XV
Podem-se considerar certas manifestações precoces do gênio como outras tantas provas das preexistências, em razão de serem uma revelação dos trabalhos realizados pela alma em experiências anteriores. Os fenômenos desse gênero, de que fala a História, não podem ser fatos desconexos, desligados do passado, produzindo-se ao acaso no vácuo dos tempos e do espaço; demonstram, ao contrário, que o princípio organizador da vida em nós é um ser que chega a este mundo com um passado inteiro de trabalho e evolução, resultado de um plano traçado e de um alvo para o qual ele se dirige através de suas existências sucessivas. Cada encarnação encontra, na alma que recomeça vida nova, uma cultura particular, aptidões e aquisições mentais que explicam sua facilidade para o trabalho e seu poder de assimilação; por isso dizia Platão: “Aprender é recordar-se!” A lei da hereditariedade vem muitas vezes obstar, até certo ponto, a essas manifestações da individualidade, porque é com os elementos fornecidos pela hereditariedade que o Espírito põe a seu jeito o seu invólucro; contudo, a despeito das dificuldades materiais, vê-se manifestarem-se em certos seres, desde a mais tenra idade, faculdades de tal modo superiores e sem nenhuma relação com as dos seus ascendentes, que não se pode, não obstante todas as sutilezas da casuística materialista, relacioná-las com qualquer causa imediata e conhecida. Tem-se citado muitas vezes o caso de Mozart, que executou uma sonata no piano aos 4 anos e, aos 8, compôs uma ópera. Paganini e Teresa Milanollo, ainda crianças, tocavam violino de forma magistral. Liszt, Beethoven e Rubinstein faziam-se aplaudir aos 10 anos. Michelangelo e Salvatore Rosa revelaram-se de repente com talentos imprevistos. Pascal, aos 12 anos, descobriu a geometria plana, e Rembrandt, antes de saber ler, desenhava como um grande mestre.(162) Napoleão fez-se notar por sua aptidão prematura para a guerra. Já na infância, não brincava de soldadinho como as crianças de sua idade, mas com um método extraordinário, que parecia ser invenção sua. O século XVI legou-nos a memória de um poliglota prodigioso, Jacques Chrichton, que Scaliger denominava um “gênio monstruoso”. Era escocês e, aos 15 anos, discutia em latim, grego, hebraico ou árabe, sobre qualquer assunto. Havia conquistado o grau de mestre aos 14 anos. Henrique de Heinecken, nascido em Lübeck, em 1721 falou, quase ao nascer; aos 2 anos sabia três línguas; aprendeu a escrever em alguns dias e dentro de pouco tempo exercitava-se em pronunciar pequenos discursos; com 2 anos e meio fez exame de Geografia e História antiga e moderna. Seu único alimento era o leite da ama; quiseram desmamá-lo, depereceu e morreu em Lübeck, em 27 de junho de 1725, de 5 para 6 anos de idade, afirmando suas esperanças na outra vida. “Era – dizem as Mémoires de Trévoux – delicado, enfermiço, e muitas vezes estava doente.” Essa criança fenomenal teve completo conhecimento de seu próximo fim. Falava disso com serenidade pelo menos tão admirável como sua ciência prematura e quis consolar os pais dirigindo-lhes palavras de alento que ia buscar em suas crenças comuns. A História dos últimos séculos assinala grande número dessas crianças-prodígio. O jovem Van der Kerkhove, de Bruges, morreu aos 10 anos e 11 meses, em 12 de agosto de 1873, deixando 350 pequenos quadros magistrais, alguns dos quais, diz Adolphe Siret, membro da Academia Real de Ciências, Letras e Belas-Artes, da Bélgica, poderiam ser assinados por nomes como Diaz, Salvatore Rosa, Corot, Van Goyen, etc. Outro menino, William Hamilton, estudava o hebraico aos 3 anos e aos 7 possuía conhecimentos mais extensos do que a maior parte dos candidatos ao magistério. “Estou vendo-o ainda – dizia um de seus parentes – responder a uma pergunta difícil de Matemática, afastar-se depois, correndo aos pulinhos e puxando o carrinho com que andava a brincar.” Aos 13 anos conhecia doze línguas, aos 18 pasmava toda a gente da vizinhança, a tal ponto que um astrônomo irlandês dizia dele: “Eu não digo que ele será, mas que já é o primeiro matemático do seu tempo.” Neste momento (1908) a Itália se honra de possuir um lingüista fenomenal, o Sr. Trombetti, que excede muito aos seus antigos compatriotas, o célebre Pico de Mirandola e o prodigioso Mezzofanti, o cardeal que discursava em 70 línguas. Trombetti nasceu de uma família de bolonheses pobres e completamente ignorantes. Aprendeu sozinho, na escola primária, francês e alemão e, no fim de dois meses, lia Voltaire e Goethe; aprendeu o árabe com a simples leitura da vida de Abd-el-Kader, escrita na mesma língua. Um persa, de passagem por Bolonha, ensinou-lhe a sua língua em algumas semanas. Aos 12 anos aprendeu, por si só e simultaneamente, latim, grego e hebraico e, em seguida, estudou quase todas as línguas vivas ou mortas. Seus amigos asseveram que ele conhece hoje cerca de trezentos dialetos orientais; o Rei da Itália nomeou-o professor de Filologia na Universidade de Bolonha. No Congresso Internacional de Psicologia de Paris, em 1900, o Sr. Charles Richet, da Academia de Medicina, apresentou em assembléia geral, reunidas todas as seções, um menino espanhol de 3 anos e meio de idade, chamado Pepito Arriola, que toca e improvisa ao piano árias variadas, muito ricas de sonoridade. Reproduzimos a comunicação feita pelo Sr. Richet aos congressistas na sessão de 21 de agosto de 1900, a respeito desse menino, antes da sua audição musical:(163) “Vou transcrever fielmente o que diz sua mãe do modo pelo qual descobriu os extraordinários dons musicais do jovem Pepito: – “Tinha o menino 2 anos e meio, aproximadamente, quando, pela primeira vez, se me depararam casualmente as suas aptidões musicais. Nessa época recebi de um amigo meu, músico, uma composição de sua lavra e pus-me a tocá-la ao piano com bastante freqüência. É provável que o menino a ouvisse com atenção, mas não reparei nisso. Ora, certa manhã ouço tocar numa sala contígua a mesma ária, com tanta mestria e justeza que quis saber quem assim tomava a liberdade de tocar piano em minha casa. Entrei na sala e vi o meu pequeno, que estava só, a tocar a ária; estava sentado num assento alto para onde subira sozinho e, ao ver-me, pôs-se a rir e disse-me: “Que me diz, mamãe?” Acreditei que se realizava um verdadeiro milagre.” A partir desse momento o pequeno Pepito continuou a tocar, sem que sua mãe lhe tenha dado lições, às vezes as árias que ela própria tocava diante dele ao piano, outras vezes, árias que ele inventava. Não tardou a adquirir capacidade suficiente para permitir-lhe, no dia 4 de dezembro de 1899, isto é, com 3 anos incompletos, tocar diante de um auditório bastante numeroso de críticos e músicos; em 26 de dezembro, com 3 anos e 12 dias, tocou no Palácio Real de Madrid diante do rei e da rainha mãe. Nessa ocasião tocou seis composições musicais de sua autoria, que foram aplaudidas. Não sabe ler, quer se trate de música ou do alfabeto; não tem talento especial para o desenho, mas se entretém às vezes a escrever árias musicais, escrita que não tem, entenda-se bem, nenhum sentido. É, entretanto, engraçado vê-lo pegar num papelzinho, pôr-lhe como cabeçalho uns rabiscos (que significam, ao que parece, a natureza do trecho, sonata, habanera, valsa, etc.); depois, por baixo, figurar linhas que serão a pauta, com uma borradela que quer dizer clave de sol e linhas pretas que, afirma ele, são notas. Olha, então, para esse papel, com satisfação, põe-no no piano e diz: “Vou tocar isto” e, com efeito, tendo diante da vista esse papel informe, improvisa de maneira admirável. Para metodicamente estudar a maneira como ele toca piano, separarei a execução da invenção. Execução – A execução é infantil; vê-se que ele imaginou a dedilhação em todas as suas partes sem nenhuma lição. Tem, não obstante, dedilhação bastante desembaraçada, tanto quanto lho permite a pequenez da mão, que não abrange a oitava. Para resolver a dificuldade imaginou, o que é curioso, substituir a oitava por arpejos habilmente executados e muito rápidos. Toca com as duas mãos, que muitas vezes cruza para obter certos efeitos ou certas harmonias. Às vezes também, como os pianistas de renome, levanta a mão a grande altura, com a maior seriedade, para deixá-la cair exatamente na nota que quer. Não é provável que isso lhe tenha sido ensinado, porque, na maneira de tocar de sua mãe, que aliás tem boa execução, nada há de análogo. Pode tocar árias de bravura com agilidade por vezes admirável e vigor surpreendente numa criança de sua idade; mas, apesar dessas qualidades, força é reconhecer que a execução é desigual. De repente, depois de alguns momentos de prelúdio, põe-se a tocar, como se estivesse inspirado, com agilidade e precisão. Ouvi-o tocar trechos de muita dificuldade, uma habanera galiciana e a Marcha turca de Mozart, com habilidade em certas passagens. A harmonia, ainda mais do que a dedilhação, é extraordinária. Acha, quase sempre, o acorde justo e, se hesita, como lhe sucede no princípio de um trecho, tateia alguns segundos; depois, continuando, acha a verdadeira harmonia. Não se trata de uma harmonia muito complicada; quase sempre consiste em acordes de muita simplicidade; mas por vezes inventa alguns que causam grande surpresa. Para falar com rigor, o que mais assombra não é a dedilhação, nem a harmonia, nem a agilidade, mas a expressão; tem uma riqueza de expressão admirável. Seja triste, alegre, marcial ou enérgico o trecho musical, a expressão é arrebatadora. Uma vez fiz tocar à mãe a mesma música que a ele. Sem dúvida, ela tocava-a muito melhor, sem notas erradas, nem hesitações, nem tateios, nem repetições, mas o bebezinho tinha muito mais expressão.
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Título As vidas sucessivas – As crianças prodígio e a hereditariedade
Parte Segunda
Título da Parte O Problema do Destino