Conferências sobre a alma
“Citemos ainda um romancista, Balzac. Os romancistas desta ordem, assim como os poetas excepcionais, abordam as mais elevadas questões e sabem semear traços profundos em seus escritos de uma forma leve e agradável. É assim que em Os Miseráveis, Victor Hugo deixa cair de sua pena esta vaga interrogação: ‘De onde viemos? é bem certo que nada fizemos antes de termos nascido?’ É somente pensando nisto, e sem idéia preconcebida de sustentar uma tese filosófica, que o autor da Comédia Humana fala das existências sucessivas. Por isso não posso senão captar este pensamento em vários de seus romances. “Eis, por exemplo, algumas linhas de O lírio do vale: “O homem é composto de matéria e de espírito; a animalidade vem terminar nele e nele começa o anjo. Daí essa luta que experimentamos todos entre um destino futuro, que pressentimos, e as lembranças de nossos instintos exteriores, dos quais não nos desligamos inteiramente: um amor carnal e um amor divino.” “E encontro em Séraphita, esse romance místico, no qual Balzac expõe com um interesse e um encanto tão poderosos a doutrina religiosa do sueco Swedenborg: “As qualidades adquiridas e que se desenvolvem lentamente em nós são laços invisíveis que ligam cada uma de nossas existências uma à outra. “Enfim, nos Comediantes sem o saber, a sibila, senhora Fontaine, pergunta a Gazonal: “– Que flor amais? “– A rosa. “– De que cor gostais? “– Do azul. “– Que animal preferis? “– O cavalo. Por que estas perguntas? pergunta ele por sua vez. “– O homem se liga a todas as formas por seus estados anteriores, diz ela sentenciosamente; daí vêm os seus instintos, e os seus instintos dominam o seu destino.” “Michelet testemunha sua simpatia pelas mesmas idéias, quando chama o cão um candidato à Humanidade, e quando diz, falando dos pássaros: “Que são eles? almas esboçadas, almas especializadas ainda em tais funções da existência, candidatos à vida mais geral e mais vastamente harmônica, a que chegou a alma humana.’45 “Pierre Leroux não crê que o homem tenha passado pelos tipos inferiores dos animais e das plantas. Segundo ele, os indivíduos se perpetuam no seio da espécie e o homem renasce indefinidamente na Humanidade. A solidariedade entre todos os membros da família humana então é evidente; o bem que um homem faz aos seus semelhantes redunda em seu proveito, desde que deles não se separa pela morte, senão para logo voltar a misturar-se a eles. Sustentando a perpetuidade do ser no seio da espécie, Pierre Leroux afasta-se dos autores que acabo de citar e não encontra muitos aprovadores.46 Mas não deixa de ser um ardente defensor da idéia geral e de uma importância extrema, que liga a vida atual a uma série de existências. Depois de ter dito que a criança, vindo ao mundo, não é, como pretendia a escola de Locke, uma tábua rasa, e que é injuriar a Divindade supor que ela tire do nada novas criaturas, que embeleza ao acaso com seus dons, ou fere ao acaso com a sua cólera, Pierre Leroux conclui por estas palavras: “Assim, é preciso que se admita necessariamente o sistema indeterminado das metempsicoses, ou o sistema determinado do renascimento na Humanidade, que eu sustento.47 “Estou longe de repelir de maneira absoluta o sistema de renascimento na Humanidade; mas a Humanidade teve um começo, posterior mesmo ao da maioria das espécies animais e vegetais que cobrem o nosso globo; a Humanidade terá um fim; e, desde que a alma não perece, é preciso que o ser permanente, o eu, mergulhe suas raízes alhures que não na Humanidade, e encontre seu desenvolvimento futuro alhures que não na Humanidade, forma transitória.” As numerosas citações que faz o autor, e que estão longe de ser completas, provam quanto é geral a idéia da pluralidade das existências e que em pouco terá passado ao estado de verdade incontestável. Sobre outros pontos, ele se afasta completamente da Doutrina Espírita; estamos longe de partilhar sua opinião sobre todas as questões que trata em seu livro, notadamente no que concerne à Divindade, à qual ele atribui um papel secundário, e a natureza íntima da alma, cuja espiritualidade contesta. Seu sistema é uma espécie de panteísmo, que ladeia o Espiritismo, e parece ser um termo médio para certas criaturas que não querem o ateísmo, nem o niilismo, nem o espiritualismo dogmático. Por mais incompleto que seja, não deixa de ser um progresso notável sobre as idéias materialistas, das quais está muito mais afastado do que das nossas. Salvo alguns pontos muito controvertidos, a obra contém vistas muito profundas e muito justas, às quais o Espiritismo não poderá senão associar-se.
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Mês Setembro
Ano 1868