Um jovem casal nos procurou através de uma terceira pessoa para pedir uma orientação com relação ao filho de sete ou oito anos que estava apresentando estranhos problemas emocionais na escola. Embora normal em tudo o mais, costumava entrar em pânico ao dirigir-se à essa escola e, de modo ainda mais crítico, à sua sala de aula. Em muitas dessas ocasiões, era necessário que a irmãzinha maior ficasse com ele ou ele escapulia apavorado. A situação foi se agravando a tal ponto que a família não via mais saída possível e começou a considerar a possibilidade de uma perseguição espiritual, ou seja, uma obsessão. Submetido o caso aos nossos amigos espirituais, tivemos a informação de que não havia ali nenhum componente obsessivo. Em uma existência na França, ao tempo da Revolução, aproximadamente na mesma idade que tinha agora, o menino morrera vitimado por uma tragédia na escola, que se incendiara. O teto da sua sala de aula desabara e ele não teve como escapar. Os pais foram orientados a tratá-lo com muito carinho e despertar nele um sentimento de confiança e uma certeza de proteção para que, mesmo ignorando a causa do seu medo, aparentemente irracional, conseguisse atravessar aquele período que era apenas transitório. Lembro-me ainda da sensação de alívio da mãe ao me dizer que, felizmente, não se tratava de um caso de obsessão. Detalhe curioso: a entidade consultada aconselhou a falar à criança enquanto ela dormia, trasmitindo-lhe confiança e serenidade, e que freqüentasse o culto doméstico, mas não, sessões mediúnicas.
Vale a pena, ainda, observar que Regina teve, nesse caso, uma vidência de singular nitidez, certamente suscitada pela entidade espiritual que nos transmitiu a orientação.
Cedo a palavra à própria Regina: "Vi o menino, de nove anos mais ou menos, vestido com uma roupa de veludo azul escuro (não tanto quanto azul-marinho). Nos punhos aparecia a rendinha da camisa de dentro, também observada acima do colarinho do casaco azul. Vestia um calção da mesma cor do casaco, que ia até um pouco abaixo dos joelhos e ali ficava preso por uma fita. Uma meia justa chegava até os joelhos, completando o vestuário. Era uma criança muito bonita. Tinha os cabelos encaracolados.
Regina tem conhecimento de caso semelhante.
Um confrade espírita estava convencido de ser vítima de um problema obsessivo antigo e do qual não conseguia libertar-se. A 'coisa' manifestava-se como uma espécie de pesadelo, durante o qual alguém apertava-lhe a garganta, tentando estrangulá-lo.
Entrava nessas crises freqüentes durante a noite, despertando a mulher aflita, que ficava por algum tempo a orar ao seu lado.
Os sentidos de percepção espiritual de Regina mostraram-lhe que não havia entidade alguma a perturbá-lo. Alguém o estrangulara de fato na vida anterior e a cena trágica fora compreensivelmente traumatizante para ele, ainda mais que o assassino fora seu amigo pessoal. (O dr. Guirdham relata em seu livro The cathars and reincarnation caso semelhante, ocorreu com uma paciente dele e com ele próprio. Aliás, em ambos os sonhos pessoa que lhes infundia terror era a mesma, pois eles se haviam conhecido no Languedoc do século XIII).
Regina trasmitiu-lhe a informação e sugeriu-lhe que ele próprio deveria racionalizar o problema, convencendo-se de que não estava sendo vitimado por nenhum fato novo ou de caráter obsessivo e, sim, que aquilo já acontecera no passado; era uma página virada em sua vida. Portanto, não estava acontecendo nem iria acontecer de novo.
O problema desapareceu e ele manifestou sua gratidão a Regina, pois o pesadelo recorrente vinha da infância. Mal acreditava que se tivesse livrado daquilo para sempre.
Tanto um como o outro caso teriam sido considerados, fatalmente, como obsessão por dirigentes e médiuns despreparados.
8. REENCARNAÇÃO A METRO LINEAR
Quanto à reencarnação, há uma curiosidade generalizada. São muitos os que desejam saber, de qualquer maneira, que personalidades animaram no passado, especialmente interessados em gente famosa, na história, nas artes ou até mesmo no crime ... O mais lamentável de tudo isso é que existe gente 'faturando' em cima dessa curiosidade, nem sempre das mais sadias, cobrando sessões de regressão a tanto por hora ou por reencarnação. Alguém tendo conhecimento de que eu andava especulando sobre memória, fez-me uma ligação telefônica interestadual, para saber quanto eu cobrava para fazer uma regressão, porque desejava saber quem tinha sido no passado.
Respondi-lhe, delicadamente, que não era esse meu ofício. (De fato, jamais cogitara de montar uma estrutura para 'vender' reencarnação a metro linear). Se podia indicar alguém que o fizesse? Também não, lamento, desculpe-me, muito obrigado ... Bom- dia.
Mas há quem o faça, e até médiuns desavisados que proclamam com maior facilidade encarnações passadas de seus interlocutores, quase sempre fantasiosas, apoiadas em mero 'palpite' a que emprestam o status da intuição. São muitos, por outro lado, os que nem se preocupam em perguntar ou pesquisar, simplesmente decidem que foram fulano ou sicrano, assumindo personalidades que nada têm a ver com sua psicologia nem com suas estruturas de comportamento, dissonâncias essas que podem ser facilmente identificáveis com um mínimo de bom senso.
Regina tem, a respeito, algumas observações oportunas. Diz ela que, embora a individualidade tenha animado diferentes personalidades em épocas diversas, vivendo tipos variados, há sempre um traço comum entre as personalidades, isto é, características da individualidade que constituem a base, a estrutura das diversas vivências. Não seria admissível uma diferença psicológica tão radical entre personalidades vividas em existências diferentes, se a individualidade é a mesma. Há sempre traços comuns, sutis, mas perceptíveis ao observador atento, como conquistas evolutivas já consolidadas ou, reversamente, impulsos de manifestação inferior ainda não superados. Traços assim constituem uma espécie de pano de fundo, sempre presente e sobre o qual se movimenta a personalidade em cada uma de suas vidas terrenas. O processo evolutivo é lento. Pouco muda em nós de uma vida para a seguinte, especialmente quando esta ocorre em espaço de tempo relativamente curto.
Dificilmente o egoísta, o vaidoso ou o arbitrário da existência anterior virá generoso, modesto ou humilde na seguinte. Ou vice-versa: o ser mais evoluído, ajustado, pacificado não renascerá mesquinho, vulgar, violento na vida subseqüente. Há de haver aí certa coerência, ainda que transformações significativas possam ter ocorrido nesse ínterim, resultantes do esforço aplicado em corrigir-se por aqueles que se convencem. de que é bom ser bom. Pode ocorrer, ainda, que a pessoa venha programada para uma vida de ignorância mesmo, sem oportunidade de educação, embora tenha sido um ser de vastíssima cultura em existências anteriores. É certo que encontraremos nele a ignorância, pois não teve condições de ilustrar-se intelectualmente, mas não será difícil identificar, também, evidentes traços de inteligência, a não ser que renasça com graves problemas no cérebro físico.
Dessa maneira, o mais seguro é rejeitar identificações que não conferem nos traços psicológicos da personalidade, quando confrontadas umas com as outras. Um confrade esforçou-se, durante anos, em convencer-me de que o Chico Xavier era Allan Kardec reencarnado. Aliás, era o tema predileto de suas conversações essas conexões reencarnacionistas. Quanto ao Chico, suas conclusões baseavam-se em alguns dados reais, mas que evidentemente não se aplicavam ao caso. Lembrava ele que Kardec foi advertido pelo Espírito de Verdade de que iria desencarnar logo que concluída aquela etapa do seu trabalho para voltar, em seguida, em outra existência. na qual encontraria o espiritismo em pleno desenvolvimento para começar a trabalhar bem cedo, ou seja, ainda na mocidade. Ainda outro dado ele mencionava: o de que Kardec, ao comentar essa informação, acrescentara (por sua própria conta) que supunha esse interregno de tempo entre aquela existência sua e a seguinte em cerca de trinta anos. Ora, Kardec morreu em 1869 e Chico nascera cerca de quarenta anos após. Além do mais, Chico encontrara o espiritismo em plena fase de desenvolvimento e passara a desempenhar importantíssimo papel, tanto no movimento como, e principalmente, nos aspectos doutrinários, produzindo mediunicamente obras de maior importância e confiabilidade.
Não há a menor dúvida quanto a isso e os fatos estão corretamente expostos na sua disposição histórica. Acontece que a psicologia do nosso querido Chico - e sabemos de seus inúmeros predicados - muito pouco ou em nada se assemelha à de Kardec a ponto de justificar a conclusão de que um é a continuação do outro, ou melhor, de que a mesma individualidade tenha animado as duas personalidades.
Aliás o nosso querido confrade, formulador contumaz de identificações desse tipo, não está sozinho na hipótese Kardec/Chico. Este, porém, não é o ponto fundamental aqui, e sim, o de que a busca das encarnações passadas não deve ser empreendida sem as mais relevantes, aceitáveis e necessárias motivações e com os mais severos critérios de avaliação. Ou, para dizer de maneira diversa: como regra geral, jamais deverá ser empreendida, a não ser que um motivo muito importante o justifique. É preciso lembrar, contudo, que, se houver um motivo desses, os próprios amigos espirituais providenciarão para que o conhecimento venha, seja pelos mecanismos do animismo - mera recordação - ou pelos da mediunidade - via fenômeno mediúnico.
Às vezes a exemplificação pessoal é mais eloqüente por ser de primeira mão. Rogo ao leitor me conceda algum espaço para isso.