XIII
O Universo inteiro se reflete em nós outros qual em um espelho. O mundo invisível, por transmissão, não percebida, liga-se ao mundo visível. Em cima, reina a lei de harmonia que rege ambos. A Alma, em sua contemplação, projetada para além de si própria, exteriorizada de alguma sorte, penetra-os e abraça-os. Em um momento, sentiu passar por si o grande frêmito do Infinito; comungou com o Pensamento Supremo; compreendeu que este só criou os mundos para que servissem de degraus às ascensões do Espírito. Certa tarde de julho, no curso de um passeio solitário nos arredores de Eaux-Bonnes, perdi-me na montanha, cheia de bosques, de Gourzy. Tendo vindo à noite, e tornando-se impossível a volta pelas sendas escarpadas que eu tinha percorrido, tive de resignar-me a esperar que o dia retornasse e descansei num leito de relva improvisado. Essa noite deixou em minha memória uma recordação cheia de encanto e poesia penetrantes. Quantas impressões recolhidas! Eu ouvia os gemidos, os apelos dos hóspedes dos bosques: a raposa, o galo das charnecas, o grande mocho das montanhas, de grito quase humano. A vida rodava em volta de mim, misteriosa; eu lhe percebia os rumores, as palpitações ligeiras. Em uma touceira, a certa distância, iluminação estranha atrai a minha atenção; aproximo-me: é uma assembléia de pirilampos; suas pequenas lanternas verdes constelam as ramadas, enquanto no céu outras luminárias mais poderosas resplandecem acima de minha cabeça. Posso acompanhar com os olhos, durante essa noite, todo o desfilar do exército celeste. Depois, com a marcha solene das estrelas, o levantar da Lua, cuja trêmula claridade passa através da folhagem e vem brincar entre os musgos e os fetos. Nenhum pensamento de temor perturba minha alma. Sinto-me cercado de beatitude inexprimível. A grande voz da torrente retine no silêncio da noite, entretendo-me com coisas graves e profundas. Que a diz? Diz a aspiração para o divino, conta a imortalidade, a participação de todos os seres segundo suas forças, na obra imensa, na potente harmonia do mundo. Ela diz: “Observa meu curso; é a imagem do teu destino. Agora fujo, torrente impetuosa, por entre os blocos atormentados. Minha onda rola em cascatas ou se quebra em espumas; mais tarde, porém, tornar-me-ei o largo rio, cortado de ilhas, que correrá calmo, imponente, através da esmeralda dos prados, sob a opala do céu.” Eis o que diz a voz solene, soberba de grandeza e de eloqüência, enquanto contemplo os céus. Lá em cima, outros problemas me atraem. Para onde vão esses mundos inumeráveis? Em virtude de que forças se movem, se procuram no seio do insondável abismo? Sempre, no fundo de tudo, surge o pensamento de Deus, energia eterna, eterno amor! A mão que dirige os astros na extensão, escreveu ali um nome, em letras de fogo! Todos esses mundos conhecem seu trilho, sua missão sagrada; prosseguem infalivelmente. Sabem que representam um papel no plano divino, e a este se associam estreitamente. Todo o segredo da Natureza está nisso. Os mares, as florestas e as montanhas não dizem outra coisa. A Via-Láctea, que desenrola através do Espaço sua poeira de mundos; os cedros gigantescos, que estendem seus longos ramos acima dos precipícios; a flor, que se expande aos beijos do Sol; tudo nos murmura: É a Ele que devemos o ser; é por Ele que vivemos e morremos! Sim, está ali o santuário em que a Alma se abre e se expande à visão do grande céu e de Deus, autor de sua ordem e sublime beleza. É aquele o templo da religião eterna e viva, cuja inelutável lei está escrita nas frontes das noites estreladas e nas profundezas da consciência humana! Mas eis a alvorada, o majestoso levantar do Sol sobre os cimos longínquos. Qual esfera de metal incandescente, o astro-rei sobe no horizonte. A princípio, os cimos dentados dos picos flamejam na luz renascente e, de igual modo que na tarde anterior, a tinha subido rapidamente em volta de mim, enquanto a sombra descia com igual velocidade. Como se um véu se tivesse rasgado, todas as minúcias da floresta, as altas ramarias, as escarpas abruptas dos rochedos e as sinuosidades do caminho se iluminam. Admirável prestígio da cor! Em um instante tudo se anima, freme, palpita; o céu e a terra vibram em largo estremecimento. Acima da garganta estreita onde canta a torrente, a negra silhueta do pico d’Ossau se desenha nitidamente. E retomo o caminho do hotel, bendizendo as circunstâncias que me permitiram gozar tais espetáculos. Outras impressões me esperavam nos Alpes. Poder-se-ia dizer com razão que os Pireneus, por suas formas esbeltas, arrojadas, elegantes, representam o tipo feminino da montanha. Eles têm freqüentemente o encanto e a graça da mulher. Um véu ligeiramente adorna suas frontes soberbas. Outras vezes, jorros de luz os transfiguram, transformando-os em montanhas-fadas. Os Alpes, com suas formas maciças, sua potente ossatura, lembram de preferência o tipo masculino. Eles simbolizam a força, a duração, a grandeza austera, parecendo os marcos gigantescos que determinam as fronteiras do Tempo e da Eternidade. Quando se contempla pela primeira vez o Monte Branco, esse gigante solitário cujo cimo domina a Europa, sente-se o homem como que esmagado diante dessa imensa brancura semelhante a um sudário. Com efeito, sua aparência é a da morte. Entretanto, sob esse manto de gelo, esconde-se uma vida sempre ativa, quente, fulgurante, que se manifesta e difunde pelas fontes ferventes de Saint-Gervais. Adicionai as cinqüenta léguas de geleiras que coroam os Alpes, seus vastos reservatórios subterrâneos, que dão nascimento aos maiores rios do Ocidente, vertendo a fecundidade sobre tantas planícies, e tereis um aspecto de tal cadeia formidável. No maciço do Oisans, a sensação não é menos viva que no Monte-Branco. Do belvedere da Tête-de-Meie, vê-se alevantar uma floresta inteira de picos e de agulhas, um rendado completo de granito. No dia em que subi, as geleiras resplandeciam, fundindo-se lentamente sob os ardores do Sol; de toda parte jorravam as torrentes e as cascatas. A passagem das águas, engolfando-se no solo, produzia um ruído surdo, que variava de hora em hora, segundo o volume da massa líquida. Ao redor de mim, o deserto; tão longe quanto a vista pudesse alcançar, nem um ente humano. O silêncio impressionante das alturas me envolve. Não se ouve senão o murmúrio das águas e as queixas do vento que agita as ervas e as florinhas alpestres. Uma flora maravilhosa se ostenta nessas alturas. Eis a edelveiss e a agrinete de haste frágil. Campânulas balançam suas graciosas campainhas. Mais longe, é a genciana azul, bordada de negro, tão altiva em suas atitudes, a soberba anêmona amarela, tão apreciada pelos botânicos. Depois, é a dafné, a orquídea, a digitalis, vinte espécies de que ignoro os nomes; em uma palavra, todo um pequeno mundo vegetal se expande sob esse céu de fogo. O ar se embalsama. Fechando o horizonte, o Meije, esse terrível “comedor de homens”, mostra seus contrafortes potentes, coroados por um diadema de neve e de gelo. O Pelvoux, o Barra dos Escrínios, outros cimos ainda, erigem-se qual família de titãs disposta em semicírculo. Eis-nos na Grande Chartreuse. Passei muitos dias nesse asilo de paz e de recolhimento. Explorei-lhe os arredores, passeando sob as abóbadas sombrias da floresta que o encerra, escutando a canção das torrentes, os grandes órgãos dos ventos nas ramadas, as vozes longínquas dos pastores e dos lenhadores. Os sons do sino do mosteiro me chegavam às asas da brisa; suas vibrações, em ondas sonoras, iam morrer e renascer, e depois perder-se no fundo das gargantas e nas encostas das montanhas. De todos os lados a vista é limitada por grandes cimos calvos, ásperos, nus, batidos pelas tempestades. Mas o pensamento do Absoluto, do Infinito, envolve estes montes, e o olhar de Deus pousa por sobre todas as coisas. No grande silêncio do claustro, ressoam lentamente as horas no relógio. Quantas Almas sacudidas pelas tempestades da vida têm vindo buscar ali o repouso e o esquecimento! Essa mística cristã, que as atraía, tem profundezas de abismos que fascinam. Sem dúvida ela se perde em muitos pontos e se afasta das realidades invisíveis. Cria no cérebro do crente todo um mundo de ilusões, de quimeras supersticiosas impostas pela tirania dos dogmatistas. Entretanto, ela não é sem beleza. Nas épocas de ferro e de sangue, a vida monástica era o único refúgio para uma Alma delicada e estudiosa. Mesmo nos tempos modernos, podia ser, até certo ponto, um meio de encaminhamento para as coisas superiores, uma preparação para o Além. Eis por que, desse santuário alpestre, irradiam sobre todo o país benéficas influências. Já há algum tempo, os monges desapareceram, a Chartreuse foi abandonada; o sítio perdeu seu prestígio religioso. Da tribuna reservada aos visitantes, assisti ao ofício da meia-noite. Três fracas luzes espaçadas na nave da capela esbatem sozinhas a obscuridade profunda. Os chartreuses chegam, um a um, munidos de pequena lanterna, e ganham suas cadeiras. Os salmos começam: invocações, gritos de chamamento de Almas em sofrimento: Deus in adjutorium meum intende! “Meu Deus, vinde em meu socorro! Senhor, apressai-vos, eu sucumbo!” Esta lamentação do velho Job, que atravessou os séculos, parece resumir toda a dor humana. É a queixa dos corações partidos, de todos aqueles que se desatam desta Terra de provações, em que não vêem mais que desesperança, abandono, exílio, para buscar, no seio do Pai, auxílio, consolação. Esses monges austeros, que deixam o duro grabato para se unirem em pensamento à Humanidade sofredora, esses cânticos de tristeza pungente, que retinem à hora em que todos repousam, tudo isso é comovente.
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Título A montanha (impressões de viagem)
Parte Segunda
Título da Parte O Livro da Natureza