Pelo Sr. Alexandre Chaseray São inumeráveis as obras modernas nas quais o princípio da pluralidade das existências é afirmado casualmente.
Mas a de que falamos nos parece uma destas em que ele é tratado da maneira mais completa. O autor se empenha, além disso, em demonstrar que a idéia cresce e se impõe cada dia mais aos espíritos esclarecidos.
Nos fragmentos que transcrevemos a seguir, as notas são do autor.
“A transmigração das almas, diz o Sr. Chaseray, é uma idéia filosófica ao mesmo tempo das mais antigas e das mais novas.
A metempsicose constitui o fundo da religião dos hindus, religião muito anterior ao judaísmo, e Pitágoras pôde receber esta crença dos Brâmanes, a ser verdade que ele tenha estado na Índia; mas é mais provável que a tenha trazido do Egito, onde viveu muito tempo. A civilização reinava às margens do Nilo alguns milhares de anos antes do nascimento de Moisés e, no dizer de Heródoto, os sacerdotes egípcios foram os primeiros a anunciar que a alma é imortal e que passa sucessivamente por todas as espécies de animais, antes de entrar num corpo humano.
“Por seu lado, os gregos jamais abandonaram completamente a metempsicose. Os que entre eles não admitiam por inteiro a doutrina de Pitágoras, acreditavam vagamente com Platão que a alma imortal tinha existido em algum lugar, antes de se manifestar sob a forma humana, ou acreditavam no rio Letes e no renascimento do homem na Humanidade. Entre os primeiros cristãos, muitos neófitos entendiam conservar de seus antigos dogmas o que lhes parecia bom; os maniqueus, por exemplo, tinham conservado os dois princípios do bem e do mal e a migração das almas; é assim que, vindo os heresiarcas a se multiplicarem, os Pais e os Concílios tiveram muito a fazer para reconduzir os espíritos a uma fé uniforme. Definitivamente vitoriosa, a Igreja apostólica baniu de seu império a metempsicose, que foi substituída pelo dogma do julgamento irrevogável e da divisão dos homens em eleitos e danados. O purgatório foi introduzido mais tarde, como corretivo de uma decisão extremamente inflexível.
“Assim como não considerei muito como um progresso o espiritualismo de Santo Tomás, do qual não se vê nenhum traço nos livros santos, também ainda não julgo feliz, nem conforme a antiga doutrina do pecado original, que estabelece uma solidariedade tão estreita entre todas as gerações de homens, a afirmação dogmática que consiste em dizer que a existência de cada um de nós não tem raízes no passado e conduz a um paraíso ou a um inferno eternos. Em minha opinião, eis aí uma heresia filosófica, contra a qual o espírito moderno reage com força.
“Reaparece de todas as partes a transmigração das almas. Mas, em nossos dias, geralmente se concebe uma metempsicose mais larga do que aquela cuja crença atribuíam aos Antigos. O espírito de indução, tendo transposto os limites da Terra, e reconhecido nos sóis e nos planetas mundos habitados, não mais limitou os destinos do homem ao globo terrestre. Em lugar de ver a alma percorrendo incessantemente o círculo das plantas, dos animais e da espécie humana, ou renascendo constantemente na Humanidade, foi possível imaginá-la alçando seu vôo para mundos infinitos.39 “Não tenho senão o embaraço da escolha no caso de citações, para mostrar que a fé tem uma série de existências, umas anteriores, outras posteriores à vida presente, crescendo e se impondo cada dia mais aos espíritos esclarecidos.
“Comecemos por Jean Reynaud. Esse filósofo insiste na ligação natural que apresentam as duas idéias de preexistência e de vida futura.
“Se se examinasse, diz ele, todos os homens que passaram sobre a Terra, desde que a era das religiões cultas aí começou, ver-se-ia que a grande maioria viveu na consciência mais ou menos fixa de uma existência prolongada por vias invisíveis, aquém e além dos limites desta vida. Com efeito, aí há uma espécie de simetria tão lógica que deve ter seduzido as imaginações à primeira vista; o passado aí faz equilíbrio ao futuro, e o presente não é senão o pivô entre o que já não é e o que ainda não é. O platonismo despertou esta luz precedentemente agitada por Pitágoras e dela se serviu para esclarecer as mais belas almas que honraram os tempos antigos.40 “Esse julgamento de Jean Reynaud se acha plenamente confirmado pela nota seguinte de Lagrange, o elegante tradutor do poema de Lucrécia: “De todos os filósofos que viveram antes do Cristianismo, nenhum sustentou a imortalidade da alma sem estabelecer previamente a sua preexistência; um desses dogmas era considerado como conseqüência natural do outro. Acreditava-se que a alma devia existir sempre, porque sempre tinha existido; e, ao contrário, estavam persuadidos de que, concordando que ela tinha sido gerada com o corpo, não se tinha mais o direito de negar que ela devesse morrer com ele. ‘– Nossa alma, diz Platão, existia em algum lugar antes de estar nesta forma de homens; eis por que não duvido que ela seja imortal.’
“O velho druidismo, prossegue o autor de Terra e Céu, fala ao meu coração. Esse mesmo solo que hoje habitamos comportou antes de nós um povo de heróis, que estavam todos habituados a se considerar como tendo experimentado o Universo de longa data, antes de sua encarnação atual, fundando assim a esperança de sua imortalidade na convicção de sua preexistência.”
“Um dos nossos melhores historiadores também faz rasgados elogios ao principal ensino dos druidas; Henri Martin é de opinião que os nossos pais, os gauleses, representavam no mundo antigo ‘a mais firme, a mais clara noção da imortalidade que jamais houve.’41 “Por sua vez, diz Eugène Sue sobre a fé druídica: “Segundo esta crença sublime, o homem imortal, espírito e matéria, vindo de baixo e indo para o alto, transitava por esta Terra, aqui habitava passageiramente, como tinha habitado e devia habitar essas outras esferas que brilham, inumeráveis, no meio dos abismos do espaço.”42 “Já no século dezessete dizia Cyrano de Bergerac, a exemplo dos sacerdotes gauleses: “Morremos mais de uma vez; e como não somos senão partes deste Universo, mudamos de forma para retomar a vida alhures, o que não é um mal, mas um caminho para aperfeiçoar o ser e para chegar a um número infinito de conhecimentos.”
“Vários de nossos contemporâneos, contudo, sem parecer inspirar-se nos druidas, também anunciam que o destino da alma é viajar de mundos a mundos.
“Lê-se, por exemplo, na Profissão de fé do século dezenove, de Eugène Pelletan: “Pela irresistível lógica da idéia, creio poder afirmar que a vida mortal terá o espaço infinito como lugar de peregrinação...
O homem irá, pois, sempre de sol a sol, subindo sempre, como na escada de Jacó, a hierarquia da existência, passando sempre, segundo seu mérito e o seu progresso, de homem a anjo, de anjo a arcanjo.”
“E na Renovação Religiosa, do Sr. Patrice Larroque, antigo reitor da Academia: “Pode-se conjecturar que a maior parte dos outros globos que se movem no espaço, alberguem, como na Terra, seres organizados e animados, e que esses globos sejam os sucessivos teatros de nossas vidas futuras.”
“Lamennais exprime a idéia do renascimento de uma maneira absolutamente precisa, embora mais restrita: Diz ele: “Estando realizado o progresso possível ao indivíduo sob sua forma orgânica atual, ele devolve à massa elementar esse organismo gasto, revestindo um outro mais perfeito.”43 “Assinalemos, ainda, o traço seguinte do discurso pronunciado pelo Sr. Guéroult, do Opinion nationale, junto ao túmulo do pai Enfantin: “Ninguém foi mais religioso que Enfantin; ninguém viveu tanto quanto ele em presença da vida eterna, da qual esta vida, que nos escapa a cada instante, não é senão uma das inumeráveis etapas.
“Um dos nossos mais célebres romancistas dá a pensar que acredita na passagem dos seres inferiores nas espécies superiores e, nomeadamente, dos animais à Humanidade: “Explique quem quiser, diz George Sand, essas afinidades entre o homem e certos seres secundários da Criação.
Elas são tão reais quanto as antipatias e os terrores insuperáveis que nos inspiram certos animais inofensivos... É talvez que todos os tipos, repartidos cada um especialmente em cada raça de animais, se encontrem no homem. Os fisionomistas têm constatado semelhanças físicas; quem pode negar as semelhanças morais? Não há entre nós raposas, lobos, leões, águias, besouros e moscas? A grosseria humana é muitas vezes baixa e feroz, como o apetite do porco...”
“George Sand se mostra mais explícita a respeito da migração das almas, nas seguintes linhas da mesma obra:44 “Se não devemos aspirar à beatitude dos Espíritos puros da região das quimeras, se devemos sempre entrever, além desta vida, um trabalho, um dever, provações e uma organização limitada em suas faculdades em frente ao infinito, pelo menos nos é permitido pela razão e nos é ordenado pelo coração, contar com uma série de existências progressivas, em razão dos nossos bons desejos... Podemos considerar esta Terra como um lugar de passagem e contar com um despertar mais suave no berço que nos espera alhures. De mundos em mundos, podemos, desprendendo-nos da animalidade que aqui neste mundo combate o nosso espiritualismo, tornar-nos próprios para revestir um corpo mais puro, mais adequado às necessidades da alma, menos combatido e menos entravado pelas enfermidades da vida humana, tal qual a suportamos na Terra.