Escrevem-nos da Espanha, em data de 1o de agosto de 1864: “Caro mestre, “Tomo a liberdade de vos enviar a nova pastoral que monsenhor Pantaleão, bispo de Barcelona, acaba de publicar no jornal Diário de Barcelona, de 31 de julho. Como podeis notar, ele quis marchar sobre o rastro de seu predecessor. Para mim, espírita sincero, perdôo os palavrões que nos dirige, mas não posso deixar de pensar que ele poderia empregar a ciência que possui de maneira mais proveitosa para o bem da fé e de seus semelhantes. Para citar apenas um exemplo, temos a todo instante o espetáculo dessas abomináveis touradas, nas quais os pobres animais, depois de terem passado a vida a serviço do homem, vêm morrer estripados nessas tristes arenas, para gáudio de uma populaça ávida de sangue, cujos maus instintos são desenvolvidos por esses jogos bárbaros.
“Eis contra o que deveríeis fulminar, monsenhor, e não contra o Espiritismo, que diariamente vos reconduz ao aprisco as ovelhas que havíeis perdido. Porque eu, que acreditava sinceramente em Deus, que reconhecia sua grandeza nos mais ínfimos detalhes da Natureza, antes de ser espírita não podia aproximar-me de uma igreja, tamanha era a discordância que os meus olhos viam entre os que se dizem os representantes de Deus na Terra e essa grande figura do Cristo, que o Evangelho nos mostra todo amor e abnegação. Sim, dizia a mim mesmo, Jesus se sacrifica por nós; faz sua entrada triunfal em Jerusalém, vestido de burel, montado num jumento; e vós, que vos dizeis seus representantes, vos cobris de seda, ouro e diamantes. É esse o desprezo das riquezas que o divino Messias pregava aos seus apóstolos? Não; e, no entanto, eu vo-lo confesso, monsenhor, desde que sou espírita pude entrar em vossas igrejas e nelas orar com fervor, a despeito da música mundana, que aí toca árias de ópera; pude orar pensando que, entre todas essas pessoas reunidas, a algumas, talvez, essa pompa teatral fosse útil para elevar suas almas a Deus; então pude perdoar o vosso luxo e compreendê-lo num certo sentido. Bem vedes, assim, monsenhor, que não é sobre os espíritas que deveis trovejar; e se tendes em vista, como não duvido, apenas o bem do vosso rebanho, reconsiderai vossa maneira de ver o Espiritismo, que não nos recomenda senão o amor aos semelhantes, o perdão das injúrias, a doçura, a caridade e o amor, mesmo aos nossos próprios inimigos.
“Caro mestre, perdoai-me estas poucas linhas, que me foram sugeridas por esta nova pastoral. O Espiritismo veio reavivar a minha fé, explicando-me todas as misérias da vida que, até então, minha inteligência não pudera compreender. Sinceramente convencido de que trabalhamos para o nosso e para o progresso da Humanidade, não cessarei de propagar esta doutrina no meu círculo de relações, empregando, para tanto, uma convicção profunda e os meios que Deus me ofereceu.
“Dignai-vos receber, caro mestre, etc.”
Damos, a seguir, a tradução da pastoral do monsenhor bispo. Reproduzimo-la in extenso, para não enfraquecer o seu alcance. O monsenhor de Barcelona passa, com razão, por um homem de mérito; deve, portanto, ter reunido os mais poderosos argumentos contra o Espiritismo. Os nossos leitores julgarão se ele será mais feliz que os seus confrades, e se o golpe de misericórdia nos será dado do outro lado dos Pirineus. Limitamo-nos a acrescentar algumas observações.
“Nós, D. D. Pantaleão Monserra y Navarro, pela graça de Deus e da Santa Sé apostólica, bispo de Barcelona, cavaleiro da grã-cruz da Ordem Americana de Isabel, a Católica, do Conselho de Sua Majestade, etc.
“Aos nossos amados e fiéis diocesanos, “O homem, posto na Terra como num lugar de trevas que o impede de ver as coisas colocadas numa ordem superior, não pode dar um passo para buscá-las, caso não seja esclarecido pela chama da fé. Se se separar desse guia, apenas tropeçará, caindo hoje no extremo da incredulidade, que tudo nega, e amanhã no da superstição, que em tudo crê. Nossa época, que pretende conduzir-se pela razão e pelos sentidos, não admitindo como verdade senão o que lhe mostram essas testemunhas falaciosas, vê-se atravessada por uma imensa corrente de idéias, arrastando, em conseqüência, a negação do sobrenatural e uma excessiva credulidade. Uma e outra são o produto do orgulho da inteligência humana, que se recusa a prestar uma atenção razoável à palavra revelada de Deus. A geração atual se vê obrigada a assistir a esse triste espetáculo que hoje nos dão os povos mais adiantados em ciência e em civilização. Os Estados Norte-Americanos, essa nação chamada modelo, e algumas partes da França, aí compreendida a colônia da Argélia20, esforçam-se, desde algum tempo, ao estudo ridículo e à aplicação do Espiritismo, que, sob esse nome, vem ressuscitar as antigas práticas da necromancia, pela evocação dos Espíritos invisíveis, que repousam no lugar de seu destino, além do sepulcro, e os consultam para descobrir os segredos ocultos sob o véu que Deus estendeu entre o tempo e a eternidade.”
Observação – Se se é repreensível por manter relações com os Espíritos, seria preciso que a Igreja os impedisse de vir sem serem chamados, pois é notório que há um grande número de manifestações espontâneas, mesmo em pessoas que jamais ouviram falar do Espiritismo. Como as senhorinhas Fox, nos Estados Unidos, as primeiras que revelaram sua presença naquele país, foram postas no caminho das evocações, senão pelos Espíritos que a elas vieram manifestar-se, quando absolutamente neles não pensavam? Por que aqueles Espíritos deixaram o lugar que lhes fora designado além do sepulcro? Com ou sem a permissão de Deus?
20 N. do T.: Alger no original. Na verdade Argélia (Algérie), cuja capital é Argel.
O Espiritismo não brotou do cérebro de um homem como um sistema filosófico criado pela imaginação. Se os Espíritos não se tivessem manifestado por si mesmos, não teria havido Espiritismo. Se não se pode impedir que se manifestem, não se pode deter o Espiritismo, do mesmo modo que se não pode impedir um rio de correr, a menos que se lhe suprima a fonte. Pretender que os Espíritos não se manifestam é uma questão de fato e não de opinião.
Contra a evidência não há contestação possível.
“Este desejo exagerado de tudo conhecer, por meios ridículos e reprovados, é apenas o fruto dessa necessidade, desse vazio que experimenta o homem, quando rejeitou tudo o que lhe foi proposto como verdade pela sua soberana legítima e infalível: a Igreja.”
Observação – Se o que essa soberana infalível propõe como verdade a Ciência demonstra ser um erro, é culpa do homem se o repele? A Igreja era infalível, quando condenava às penas eternas os que acreditavam no movimento da Terra e nos antípodas? quando ainda hoje condena os que crêem que a Terra não foi formada em seis dias vezes vinte e quatro horas? Para que a Igreja fosse acreditada sob palavra, seria necessário que nada ensinasse que pudesse ser desmentido pelos fatos.
“Num momento de ardor para tudo conhecer por si mesmo, ele repeliu como superstição essa mesma verdade, porque seu entendimento não a compreendia ou não concordava com as noções recebidas a propósito. Mais tarde, porém, julgou necessário o que havia desprezado; quis reabilitar-se na sua fé; examinou-a novamente e, conforme tal exame tenha sido feito por pessoas de imaginação viva, ou por outras de temperamento nervoso e irritável, admitiram, no seu sistema de crença, tudo quanto aquelas julgaram ver e ouvir dos Espíritos evocados, num momento de melancólica exaltação.”
Observação – Jamais havíamos pensado que a fé, isto é, a adoção ou a rejeição das verdades ensinadas pela Igreja, após o exame feito por aquele que sinceramente a ela queira voltar, fosse uma questão de temperamento. Se, por lhes dar preferência em relação às outras crenças, não se deve ser nervoso, nem irritável, nem ter a imaginação viva, há muita gente que será fatalmente excluída em conseqüência de sua compleição. Cremos que neste século de progresso intelectual, a fé é uma questão de compreensão.
“Foi assim que se chegou a criar uma religião que, reproduzindo os desvios e as aberrações do paganismo, ameaça conduzir à loucura e ao mais imundo cinismo (y al cinismo mas inmundo) a sociedade ávida do maravilhoso.”
Observação – Eis mais um príncipe da Igreja que proclama, num ato oficial, que o Espiritismo é uma religião que se cria. É o caso de repetir aqui o que já dissemos a respeito: Se algum dia o Espiritismo se tornar uma religião, a Igreja terá sido a primeira a dar tal idéia. Em todo o caso, essa religião nova, caso venha a sê-lo, afastar-se-ia do paganismo pelo fato capital de que não admite um inferno localizado, com penas materiais, enquanto o inferno da Igreja, com suas labaredas, seus tridentes, suas caldeiras, suas lâminas de navalhas, seus pregos pontiagudos, que estraçalham os danados, e seus diabos que atiçam o fogo, é uma cópia amplificada do Tártaro.
“Allan Kardec, o grande propagador desta seita de modernos iluminados, confessa-o em seu O Livro dos Espíritos, dizendo: ‘Que por vezes estes se comprazem em responder ironicamente e de maneira equívoca, que desconcerta os infelizes que os consultam.’ E, não obstante ele advirta da necessidade que há em discernir os Espíritos sérios dos superficiais, não nos pode dar as regras necessárias a esse discernimento, confissão que revela toda a vaidade e a falsidade do Espiritismo, com suas deploráveis conseqüências.”
Observação – Remetemos o Sr. bispo de Barcelona a O Livro dos Médiuns (capítulo XXIV, página 327).