Jovem de 25 anos, falecida subitamente no lar, sem sofrimentos, sem causa previamente conhecida. Era rica, um tanto frívola e, em consequência da leviandade de seu caráter, ocupava-se mais com as futilidades da vida do que com as coisas sérias. Não obstante, possuía um coração bondoso e era dócil, afetuosa e caridosa. Evocada três dias após a morte por pessoas conhecidas, exprimiu-se assim:
“Não sei onde estou... que turbação me cerca!... Chamaste-me, e eu vim. Não compreendo por que não estou em minha casa... lamentam a minha ausência, quando lá estou, sem poder fazer-me reconhecida... Meu corpo não me pertence mais; e, contudo, eu lhe sinto a algidez... Quanto mais quero deixá-lo, mais a ele me sinto presa... Sou como duas personalidades... Oh! quando compreenderei o que se passa comigo? Preciso ir à minha casa novamente... que poderá acontecer a meu outro ‘eu’ na minha ausência? Adeus.”
O sentimento da dualidade que ainda não está destruído por uma completa separação é aqui evidente. Caráter volúvel, permitindo-lhe a posição e a fortuna a satisfação de todos os caprichos, deveria igualmente favorecer suas tendências à leviandade. Não é de admirar, portanto, que o seu desprendimento tenha sido lento, a ponto de, três dias após a morte, sentir-se ainda ligada ao envoltório corpóreo. Mas como não possuísse vícios sérios e fosse de boa índole, essa situação nada tinha de penosa e não deveria prolongar-se por muito tempo. Evocada novamente alguns dias depois, suas ideias já estavam bastante modificadas. Eis o que disse:
“Obrigada por haverdes orado por mim. Reconheço a bondade de Deus, que me poupou dos sofrimentos e apreensões consequentes ao desligamento do meu Espírito. Minha pobre mãe terá muita dificuldade em resignar-se; mas será confortada, e o que a seus olhos constitui terrível desgraça, era indispensável, a fim de que as coisas do céu se lhe tornassem no que devem ser: tudo. Estarei ao seu lado até o fim da sua provação terrena, ajudando-a a suportá-la. Não sou infeliz, porém, muito tenho ainda a fazer para alcançar a mansão dos bem-aventurados. Pedirei a Deus que me permita voltar a essa Terra, a fim de reparar o tempo que aí perdi nesta última existência. Que a fé vos sustente, meus amigos; confiai na sua eficácia, sobretudo quando partida do coração. Deus é bom.”
P. Levastes muito tempo para reconhecer-vos? – R. Compreendi a morte no mesmo dia em que orastes por mim.
P. Era doloroso o estado de perturbação? – R. Não, eu não sofria; acreditava sonhar e aguardava o despertar. Minha vida não foi isenta de dores, mas todo ser encarnado nesse mundo deve sofrer. Resignei-me à vontade de Deus e isso me foi levado em conta. Sou grata pelas vossas preces que me auxiliaram no reconhecimento de mim mesma. Obrigado; voltarei sempre com prazer. Adeus.
Hélène