Com a Lei, éramos servos; com o Evangelho, somos filhos livres de um Pai amoroso e justo!...” Nesse ínterim, Estevão sustou a palavra que lh e fluía harmoniosa e vibrante dos lábios, inspirada nos mais puros sentimentos. Os ouvintes de todos os matizes não conseguiram ocultar o assombro, ante os seus conceitos de vigorosas revelações. A multidão embeve cera-se com os princípios expostos. Os mendigos, ali aglomerados, endereçavam ao pregador um sorriso de aprovação, bem significativo de jubilosas esperanças. João fixava nele os olhos enternecidos, identificando, mais uma vez, no seu verbo ardente, a mensagem evangélica interpretada por um discí pulo dileto do Mestre inesquecível, nunca ausente dos que se reúnem em seu nome. Saulo de Tarso, emotivo por temperamento, fun dia-se na onda de admiração geral; mas, altamente sur preendido, verificou a diferença entre a Lei e o Evangelho anunciado por a queles homens estranhos, que a sua mentalidade não podia compreender. Analisou, de relance, o perigo que os novos ensinos acarretavam para o judaísmo dominante. Revoltara -se com a prédica ouvida, nada obstante a sua ressonância de mis teriosa beleza. Ao seu raciocínio, impunha-se eliminar a confusão que se esboçava, a propósito de Moisés. A Lei era uma e única. Aquele Cristo que culminou na derrota, entre dois ladrões, surgia a seus olhos como um mistificador indigno de qualquer consideração. A vitória de Estevão na consciência popular, qual a veri ficava naquele instante, causava -lhe indignação. Aqueles galileus poderiam ser piedosos, mas não deixavam de ser criminosos pela subversão dos princípios invioláveis da raça. O orador preparava-se para retomar a palavra, momentaneamente interrompida e aguardada com expecta ção de júbilo geral, quando o jovem doutor se levantou ousadamente e exclamou, quase colérico, frisando os conceitos com evidente ironia. — “Piedosos galileus, onde o senso de vossas dou trinas estranhas e absurdas? Como ousais proclamar a falsa supremacia de um nazareno obscuro sobre Moisés, na própria Jerusalém onde se decidem os destinos das tribos de Israel invencível? Quem era esse Cristo? Não foi um simples carpinteiro ?“ Ao orgulhoso entono da inesperada apóstrofe, houve no ambiente um tal ou qual retraimento de temor, mas, dos desvalidos da sorte, para quem a mensagem do Cristo era o alimento supremo, partiu para Estevão um olhar de defesa e jubiloso entusiasmo. Os Apóstolos da Galiléia não conseguiam dissimular seu receio. Tiago estava lívido. Os amigos de Saulo notaram -lhe a máscara escarninha. O pregador também empalidecera, mas reve lava no olhar resoluto o mesmo traço de imperturbável serenidade. Fitando o doutor da Lei, o primeiro homem da cidade que se atrevera a perturbar o esforço generoso do evangelismo, sem trair a seiva de amor que lhe des bordava do coração, fez ver a Saulo a sinceridade das suas palavras e a nobreza dos seus pensamentos. E antes que os companheiros voltassem a si da surpresa que os assomara, com admirável presença de espírito, indi ferente à impressão do temor coletivo, obtemperou: — “Ainda bem que o Messias fora carpinteiro: por que, nesse caso, a Humanidade já não ficaria sem abrigo. Ele era, de fato, o Abr igo da paz e da esperança! Nunca mais andaremos ao léu das tempestades nem na esteira dos raciocínios quiméricos de quantos vivem pelo cálculo, sem a claridade do sentimento.” A resposta concisa, desassombrada, desconcertou o futuro rabino, habituado a triunfar nas esferas mais cultas, em todas as justas da palavra. Enérgico, ruborizado, evidenciando cólera profunda, mordeu os lábios num gesto que lhe era peculiar e acrescentou com voz dominadora: — Aonde iremos com semelhantes excessos de interpretação, em torno de um mistificador vulgar, que o Sinédrio puniu com a flagelação e a morte? Que dizer de um Salvador que não conseguiu salvar -se a si mesmo? Emissário revestido de celestes poderes, como não evitou a humilhação da sentença infamante? O Deus dos ex ércitos, que seqüestrou a nação privilegiada ao cativeiro, que a guiou através do deserto abrindo -lhe a passagem do mar; que lhe saciou a fome com o maná divino e, por amor, transformou a rocha impassível em fonte de água viva, não teria meios, outros, de assinalar o seu enviado senão com uma cruz de martírio, entre malfeitores co muns? Tendes, nesta casa, a glória do Senhor Supremo, assim barateada? Todos os doutores do Templo conhecem a história do impostor que celebrizais com a simplicidade da vossa ignorância! Não vacilais em rebaixar nossos próprios valores, apresentando um Messias dilacerado e sangrento, sob os apupos do povo ..... Lançais vergonha sobre Israel e desejais fundar um novo reino? Seria justo dardes a conhecer, inteiramente, a nós outros, o móvel das vossas fábulas piedosas.” Estabelecida uma pausa na sua objurgatória, o ora dor voltou a falar com dignidade: — Amigo, bem se dizia que o Mestre chegaria ao mundo para confusão de muitos em Israel. Toda a história edificante do nosso povo é um documento da revelação de Deus. No entanto, não vedes nos efeitos maravilhosos com que a Providência guiou as tribos hebréias, no passado, a manifestação do carinho extremo de um Pai desejoso de construir o futuro espiritual de crianças queridas do seu coração? Com o correr do tempo, observamos que a mentalidade infantil enseja mais vastos princípios educativos, O que ontem era carinho, é hoje energia oriunda das grandes expressões amorosas da alma. O que ontem era bonança e verdor, para nutrição da sublim e esperança, hoje pode ser tempestade, para dar segurança e resistência. Antigamente, éramos meninos até no trato com a revelação; agora, porém, os varões e as mulheres de Israel atingiram a condição de adultos no conhecimento, O Filho de Deus trouxe a luz da verdade aos homens, ensinando -lhes a misteriosa beleza da vida, com o seu engrandecimento pela renúncia. Sua glória resumiu -se em amar-nos, como Deus nos ama. Por essa mesma razão, Ele ainda não foi compreendido. Acaso poderíamos aguardar um salvador de acordo com os nossos propósitos inferiores? Os profetas afirmam que as estradas de Deus podem não ser os caminhos que desejamos, e que os seus pensamentos nem sempre se poderão harmonizar com os nossos. Que dizermos de um Messias que empunhasse o cetro no mundo, disputando com os príncipes da iniqüidade um galardão de triunfos sangrentos? Porventura a Terra já não estará farta de batalhas e cadáveres? Perguntemos a um general romano quanto lhe custou o domínio da aldeia mais obscura; consultemos a lista negra dos triunfadores, segundo as nossas idéias errôneas da vida. Israel jamais poderia esperar um Messias a exibir -se num carro de glórias magnificentes do plano material, suscetível de tombar no primeiro resvaladouro do caminho. Essas ex pressões transitórias pertencem ao cenário efêmero, no qual a púrpura mais fulgurante volta ao pó. Ao contrário de todos os que pretenderam ensinar a virtude, repou sando na satisfação dos próprios sentidos, Jesus executou sua tarefa entre os mais simples ou mais desventuradoS, onde, muitas vezes, se encontram as manifestações do Pai, que educa, através da esperança insatisfeita e das dores que trabalham, do berço ao túmulo, a existência humana. O Cristo edificou, entre nós, seu reino de amor e paz, sobre alicerces divin os. Sua exemplificação está projetada na alma humana, com luz eterna! Quem dê nós, então, compreendendo tudo isso, poderá identificar no Emissário de Deus um príncipe belicoso? Não! O Evangelho é amor em sua expressão mais sublime. O Mes tre deixou-se imolar transmitindo-nos o exemplo da redenção pelo amor mais puro. Pastor do imenso rebanho, Ele não quer se perca uma só de suas ovelhas bem -amadas, nem determina a morte do pecador, O Cristo é vida, e a salvação que nos trouxe está na sagrada opor tunidade da nossa elevação, como filhos de Deus, exercendo os seus gloriosos ensinamentos.” Depois de uma pausa, o doutor da Lei já se erguia para revidar, quando Estevão continuou: — “E agora, irmãos, peço vênia para concluir minhas palavras. Se não vos falei como desejáveis, falei como o Evangelho nos aconselha, argüindo a mim próprio na íntima condenação de meus grandes defeitos. Que a bênção do Cristo seja com todos vós. Antes que pudesse abandonar a tribuna para con fundir-se com a multidão, o futuro rabino levantou-se de chofre e observou enraivecido: — Exijo a continuação da arenga! Que o pregador espere, pois não terminei o que preciso dizer. Estevão replicou serenamente: — Não poderei discutir. — Por quê? — perguntou Saulo irritadíssimo. — Estais intimado a prosseguir. — Amigo — elucidou o interpelado calmamente —‘o Cristo aconselhou que devemos dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Se tendes alguma acusação legal contra mim, exponde -a sem receio e vos obedecerei; mas, no que pertence a Deu s, só a Ele compete argüir-me. Tão alto espírito de resolução e serenidade, quase desconcertou o doutor do Sinédrio; compreendendo, po rém, que a impulsividade somente poderia prejudicar-lhe a clareza do pensamento, acrescentou mais calmo, apesar do tom imperioso que deixava transparecer toda a sua energia: — Mas eu preciso elucidar os erros desta casa. Necessito perguntar e haveis de responder-me. — No tocante ao Evangelho — replicou Estevão —. já vos ofereci os elementos de que podia dispor, escla recendo o que tenho ao meu alcance. Quanto ao mais, este templo humilde é construção de fé e não de justas casuísticas. Jesus teve a preocupação de recomendar a seus discípulos que fugissem do fermento das discussões e das discórdias. Eis por que não será lícito perdermos tempo em contendas inúteis, quando o trabalho do Cristo reclama o nosso esforço. — Sempre o Cristo! sempre o impostor! — trovejou Saulo, carrancudo. — Minha autoridade é insultada pelo vosso fanatismo, neste recinto de miséria e de ignorância.