IV
Vários desses episódios têm sido confirmados porque ela se comunica com a pessoa visada para pedir notícias e, ao descrever aquilo de que tomou conhecimento, logo obtém a confirmação. Se a pessoa tem com ela vínculos mais fortes de afeição, ela não apenas vê, mas sente, como que fisicamente, suas aflições e angústias. Certa vez falou ao telefone, pela primeira vez, com uma pessoa que não conhecia. Era para dar um recado apenas. Contudo, à medida que a outra falava, ela começou a vê- la e senti-la. Dessa vez a sensibilidade não apenas captou as imagens, como conseguiu mobilizar o sentido da visão orgânica e Regina viu de fato a moça, como se ela estivesse na sua presença. Era morena, miudinha, tímida, assustada e estava muito nervosa e revoltada com alguma coisa, embora não o manifestasse a Regina. Em seguida ao telefonema, ela narrou o episódio a uma prima da moça, que confirmou o tipo físico e as complicações emocionais em que ela vivia, no momento, e que Regina ignorava. Dias depois a moça do telefone foi apresentada a Regina. Era a própria ! Podemos, portanto, observar que alguns fenômenos, no campo habitual do animismo, são mistos. Nesse, por exemplo, é possível que além do componente telepático tenha ocorrido uma vidência ou clarividência que, por sua vez, pode ter sido a resultante de um rápido desdobramento de Regina que 'viu' nitidamente sua interlocutora. Tais fenômenos são difíceis de caracterizar e classificar, precisamente devido a sua complexidade e imprevisibilidade. Regina explica, por exemplo, que se estiver fortemente vinculada por laços afetivos a uma pessoa, que vale dizer como que sintonizada um sua onda mental ou faixa pela qual opera seu pensamento, ela a vê, durante um telefonema ou a leitura de uma carta, numa postura mental/emocional 'física', por assim dizer, isto é, ela vê a pessoa como se estivesse diante dela, encolhida, rosto entristecido, às vezes em pranto. Se está nervosa, pode ver sua agitação motora, andando de um lado para o outro ou com gestos descontrolados. Em todos esses episódios, uma constante: Regina observa a aura das pessoas em crise sempre escuras, como que envoltas em uma névoa acinzentada. (Sobre auras temos algo a dizer em outro ponto deste livro). Tentando explicar alguns desses fenômenos, Regina acha que, no caso de fatos relacionados com o momento presente da pessoa com a qual está em contato, como suas preocupações, é compreensível que sua mente tenha condições de penetrar naquela faixa mental específica e 'ler' o que ali se encontra. À medida que vai 'lendo', a própria pessoa, tomada de surpresa, vai, sem querer, projetando informações adicionais que ela igualmente capta. É possível que esta seja uma hipótese razoável, mas o que é "penetrar a faixa mental" de um pessoa? Como se 'lê' o material ali acumulado? E como esse material é selecionado em um arquivo que sabemos vasto e invisível! Enfim, parece mais fácil falar do assunto do que explicá-lo, mas Regina insiste em declarar que nisso "não há mistérios". Quando, porém, ela capta episódios de existência anterior, as coisas são ainda mais complexas. Ela pensa que nesses casos precisa penetrar nas camadas mais profundas da mente, isto é, "sintonizar-se com o espírito da pessoa", entrar na faixa de tempo onde as coisas estão registradas e ver lá o que se passa. Entende ela que poderá, em tais casos, haver uma participação ou uma colaboração de amigos espirituais da pessoa sob exame, interessados em transmitir-lhe alguma informação proveitosa. É possível que as coisas se passem mais ou menos assim, mas ante a ausência quase absoluta de dados informativos provindos de pesquisas confiáveis ficamos adstritos mais às especulações do que às explicações. Digno de consideração especial, contudo, é o conceito de que a mente do sensitivo, neste caso, funcionaria como um dispositivo quase mágico de exploração do tempo, indo buscar na faixa certa o episódio ocorrido em passado mais ou menos remoto que ali se encontra intacto. Algo assim como os "registros akásicos" de que nos falava Edgar Cayce e nos quais ele ia buscar, com fantástica precisão, as informações de que necessitasse para esclarecer problemas pessoais de seus consulentes e propor soluções deduzidas do próprio contexto cármico. Em meu livro A memória e o tempo especulo sobre a hipótese de que o tempo é também um local, o que parece ser legítimo inferir de conclusivas experimentações com a memória, utilizando-se a técnica da regressão. Seja como for, o fenômeno nos leva a admitir a necessidade de não apenas um registro (Onde? Na mente da pessoa? No éter em que vivemos mergulhados? Como?) e de um dispositivo psíquico acionado, obviamente, por uma espécie qualquer de energia que nos leva não apenas a sintonizar no ponto certo como a reproduzir imagens, sons, cores e movimentos, que ali estão documentados de alguma forma misteriosa e ainda incompreensível para nós, no estágio atual de nossos conhecimentos. Para que esse esquema seja aceitável, a idéia dos "registros akásicos", a que se referia Cayce e sobre os quais escreveu madame Blavatsky, é uma hipótese a considerar. Veremos isso ao comentar, a propósito da psicometria, algumas interessantes observações de Colin Wilson em seu livro The psyquic detectives. Na verdade o espaço cósmico é um imenso campo onde circulam correntes de força e energias desconhecidas, invisíveis, mas não menos atuantes e reais, O exemplo usualmente invocado é o das ondas de rádio ou televisão, que aí estão por toda a parte, à nossa volta, com sons, cores, movimentos e as emoções que representam, mas que somente captamos munidos de aparelhagem especial, capaz de sintonizar-se com a onda certa e desejada. Podemos, por analogia, inferir que há uma ligação e, conseqüentemente, uma comunicação subliminar entre seres e entre estes e as coisas, através do que os instrutores da codificação designaram pela expressão 'fluido universal', que serviria de veículo a todo esse sistema de comunicação cósmica. Nesse contexto, o pensamento não está, obviamente, aprisionado nos limites da caixa craniana, mas circula livremente por toda parte, projeta-se a distâncias inconcebíveis, com velocidade infinitamente superior à da luz, até agora tida como velocidade limite de deslocamento. Está hoje demonstrado que o pensamento, ou melhor, a energia que o pensamento movimenta é capaz de deslocar objetos materiais, influir sobre plantas, animais, seres vivos em geral e, certamente, transmitir de ser a ser imagens, sensações, emoções e conceitos abstratos. Comentando, certa vez, o conteúdo do item 223 - números 1 a 6 - de O livro dos médiuns "Do papel dos médiuns nas comunicações espíritas"), o amigo espiritual não identificado de Regina esclareceu-lhe uma dúvida, por escrito: - Se os homens realmente pudessem entender o papel daquilo que chamamos de vibrações ou correntes vibratórias, muito melhor entenderiam a harmonia do universo e com ele procurariam sintonizar-se. Há, por conseguinte, toda uma magnetização ambiental, um imenso e multidimensional sistema, no qual não apenas os eventos são gravados, mas ali ficam à disposição de instrumentação adequadamente sintonizada para serem reproduzidos e consultados em circunstâncias especiais. A esse ambiente energético, por onde circula o pensamento inteligente de todo o cosmos, propus caracterizar, em A memória e o tempo, como a memória de Deus, que pode ser lida se estivemos munidos da aparelhagem psíquica adequada, capaz de sintonizar-se com faixas específicas de nosso interesse. A imagem ainda há pouco suscitada das ondas de rádio e tevê pode mudar-nos novamente aqui. Por que algumas pessoas conseguem sintonizar-se com relativa facilidade nesta ou naquela faixa vibratória e outras nunca o conseguem, a não ser raramente? Provavelmente pelas mesmas razões limitadoras impostas pela física e pela geografia à radiofonia. Para captar de determinada estação o programa que está sendo transmitido (a palavra inglesa aqui é bem mais precisa e sugestiva: broadcast, ou seja, atirado, distribuído ou espalhado por toda parte, amplamente), o aparelho receptor deve estar ligado naquela faixa específica de onda (curta, média, longa ou FM) no momento certo e, ainda, na posição geográfica adequada, bem como na escala onde vibra aquele número exato de ciclos em que opera a estação desejada. Além disso, o aparelho precisa estar alimentado pela corrente elétrica adequada ao seu funcionamento. Em algumas faixas de ondas, a interferência pode dificultar ou até impedir a recepção, seja por causa da estática excessiva ou porque a própria onda está sendo deliberada ou involuntariamente bloqueada. Assim, pessoas com seus dispositivos de recepção defeituosos, desajustados ou insuficientes não conseguem selecionar e receber a faixa certa que, no entanto, ali está à sua disposição. Qual seria a natureza desses bloqueios e defeitos? Podemos imaginar alguns: mente sobrecarregada de preocupações, aborrecimentos, tensões, problemas mais imediatos de sobrevivência física etc.; mentes fechadas sobre si mesmas, que não conseguem projetar-se fora do círculo em que vivem a fim de penetrar o campo vibratório de outras pessoas ou desembaraçar-se de inibições bloqueadoras ou, ainda, que não conseguem livrar-se das estáticas (interferências externas fora de seu controle imediato). Não quer isto dizer que pessoas que não conseguem penetrar o campo mental de outras sejam seres necessariamente desarmonizados ou espiritualmente incapazes, mas que, simplesmente, não trazem na estrutura físico espiritual os dispositivos destinados a essa finalidade. Dentro das óbvias limitações da condição humana, não está a nosso alcance dispor de todos os recursos possíveis e desejados. Temos de nos contentar com apenas alguns deles, selecionados entre os que poderão desempenhar um papel construtivo na programação espiritual de cada existência que iniciamos.
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Nome do Capítulo Interação animismo/mediunidade