Capítulo 14
A razão se revolta à lembrança das torturas morais e corpóreas a que a Ciência tem submetido algumas criaturas fracas e delicadas, para se certificar da existência de fraude da parte delas. Tais experimentações, feitas maldosamente na maior parte das vezes, são sempre prejudiciais às organizações sensitivas, podendo mesmo acarretar graves desordens à economia orgânica. Fazer semelhantes experiências é brincar com a vida. O observador de boa-fé não precisa empregar esses meios. Aquele que está familiarizado com os fenômenos desta espécie sabe, além disso, que eles são mais de ordem moral do que de ordem física e que seria inútil buscar a sua solução nas nossas ciências exatas. Justamente porque tais fenômenos são mais de ordem moral, deve-se evitar com escrupuloso cuidado tudo quanto possa superexcitar a imaginação. Como se sabe, o medo pode ocasionar muitos acidentes, de forma que o homem cometeria menos imprudências se conhecesse todos os casos de loucura e de epilepsia, cuja origem se encontra nos contos de lobisomens e bichos-papões. Imagine-se, então, o que não acontecerá se convencerem todas as pessoas de que o agente dos aludidos fenômenos é o diabo! Os que propagam semelhantes ideias não sabem a responsabilidade que assumem: podem matar. Ora, o perigo não existe apenas para o paciente, mas também para os que o cercam, os quais podem ficar aterrorizados, ao pensarem que a casa onde moram se tornou um covil de demônios. Foi esta crença funesta que causou tantos atos de atrocidade nos tempos de ignorância. Entretanto, se houvesse um pouco mais de discernimento, muitos teriam raciocinado, ao queimarem corpos supostamente possuídos pelo demônio, que não queimavam o diabo. Já que queriam livrar-se do diabo, é o diabo que deviam matar. A Doutrina Espírita, ao nos esclarecer sobre a verdadeira causa de todos esses fenômenos, dá-lhe o golpe de misericórdia. Longe, pois, de estimular tal ideia, todas as pessoas — e este é um dever de moralidade e de humanidade — devem combatê-la, onde quer que ela exista. O que se deve fazer em todos os casos, quando uma faculdade dessa natureza se desenvolve espontaneamente num indivíduo, é deixar que o fenômeno siga o seu curso natural: a Natureza é mais prudente do que os homens. Aliás, a Providência tem os seus planos e a mais humilde criatura pode servir de instrumento aos desígnios divinos. É inegável, porém, que algumas vezes o fenômeno assume proporções fatigantes e importunas para todo mundo.³⁸ No capítulo V, Manifestações físicas espontâneas, já demos alguns conselhos a respeito, dizendo ser preciso entrar em comunicação com o Espírito, para saber dele o que deseja. O meio seguinte também se baseia na observação. Geralmente, são de ordem inferior os seres invisíveis que revelam sua presença por meio de efeitos sensíveis, e esses Espíritos podem ser dominados pelo ascendente moral do médium. É este ascendente que devemos procurar adquirir. Para alcançá-lo, é preciso que o indivíduo passe do estado de médium natural ao de médium facultativo. Produz-se, então, efeito análogo ao que se observa no sonambulismo. Como se sabe, o sonambulismo natural cessa geralmente quando é substituído pelo sonambulismo magnético. Não se suprime a faculdade que tem a alma de emancipar-se: apenas se dá a ela outra diretriz. O mesmo acontece com a faculdade mediúnica. Para isso, em vez de dificultar ou impedir os fenômenos, coisa que raramente se consegue e que nem sempre é isenta de perigo, o que se deve fazer é estimular o médium a produzi- los à sua vontade, impondo-se ao Espírito. Por esse meio, o médium chega a subjugá-lo e, de um dominador às vezes tirânico, faz um ser submisso e, não raro, bastante dócil. Fato digno de nota, confirmado pela experiência, é que, em tal caso, uma criança tem tanta e, por vezes, mais autoridade do que um adulto. Esta é mais uma prova a favor deste ponto capital da Doutrina: que o Espírito só é criança pelo corpo; que tem por si mesmo um desenvolvimento necessariamente anterior à sua encarnação atual, desenvolvimento que lhe pode dar ascendente sobre Espíritos que lhe são inferiores. A moralização do Espírito, pelos conselhos de uma pessoa influente e experiente, caso o médium não se ache em condições de fazê-lo, constitui quase sempre meio muito eficaz. Mais tarde voltaremos a tratar deste assunto.
TAG Valor
Parte Segunda
Nome do Capítulo Médiuns
Tema Médiuns de efeitos físicos
Item 162