1ª Parte - Cap. 5: A pregação de Estevão
Mistificadores, rejeitais as possibilidades de es clarecimento que vos ofereço; galileus incultos, não que reis considerar o meu nobre cartel de desafio. Saberei vingar a Lei de Moisés, da qual se tripudia. Recusais a intimativa, mas não podereis fugir ao meu desforço. Aprendereis a amar a verdade e a honrar Jerusalém, renunciando ao nazareno insolente, que pagou na cruz os criminosos desvarios. Recorrerei ao Sinédrio para vos julgar e punir. O Sinédrio tem autoridade para desfazer vossas condenáveis alucin ações. Assim concluindo, parecia possesso de fúria. Mas nem assim logrou perturbar o pregador, que lhe res pondeu de ânimo sereno: — Amigo, o Sinédrio tem mil meios de me fazer chorar, mas não lhe reconheço poderes para obrigar -me a renunciar ao amor de Je sus-Cristo Dito isso, desceu da tribuna com a mesma humil dade, sem se deixar empolgar pelo gesto de aprovação que lhe enderaçavam os filhos do infortúnio, que ali o ouviam como a um defensor de sagradas esperanças Alguns protestos isolados começaram a ser ouvidos. Fariseus irritados vociferavam insolências e remoques. A massa agitava -se, prevendo atrito iminente; mas, antes que Estevão caminhasse dez passos para o interior junto dos companheiros, e antes que Saulo o alcançasse com outras objeções pessoais e diretas, uma velhinha maltra pilha apresentou-lhe uma jovem pobremente vestida e exclamou cheia de confiança: — Senhor! sei que continuais a bondade e os feitos do profeta de Nazaré, que um dia me salvou da morte, apesar dos meus pecados e fraquezas. Atendei-me também, por piedade! Minha filha emudeceu há mais de um ano. Trouxe -a de Dalmanuta até aqui, vencendo enormes dificuldades, confiada na vossa assistência fra ternal! O pregador refletiu, antes de tudo, no perigo de qualquer capricho pessoal da sua parte, e, desejoso de atender à suplicante, contemplou a doente com sincera simpatia e murmurou: — De nós nada temos, mas é justo esperar do Cristo as dádivas que nos sejam necessárias. Ele que é justo e generoso não te esquecerá na distribuição santificada da sua misericórdia. E, como atuado por força estranha, acrescentava: — Hás de falar, para louvor do bom Mestre!... Então, viu-se um fato singular, que impressionou de súbito a numerosa assembléia. Com um raio de infinita alegria nos olhos, a enfer ma falou: — Louvarei ao Cristo de toda minhalma, eternamente. Ela e a genitora, tomadas de forte comoção, caíram, ali mesmo, de joelhos e beijaram-lhe as mãos; Estevão, entretanto, tinha agora os olhos mareados de pranto, profundamente sensibilizado. Era o primeiro a comover-se e admirar a proteção recebida, e não tinha outro meio que não o das lágrimas sinceras para traduzir a intensidade do seu reconhecimento. Os fariseus, que se aproximavam no intuito de com prometer a paz do recinto humilde, recuaram e stupefatos. Os pobres e os aflitos, como se houvessem recebido um reforço do Céu para o êxito da crença pura, encheram a sala de exclamações de sublime esperança. Saulo observava a cena sem poder dissimular a própria ira. Se possível, desejaria esfrangalhar Estevão em suas mãos. No entanto, apesar do temperamento impulsivo, chegou à conclusão de que um ato agressivo levaria os amigos presentes a um conflito de sérias proporções. Refletiu, igualmente, que nem todos os adeptos do “Caminho” estavam, como o pregador, em condições de circunscrever a luta ao plano das lições de ordem espiritual, e, de certa maneira, não recusariam a luta física. De relance, notou que alguns estavam armados, que os anciães traziam fortes cajados de arrimo, e os aleijados exi biam rijas muletas. A luta corporal, naquele recinto de construção frágil, teria conseqüências lamen táveis. Procurou coordenar melhores raciocínios. Teria a Lei a seu favor. Poderia contar com o Sinédrio. Os sacerdotes mais eminentes eram amigos devotados . Lutaria com Estevão até dobrar-lhe a resistência moral. Se não conseguisse submetê -lo, odiá-lo-ia para sempre. Na satisfação dos seus caprichos, saberia remover todos os obstáculos. Reconhecendo que Sadoc e mais dois companhei ros iam iniciar o tumulto, gritou-lhes em voz grave e imperiosa: — Vamo-nos! Os adeptos do “Caminho” pagarão muito caro a sua ousadia. Nesse momento, quando todos os fariseus se dis punham a lhe atender a voz de comando, o moço de Tarso notou que Estevão se encaminhava para o interior da casa, passando -lhe rente aos ombros. Saulo sentiu -se abalado em todas as fibras do seu orgulho. Fixou -o, quase com ódio, mas o pregador correspondeu-lhe com um olhar sereno e amistoso. Tão logo se retirou o jovem doutor da Lei com os companheiros n umerosos que não conseguiam disfarçar o seu despeito, os Apóstolos galileus passaram a considerar, com grande receio, as conseqüências que poderiam advir do inesperado episódio. No dia seguinte, como de costume, Saulo de Tarso, à tardinha, entrava em casa de Zacarias, deixando trans parecer na fisionomia a contrariedade que lhe ia no íntimo. Depois de aliviar -se um tanto dos pensamentos sombrios que o atribulavam, graças ao carinho da noiva amada, por ela instado a dizer os motivos de tamanha preocupação, narrou-lhe os acontecimentos da véspera, acrescentando: — Esse Estevão pagará caríssimo a humilhação que pretendeu infligir -se publicamente. Seus raciocínios sutis podem confundir os menos argutos e necessário é fazermos preponderar nossa autoridade em fac e dos que não têm competência para versar os princípios sagrados. Hoje mesmo conversei com alguns amigos relativamente às providências que nos cumpre tomar. Os mais tole rantes alegam o caráter inofensivo dos galileus, pacíficos e caritativos, mas sou de opinião que uma ovelha má põe o rebanho a perder. — Acompanho-te na defesa das nossas crenças — advertiu a moça satisfeita —, não devemos abandonar nossa fé ao trato e ao sabor das interpretações individuais e incompetentes. Depois de uma pausa: — Ah! se Jeziel estivesse conosco, seria teu braço forte na exposição dos conhecimentos sagrados. Cer tamente, ele teria prazer em defender o Testamento contra qualquer expressão menos razoável e fidedigna. — Combateremos o inimigo que ameaça a genuini dade da revelação divina exclamou Saulo e não cederei terreno aos inovadores incultos e cavilosos. — Esses homens são muitos? perguntou Abigail apreensiva. — Sim, e o que os torna mais perigosos é o mas cararem as intenções com atos piedosos, por exaltar a imaginação v ersátil do povo com pretensos poderes misteriosos, naturalmente alimentados à custa de feitiça rias e sortilégios. Em qualquer hipótese — advertiu a jovem de pois de refletir um momento — convém proceder com serenidade e prudência, para evitar os abusos de autoridade. Quem sabe são criaturas mais necessitadas de educação que de castigo? — Sim, já pensei em tudo isso. Aliás, não pretendo incomodar os galileus simplórios e despretensiosos que se cercam, em Jerusalém, de inválidos e doentes, dando -nos a impressão de loucos pacíficos. Contudo, não posso deixar de reprimir o orador, cujos lábios, a meu ver, destilam poderoso veneno no espírito volúvel das massas sem consciência perfeita dos princípios esposados. Aos primeiros importa esclarecer, mas o segundo p recisa ser anulado, visto não se lhe conhecerem os fins, quiçá criminosos e revolucionários. — Não tenho como desaprovar as tuas ilações —concluiu a jovem, condescendente. Em seguida, como de costume, palestraram sobre os sentimentos sagrados do coração, notando-se que o moço de Tarso encontrava singular encanto e caridoso bálsamo nas observações afetuosas da companheira que rida. Passados alguns dias, tomavam -se em Jerusalém providências para que Estevão fosse levado ao Siné drio e ali interrogado sobre a finalidade colimada com as prédicas do “Caminho”. Dada a intercessão conciliatória de Gamaliel, o feito se resumiria a uma discussão em que o pregador das novas interpretações definisse perante o mais alto tribunal da raça os seus pontos de vista, a fim d e que os sacerdotes, como juizes e defensores da lei, expusessem a verdade nos devidos termos. O convite à requesta chegou à igreja humilde, mas Estevão se esquivou, alegando que não seria razoável disputar, em obediência aos preceitos do Mestre, apesar dos argumentos do filho de Alfeu, a quem intimidava a perspectiva de uma luta com as autoridades em evidência, parecendo -lhe que a recusa chocaria a opinião pública. Saulo a seu turno, não poderia obrigar o antagonista a corresponder ao desafio, mesmo porqu e, o Sinédrio só poderia empregar meios compulsórios no caso de uma denúncia pública, depois da instauração de um processo em que o denunciado fosse reconhecido como blasfemo ou caluniador. Ante a reiterada escusa de Estevão, o doutor de Tarso exasperou -se. E depois de irritar a maioria dos companheiros contra o adversário, arquitetou vasto plano, de modo a forçá -lo à polêmica desejada, na qual buscaria humilhá-lo diante de todos os maiorais do judaísmo dominador. Depois de uma das sessões comuns do Tribun al, Saulo chamou um de seus amigos serviçais e falou -lhe em voz baixa: — Neemias, nossa causa precisa de um coopera dor decidido e lembrei-me de ti para a defesa dos nossos princípios sagrados. — De que se trata? — perguntou o outro com enigmático sorriso. — Mandai e estou pronto a obedecer. — Já ouviste falar num falso taumaturgo chamado Estevão? — Um dos tais homens detestáveis do “Caminho”? Já lhe ouvi a própria palavra e por sinal que reconheci nas suas idéias as de um verdadeiro alucinado. — Ainda bem que o conheces de perto — replicou o jovem doutor, satisfeito. Necessito de alguém que o denuncie como blasfemo em face da Lei e lembrei-me da tua cooperação neste sentido. — Só isso? — interrogou o interpelado, astuta mente. — Ë coisa fácil e agradável. Pois não o ouvi dizer que o carpinteiro crucificado é o fundamento da verdade divina? Isso é mais que blasfêmia. Trata -se de um revolucionário perigoso, que deve ser punido como caluniador de Moisés. — Muito bem! — exclamou Saulo num largo sor riso.
TAG Valor
Capítulo 5
Nome do Capítulo A pregação de Estevão
Parte Primeira Parte