Influência da Música sobre os Criminosos, os Loucos e os Idiotas
Em todos os tempos tem-se reconhecido a influência salutar da música para o abrandamento dos costumes. Sua introdução entre os criminosos seria um progresso incontestável e só poderia dar resultados satisfatórios; ela move as fibras entorpecidas da sensibilidade e as predispõe a receber as impressões morais. Mas é suficiente? Não; é um labor em terra inculta, que necessita de semeadura de idéias próprias, capazes de causar uma profunda impressão sobre essas naturezas extraviadas. É preciso falar à alma, depois de haver amolecido o coração. O que lhes falta é a fé em Deus, em sua alma e no futuro; não uma fé vaga, incerta, incessantemente combatida pela dúvida, mas uma fé baseada na certeza, a única que pode torná-la inabalável. Sem dúvida a música pode predispor a isto, mas não a dá. Nem por isto deixa de ser um auxiliar, que não se pode negligenciar. Esta e muitas outras tentativas, que a Humanidade e a civilização não podem senão aplaudir, testemunham uma louvável solicitude pelo moral dos condenados; mas resta ainda atingir o mal na sua raiz. Um dia será reconhecido toda a extensão do socorro que se pode haurir nas idéias espíritas, cuja influência já está provada pelas numerosas transformações que operam nas naturezas aparentemente mais rebeldes. Só os que se aprofundaram nesta doutrina e meditaram sobre as suas tendências e conseqüências inevitáveis, poderão compreender a força do freio que ela opõe aos arrastamentos perniciosos. O poder desta força resulta do fato de dirigir-se à própria causa desses arrastamentos, que é a imperfeição do Espírito, ao passo que a maior parte do tempo só a buscam na imperfeição da matéria. Como doutrina moral, o Espiritismo já não é hoje uma simples teoria: entrou na prática, ao menos para grande número dos que admitem os seus princípios. Ora, conforme o que se passa, e em face dos resultados produzidos, pode-se afirmar sem receio que a diminuição dos crimes e delitos será proporcional à sua vulgarização. É o que um futuro próximo se encarregará de demonstrar. Aguardemos que a experiência se faça em mais vasta escala, pois já se faz todos os dias individualmente. Disto a Revista já forneceu numerosos exemplos; limitar-nos-emos a lembrar as cartas de dois prisioneiros, publicadas nos números de novembro de 1863 e fevereiro de 1864. Deixamos aos leitores o cuidado de apreciar o fato acima, relativo à loucura. Sem sombra de dúvida é a mais amarga crítica aos alienistas que só conhecem as duchas e a camisa de força. O Espiritismo vem projetar uma luz inteiramente nova sobre as doenças mentais, demonstrando a dualidade do ser humano e a possibilidade de agir isoladamente sobre o ser espiritual e sobre o ser material. O número sempre crescente de médicos que entram nessa nova ordem de idéias necessariamente provocará grandes modificações no tratamento dessas espécies de afecções. Abstração feita da idéia espírita propriamente dita, a constatação dos efeitos da música em semelhantes casos é um passo na via espiritualista, da qual os alienistas em geral se afastaram até hoje, para grande prejuízo dos doentes. O efeito produzido sobre os idiotas e os cretinos é ainda mais característico. Quase sempre os loucos foram homens inteligentes; não se dá o mesmo com os idiotas e os cretinos, que parecem votados pela própria Natureza a uma nulidade moral absoluta. Ainda aqui o Espiritismo experimental vem projetar luz, ao provar, pelo isolamento do Espírito e do corpo, que são, geralmente, Espíritos desenvolvidos, e não atrasados, como se poderia supor, embora unidos a corpos imperfeitos. Em caso de igualdade de inteligência, a diferença entre o louco e o cretino é que o primeiro, ao nascer, é provido de órgãos cerebrais constituídos normalmente, mas que mais tarde se desorganizam, ao passo que o segundo é um Espírito encarnado num corpo, cujos órgãos, atrofiados desde o princípio, jamais lhe permitiram manifestar livremente o pensamento; está na situação de um homem forte e vigoroso a quem tivessem tirado a liberdade de movimentos. Para o Espírito, tal constrangimento é um verdadeiro suplício, porque não deixa de ter a faculdade de pensar e, como Espírito, sente a abjeção em que o coloca a sua enfermidade. Suponhamos, então, que em dado momento, por um tratamento qualquer, se possam desligar os órgãos: o Espírito recobraria a liberdade e o maior cretino se tornaria um homem inteligente. Seria como um prisioneiro saindo da prisão, ou como um bom músico em frente a um instrumento completo, ou, ainda, como um mudo, recobrando a palavra. O que falta ao idiota não são, pois, as faculdades, mas as cordas cerebrais correspondentes a essas faculdades, para a sua manifestação. Na criança normalmente constituída, o exercício das faculdades do Espírito induz o desenvolvimento dos órgãos correspondentes, que nenhuma resistência oferecem. No idiota, a ação do Espírito é impotente para provocar um desenvolvimento que ficou em estado rudimentar, como um fruto abortado. Assim, a cura radical do idiota é impossível; tudo quanto se pode esperar é uma ligeira melhora. Para isto não se conhece nenhum tratamento aplicável aos órgãos. É ao Espírito que se tem de dirigir. Estudando as faculdades, cujo germe se descobre, deve-se provocar o seu exercício por parte do Espírito; e este, então, superando a resistência, possibilitará que se obtenha uma manifestação, se não completa, ao menos parcial. Se há um meio externo de agir sobre os órgãos é, seguramente, a música. Ela consegue abalar essas fibras entorpecidas, como um grande ruído que chega aos ouvidos de um surdo. Com isto o Espírito se agita, como numa lembrança, e sua atividade, provocada, redobra esforços para vencer os obstáculos. Para quem não vê no homem senão uma máquina organizada, sem levar em conta a inteligência que preside ao jogo desse organismo, tudo é obscuridade e problema nas funções vitais, tudo é incerteza no tratamento das afecções. Eis por que, na maioria das vezes, só se combate um lado do mal; mais ainda: tudo são trevas nas evoluções da Humanidade, tudo são ensaios nas instituições sociais; por isto, tantas vezes se anda em caminho errado. Admiti, apenas a título de hipótese, a dualidade do homem, a presença de um ser inteligente independente da matéria, preexistente e sobrevivente ao corpo, já que este não passa de um invólucro temporário daquele, e tudo se explica. O Espiritismo, por meio de experiências positivas, faz desta hipótese uma realidade, ao revelar-nos a lei que rege as relações entre o Espírito e a matéria. Zombai, pois, ó cépticos, da Doutrina Espírita, oriunda do fenômeno vulgar das mesas girantes, como a telegrafia elétrica surgiu das rãs dançantes de Galvani; mas sabei que, negando os Espíritos, negais a vós mesmos, pois também zombaram das grandes descobertas.
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Mês Setembro
Ano 1864