IV
1. INTRODUÇÃO Tanto no médium em desenvolvimento ou treinamento como naquele que já se encontra em plena e regular atividade, fenômenos anímicos ocorrem paralelamente ou conjugados com os mediúnicos, como fenômenos predominantemente mediúnicos com um componente anímico e fenômenos anímicos nos quais pode-se identificar ou inferir a participação de espíritos desencarnados. Ainda há pouco propunha este estudo o conceito je que não há fenômeno mediúnico puro, ou seja, sem um componente anímico, uma vez que o espírito desencarnado precisa do médium para a manifestação que pretende realizar, seja intelectual, seja física. Não me atreveria a afirmar que a recíproca também é verdadeira, isto é, a de que o fenômeno anímico precisa sempre da colaboração de seres desencarnados. É certo, porém, que em muitos episódios anímicos essa colaboração é como que evidente por si mesma, ou pode ser confortavelmente inferida. Esta não é, aliás, uma opinião isolada, pois encontro o mesmo ponto de vista em Colin Wilson, como ainda veremos mais adiante. Sejam quais forem as leis naturais que regulam o mecanismo da mediunidade, na sua interação animismo/ espiritismo, o certo é que a sensibilidade é fator básico, comum a ambas as formas de manifestação, O médium ou sensitivo tem condições para a produção de fenômenos anímicos, precisamente porque também as possui para fenômenos espíritas, e vice-versa. Acho mesmo que se aprofundarmos um pouco mais este aspecto, descobriremos que, além da sensibilidade para captar sutilezas sensoriais que usualmente escapam ao comum das criaturas, um dos grandes segredos da mediunidade é a capacidade de tomar conhecimento do que a sensibilidade detectou e gerar os fenômenos correspondentes. Em outras palavras: o médium é aquele que consegue vencer o obstáculo natural dos condicionamentos orgânicos e das limitações dos sentidos comuns para perceber ou exteriorizar fenômenos que passariam despercebidos à maioria das pessoas. Isso fica bem caracterizado quando um fenômeno mediúnico de vidência, por exemplo, ocorre em um grupo de várias pessoas. Um dos médiuns ali presentes poderá ter uma nítida visão do espírito manifestante, outro perceberá apenas uma forma vaga e mal definida, um terceiro talvez não consiga vê-lo, mas poderá captar, telepaticamente, um pensamento fragmentário, ouvir algumas palavras ou frases, ou sentir um perfume. Outros, ainda, sentirão apenas uma presença, sem nenhum fenômeno sensorial, enquanto os demais nada terão a relatar, porque nada perceberam. Neste exemplo teórico, no qual reunimos aspectos de vários casos apenas para efeito especulativo, o fato gerador é um só, ou seja, a presença de um espírito desencarnado junto a determinado grupo de pessoas encarnadas. Cada uma destas, porém, sente e expressa o fenômeno de sua maneira peculiar. Ou não o sente. Além do fator sensibilidade há, portanto, um componente sensorial. Não sei se me faço claro. Creio poder dizer que a sensibilidade atua como mecanismo de apreensão da realidade, normalmente invisível ou inaudível aos sentidos habituais do ser encarnado, ao passo que o fator sensorial é o que atrai para um dos canais de expressão, o que, sem isto, permaneceria apenas como uma impressão indefinível, ou nem isso. O mesmo sistema de captação e tradução da impressão parece funcionar nas manifestações anímicas e nas espíritas ou mediúnicas. Não há, portanto, uma diferença estrutural entre uma e outra, uma vez que imagens, sensações, impressões e comandos transitam pelo mesmo sistema de circuito interno, nem poderia ser de outra maneira. Dificilmente teria o médium um circuito para manifestações de espíritos desencarnados e outra para as de seu próprio espírito! O médium, portanto, é quem capta o fenômeno e o reproduz, através do seus dispositivos de comunicação. Se o leitor permite, poderei tentar explicar melhor isto com o exemplo pessoal. Não disponho de nenhuma faculdade mediúnica explícita. Nunca nem ouvi um espírito sequer ou recebi qualquer página psicografada. Sou, no entanto, capaz de sentir o que os médiuns costumam chamar de presenças - agradáveis, se são de companheiros harmonizados e de mais elevação, condição evolutiva ou um tanto opressivas, quando se trata de companheiros desajustados ou em estado de aflitiva agitação e desequilíbrio. Isso parece indicar que uma sensibilidade rudimentar consegue captar o que costumamos chamar de vibrações amigas ou hostis, mas não consegue remover os condicionamentos e limitações biológicas a ponto de se traduzirem em sensações visuais, auditivas, tácteis ou olfativas. Ou, para dizer de outra maneira: os espíritos não encontram em mim condições para se fazerem vistos ou ouvidos. Há pessoas que identificam determinadas presenças como este ou aquele perfume, embora não consigam ver ou ouvir os espíritos presentes, ou que os ouvem, mas não os enxergam, ou podem vê-los, mas não conseguem ouvi-los quando falam. O importante, contudo, em tais especulações, é nos convencermos de que o fenômeno mediúnico tem sempre um componente anímico e este pode ter um componente espírita. Por isso os fenômenos interagem e se conjugam ou ocorrem de modo simultâneo ou alternativo. Essa realidade experimental observamos em Regina. Para estudar melhor os fenômenos de que ela era instrumento, procuramos distribuí-los por uma classificação ordenadora para a qual não impomos nenhuma condição de imutável rigidez. Neste sentido, propomos examinar, em primeiro lugar, fenômenos anímicos; em seguida, os mediúnicos propriamente ditos, ou seja, espíritas; e, por último, manifestações de caráter misto, nas quais podemos identificar ou inferir componentes de uma e de outra categoria, simultaneamente. A telepatia é o tema inicial do primeiro grupo. 2. TELEPATIA Vimos que Regina desenvolveu um sistema de comunicação telepática com seu analista numa fase em que ainda não estava suficientemente informada sobre as leis e mecanismos que regulam e explicam as diferentes faculdades. Concentrava-se o analista em seu consultório e ordenava, mentalmente, que ela fizesse uma ligação telefônica para ele. Ela acolhia a mensagem telepática, onde quer que estivesse, procurava o telefone mais próximo e ligava para ele, que confirmava, invariavelmente, o comando mental. Em outras oportunidades, convocou-a telepaticamente a comparecer ao consultório, sem chamada telefônica e em dia sem previsão alguma de consulta. As experimentações funcionaram satisfatoriamente e caracterizaram o analista como um bom emissor e Regina como boa receptora, bem como o fato de que a recíproca não era verdadeira, ou seja, Regina não conseguia enviar-lhe mensagens telepáticas ou ele não as conseguia captar. Creio mais correta a segunda hipótese. Mas não foram essas as únicas experiências telepáticas de Regina. Usualmente ela sabe que ao chegar em casa, à noite, encontrará o bilhete deixado, por baixo da porta, por alguém que lá esteve e não a encontrou. Ou, estando em casa, que alguém - que ela não identifica claramente - vai telefonar-lhe ou visitá-la. Quando está à espera de alguma visita já combinada e a pessoa resolve não vir mais, por qualquer motivo, ela sabe da mudança de planos no momento em que a pessoa tomou a decisão ou se viu impedida de ir. Por exemplo: se a visita está combinada para o domingo e a pessoa resolve, no sábado, que não mais poderá ir. Regina sabe da sua decisão ainda no sábado, sem que haja qualquer comunicação telefônica ou epistolar. Um desses casos ficou bem caracterizado e testemunhado. Uma amiga combinou visitá-la num domingo. Na sexta-feira à noite, Regina, soube que ela não iria mais; entretanto, no sábado à tarde, ela percebeu que a moça decidira novamente ir à sua casa, conforme combinara. Quando ela chegou, Regina falou-lhe de suas impressões e ela as confirmou. Realmente um imprevisto ocorrido na sexta-feira levara-a à decisão de adiar a visita, mas no sábado a questão fora solucionada, também de modo inesperado, e a visitante ficou livre para cumprir o combinado. Certa vez ela saiu para fazer algumas compras e em seguida foi ao cabeleireiro. Estava no salão, sendo atendida, quando de repente 'viu' determinada pessoa conhecida chegar à sua casa, em estado de extremo nervosismo e agitação, tocando a campainha com insistência. A angústia da pessoa era tão intensa que ela voltou para casa tão rapidamente quanto pôde. A pessoa não estava à espera dela, mas deixara um bilhete por baixo da porta, dizendo que precisava lhe falar com toda a urgência. É comum em Regina outra forma de comunicação inarticulada com características telepáticas. Isto ocorre, por exemplo, quando uma pessoa, às vezes totalmente desconhecida, aproxima-se dela, senta-se e começam a conversar, e ali fica, por algum tempo, em uma sala de espera ou em um banco de praça. Ao cabo de alguns momentos Regina começa a ver, ou melhor, a perceber, de maneira inexplicável para ela, aspectos como que 'ocultos' do caso (Uma ligação direta espírito/espírito? Seria um fenômeno de telepatia no qual entra um componente de psicometria). São dramatizações de episódios de vidas anteriores ou preocupações do presente, expectativas, ansiedades, bem como caráter e temperamento da pessoa. Às vezes a situação se torna um tanto embaraçosa, porque ela percebe claramente que a pessoa diz coisa diferente do que está pensando. Esclarece ela que, quando se trata de uma vidência pregressa, ou seja de vidas anteriores da pessoa, o fenômeno é realmente visual - ela vê as cenas enquanto que o conhecimento dos fatos da vida atual não se traduz em sensação visual ou auditiva. Ela simplesmente sabe que é assim, ou seja, toma conhecimento consciente por um processo ou mecanismo inexplicável para ela. Isso também pode ocorrer à distância. Se uma pessoa amiga vive um momento de crise mais intensa ou de preocupações opressivas, ela se liga na pessoa, como se a estivesse vendo, não porém objetivamente, com seus sentidos da visão ordinária.
TAG Valor
Nome do Capítulo Interação animismo/mediunidade