XIII
Os salmos se sucedem, em um ritmo lento, grave, solene. Dessas notas melancólicas, freqüentemente monótonas, sobressai, de tempos a tempos, um grito de amor, verdadeira flor da Alma que, desse oceano de misérias humanas, sobe até ao céu para implorar ao Criador. Dentro em pouco, as frases salmódicas cessam. Na penumbra da bancada, os religiosos prostrados parecem imergidos em profunda meditação. Enfim, irrompe o último apelo de David em sua penitência, último soluço da Humanidade aflita, que um raio de esperança ilumina e aquece: De profundis clamavi ad te Domine, exaudi vocem meam. “Das profundezas da minha dor gritei por ti, Senhor, ouve a minha prece!” O cemitério do convento é de aspecto lúgubre. Nenhuma laje, nenhuma inscrição determina as sepulturas. Na fossa aberta, deposita-se simplesmente o copo do monge, revestido de seu hábito e estirado sobre uma tábua, sem esquife; depois, cobrem-no de terra. Nenhum outro sinal, além de uma cruz, designa a sepultura desse passageiro da vida, desse hóspede do silêncio, do qual ninguém, à exceção do prior, saberá o nome verdadeiro! Será a primeira vez que percorro esses longos corredores e esses claustros solitários? Não! Quando sondo o meu passado, sinto estremecer em mim a misteriosa cadeia que liga minha personalidade atual à dos séculos escoados. Sei que entre os despojos que ali jazem, nesse cemitério, há um que meu Espírito animou. Possuo um terrível privilégio, o de conhecer minhas existências passadas. Uma delas acabou nesses lugares. Depois dos cinco lustros de lutas da epopéia napoleônica, nas quais o destino me havia imergido, exausto de tudo, afrontado pela vista do sangue e do fumo de tantas batalhas, aqui vim buscar a paz profunda. Na série de vidas sucessivas, uma existência monástica pode ser útil, pois nos ensina a renúncia das coisas mundanas, a concentração do pensamento, a austeridade dos costumes. No claustro, o Espírito se liberta de sugestões materiais e se abre às visões divinas! Seria bom que todas as Almas descidas à carne conservassem a lembrança de suas anterioridades? Não penso assim. Deus agiu sabiamente velando aos nossos olhos, ao menos durante a difícil passagem pela vida terrestre, às cenas trágicas, aos desfalecimentos, aos erros funestos de nossa própria história. Nosso presente fica, assim, aliviado; a tarefa atual torna-se mais fácil. Chegará sempre, à nossa volta para o Espaço, tempo de ver alçarem-se diante de nós os fantasmas acusadores. Sem dúvida, muitos não terão que temer semelhante quadro. Que a paz esteja em seus Espíritos! Quanto a mim, sei uma coisa: quando deixar a Terra para voltar ao Além, as vozes do passado elevar-se-ão e gritarão contra mim, porque fui culpado, e o sangue enrubesceu minhas mãos. Mas, as Almas que eu pude esclarecer e consolar, nesta vida, levantar-se-ão também, eu o espero, para falar em meu favor, e o julgamento supremo a meu respeito será, assim, atenuado.
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Título A montanha (impressões de viagem)
Parte Segunda
Título da Parte O Livro da Natureza