Capítulo 3
Como? Pois não vivestes sempre honestamente? – R. Sim, no juízo dos homens; mas há um abismo entre a honestidade perante os homens e a honestidade perante Deus. E já que desejas instruir-te, procurarei demonstrar-te a diferença. Aí entre vós, é considerado honesto aquele que respeita as leis do seu país, respeito elástico para muitos. Honesto é aquele que não prejudica o próximo ostensivamente, embora lhe arranque muitas vezes a felicidade e a honra, já que o código penal e a opinião pública não atingem o culpado hipócrita. Quando se consegue gravar na lápide tumular um epitáfio de virtude, muitos julgam terem pago sua dívida à humanidade! Erro terrível! Para ser honesto perante Deus, não basta ter respeitado as leis dos homens; é preciso antes de tudo ter respeitado as leis divinas. Honesto aos olhos de Deus será aquele que, possuído de abnegação e amor, consagre a existência ao bem, ao progresso de seus semelhantes; aquele que, animado de um zelo sem limites, for ativo na vida; ativo no cumprimento dos deveres materiais que lhe são impostos, ensinando e exemplificando aos outros o amor ao trabalho; ativo nas boas ações, sem esquecer a condição de servo ao qual o Senhor pedirá contas, um dia, do emprego do seu tempo; ativo, finalmente, na prática do amor de Deus e do próximo. Assim, o homem honesto perante Deus deve evitar com cuidado as palavras mordazes, veneno oculto sob flores, que destrói reputações e acabrunha o homem, muitas vezes cobrindo-o de ridículo. O homem honesto, segundo Deus, deve ter sempre fechado o coração ao mais leve germe de orgulho, de inveja e de ambição; deve ser paciente e benévolo para com os que o agridem; deve perdoar do fundo da alma, sem esforços e sobretudo sem ostentação, a quem quer que o ofenda; deve, enfim, pôr em prática este preceito tão conciso e tão grande dos deveres do homem: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Eis aí, querida filha, em termos aproximados, o que deve ser o homem honesto perante Deus. Pois bem: eu o teria sido? Não. Confesso sem corar que faltei a muitos desses deveres; que não tive a atividade necessária; que o esquecimento de Deus impeliu-me a outras faltas, as quais, por não serem alcançadas pelas leis humanas, nem por isso deixam de ser atentatórias à Lei de Deus. Quando compreendi tudo isso sofri bastante, e assim é que hoje espero mais consolado a misericórdia desse Deus de bondade, que vê o meu arrependimento. Transmite, cara filha, repete tudo o que te disse aos que tiverem a consciência sobrecarregada, para que reparem suas faltas à custa de boas obras, a fim de que a Misericórdia Divina se estenda por sobre eles. Seus olhos paternais lhes calcularão as provações e sua mão potente lhes apagará as faltas.
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Espíritos em condições medianas
Tema Joseph Bré
Item 2