de junho de 1911, acrescenta que ele é igualmente admirável na direção das Sinfonias de Haydn, na marcha do Tannhauser e na Dança de Anitra, de Grieg. Citemos também Le Soir, de Bruxelas,(165) na enumeração que faz de algumas crianças notáveis de além-mar: “Entre os rapazes-prodígio do Novo Mundo, devemos citar um, o engenheiro George Steuber, que conta 13 primaveras, e Harry Dugan, que ainda não completou 9 anos. Harry Dugan acaba de fazer uma excursão de 1.000 milhas (cerca de 1.600 quilômetros) através da República estrelada, onde realizou negócios colossais para a casa que representa. Por mais incrível que pareça, a Universidade de Nova Orleans acaba de passar diploma de médico a um estudante com 5 anos de idade, chamado Willie Gwin. Os examinadores declararam depois, em sessão pública, que o novel Esculápio era o mais sábio osteólogo a que haviam passado diploma. Willie Gwin é filho de um médico conhecido. A esse propósito, os jornais transatlânticos publicam uma lista de meninos-prodígio. Um deles, mal contando 11 anos de idade, fundou recentemente um jornal intitulado The Sunny Home, cuja tiragem, no terceiro número, era já de 20 mil exemplares. Pierre Loti e Sully Prudhomme são colaboradores do Chatterton americano. Entre os pregadores célebres dos Estados Unidos, cita-se o jovem Dennis Mahan, de Montana, que, desde 6 anos, causava pasmo aos fiéis pelo seu profundo conhecimento das Escrituras e pela eloqüência da sua palavra.” Juntemos a essa lista o nome do famoso engenheiro sueco Ericson, que aos 12 anos era inspetor no grande canal marítimo de Suez e tinha às suas ordens 600 operários.(166) Voltemos ao problema das crianças-prodígio e examinemo-lo nos seus diferentes aspectos. Duas hipóteses foram aventadas para explicá-lo: a hereditariedade e a mediunidade. A hereditariedade é, ninguém o ignora, a transmissão das propriedades de um indivíduo aos seus descendentes; as influências hereditárias são consideráveis nos dois pontos de vista, físico e psíquico. A transmissão do temperamento, dos traços do caráter e da inteligência de pais a filhos, é muito sensível em certas pessoas. Por diferentes títulos, encontramos em nós não somente as particularidades orgânicas dos nossos progenitores diretos ou dos nossos antepassados, mas também suas qualidades ou seus defeitos. No homem atual revive a misteriosa linhagem inteira de seres, de cujos esforços seculares para uma vida mais elevada e completa ele é o resumo; mas a par das analogias há divergências mais consideráveis. Os membros de uma mesma família, posto que apresentando semelhanças, traços comuns, oferecem também, às vezes, diferenças que se destacam bem. O fato pode ser verificado por toda parte, ao redor de nós, em cada família, em irmãos e irmãs e até em gêmeos. Muitos destes, de semelhança física nos primeiros anos, a ponto de custar a diferençá-los um do outro, apresentam no decurso do seu desenvolvimento diferenças sensíveis de feições, caráter e inteligência. Para explicar essas dessemelhanças será, pois, necessário fazer intervir um novo fator na solução do problema; serão os antecedentes do ser, que lhe permitiram aumentar suas faculdades, sua experiência de vidas em vidas e constituir-se uma individualidade, trazendo um cunho próprio de originalidade e as próprias aptidões. Só a lei dos renascimentos poderá fazer-nos compreender como certos Espíritos encarnados mostram, desde os primeiros anos, a facilidade de trabalho e a assimilação que caracterizam as crianças-prodígio. São os resultados de imensos labores que familiarizaram esses Espíritos com as artes ou as ciências em que primam. Longas investigações, estudos e exercícios seculares deixaram impressas no seu invólucro perispiritual marcas profundas que geram uma espécie de automatismo psicológico. Nos músicos, notadamente, essa faculdade cedo se manifesta, por processos de execução que espantam os mais indiferentes e deixam perplexos sábios como o Prof. Richet. Existem, nesses jovens, reservas consideráveis de conhecimentos armazenados na consciência profunda e que, daí, transbordam para a consciência física, de modo que produzem as manifestações precoces do talento e do gênio. Posto que parecendo anormais, não são, entretanto, mais do que conseqüência do labor e dos esforços continuados através dos tempos. É a essa reserva, a esse capital indestrutível do ser, que F. Myers chama consciência subliminal e que se encontra em cada um de nós; revela-se não só no senso artístico, científico ou literário, mas também por todas as aquisições do Espírito, tanto na ordem moral, quanto na ordem intelectual. A concepção do bem, do justo, a noção do dever, são muito mais vivas em certos indivíduos e em certas raças do que noutros; não resultam somente da educação atual, como se pode reconhecer por uma observação atenta dos indivíduos nas suas impulsões espontâneas, mas também do cabedal próprio que trazem ao nascer. A educação desenvolve esses germens nativos, permite que se expandam e produzam todos os seus frutos; mas, por si só, seria incapaz de incubar tão profundamente aos recém-vindos as noções superiores que lhes dominam toda a existência, o que cotidianamente é verificado nas raças inferiores, refratárias a certas idéias morais e sobre quem a educação pouca influência tem. Os antecedentes explicam, igualmente, as anomalias estranhas de seres com caráter selvagem, indisciplinado, malfazejo, que aparecem de repente em centros honestos civilizados. Têm-se visto filhos de boa família cometerem roubos, atearem incêndios, praticarem crimes com audácia e habilidade consumadas, sofrerem condenações e desonrarem o nome que usavam; em certas crianças citam-se atos de ferocidade sanguinária que não encontram explicação nem em seus parentes próximos, nem em sua ascendência. Adolescentes, por exemplo, matam os animais domésticos que lhes caem nas mãos, depois de os terem torturado com rematada crueldade.
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Título As vidas sucessivas – As crianças prodígio e a hereditariedade
Parte Segunda
Título da Parte O Problema do Destino