Síntese da Doutrina Espírita
Esse livro, que apenas pudemos anunciar em nosso último número, é um resumo dos princípios mais essenciais da Doutrina Espírita. Compõe-se, em sua maior parte, de citações textuais tomadas das obras fundamentais, e de exemplos tirados de O Céu e o Inferno, próprios a dar, sobre as conseqüências da maneira pela qual se emprega a vida, uma idéia mais justa, mais racional, mais satisfatória e, sobretudo, mais conforme à justiça de Deus que a doutrina das chamas eternas. O autor não faz de seu livro uma questão de amor-próprio, nem de interesse. Espírita fervoroso e devotado, publicou-o sobretudo com vistas a propagar a Doutrina nos campos de seu Departamento; a modéstia de seus pontos de vista não impede que esse livrinho possa ser muito útil em outros lugares. o Eis o relato que o Journal d’Amiens, de 29 de dezembro de 1867, deu desse opúsculo. Fazemo-lo seguir da carta dirigida pelo Sr. Loth, a propósito desse relato, ao autor do artigo, e que o mesmo jornal publicou em seu número de 17 de janeiro. Síntese da Doutrina Espírita Eis um livrinho bastante curioso, escrito por um aldeão de Saint-Sauflieu. É verdade que o autor morou muito tempo em Paris, e foi nesta cidade que pôde entrar em contato com os apóstolos do Espiritismo. Como nos interessamos por todas as publicações de nossa região, quisemos travar conhecimento com esta obra. Haviam-nos dito que a obra do Sr. Florent Loth tinha sido posta no índex, nas comunas vizinhas de sua aldeia; esta notícia excitou a nossa curiosidade e nos decidimos a ler a Síntese da Doutrina Espírita. A gente gosta mesmo do fruto proibido. Quanto a nós, que não temos o menor interesse em censurar ou aprovar a obra do autor, diremos francamente, para nos pormos à vontade, que não acreditamos no Espiritismo, que não damos nenhum crédito às mesas girantes ou falantes, porque à nossa razão repugna admitir que objetos materiais possam ser dotados da menor inteligência. Também não acreditamos no dom da segunda vista, ou, melhor dizendo, na faculdade de ver através de paredes espessas, ou de distinguir a grandes distâncias o que se passa ao longe, isto é, a várias centenas de léguas. Enfim, para continuar nossas confissões preliminares, acrescentamos que não temos nenhuma fé nos Espíritos que voltam, e que o homem, mais ou menos inspirado, não tem o poder de evocar e, sobretudo, de fazer falarem as almas dos mortos. Dito isto, para limpar o terreno de tudo o que não entra em nossos pontos de vista, reconhecemos que o livro do Sr. Florent Loth não é uma obra má. Sua moral é pura, o amor do próximo aí é recomendado, a tolerância para as crenças alheias nele é defendido: isto explica a boa saída desta obra. Mas dizer que adeptos convictos da Doutrina Espírita, com todas as suas partes admitidas, se formarão em conseqüência da leitura da obra do nosso compatriota, seria avançar um fato que não se realizará. No que nos parece razoável e, falemos claro, ter senso comum, segundo a melhor acepção destes termos, há coisas excelentes. Assim, certos abusos são repelidos com razões evidentes, claras e precisas; e se o autor procura convencer, é sempre pela doçura e pela persuasão. Portanto, deixando de lado tudo quanto se liga às práticas materiais do Espiritismo, práticas nas quais não acreditamos absolutamente, poder-se-ia retirar da leitura do livro em questão muito boas noções de moral, de tolerância e de amor pelo próximo. Sob esse ponto de vista, aprovamos inteiramente o Sr. Florent Loth e não compreendemos o interdito lançado contra o seu opúsculo. A Síntese da Doutrina Espírita será um dia proibida pela Congregação do Índex, cuja sede está em Roma? É uma questão ainda não resolvida, porque este livrinho não está destinado a transpor nossas fronteiras picardas. Contudo, se o fato se desse, o Sr. Florent Loth recolheria por sua obra uma notoriedade na qual jamais deverá ter pensado. Quanto às experiências físicas do Espiritismo, deixemos falar aqui o Sr. Georges Sauton, um dos nossos confrades, o qual no Liberté de quarta-feira, 11 de setembro de 1867, assim se exprimia sobre uma sessão espírita realizada em Paris, em casa de um doutor em Medicina: “O doutor F... amealhou certa fortuna. Ele a consome fazendo sessões espíritas, que lhe custam muito caro em velas e em médiuns. “Ontem à noite ele havia convidado a imprensa para a sua reunião mensal. Esses espíritos deviam ser interrogados a respeito do zuavo Jacob e dizer sua maneira de pensar relativamente a esse interessante militar. O Sr. Babinet, do Instituto, havia prometido honrar a reunião com a sua presença; pelo menos o anfitrião, pelas cartas de convite, o tinha deixado entender. “Albert Brun, Victor Noir e eu fomos à casa do doutor. Nada, absolutamente nada do Sr. Babinet. “Dez pessoas em volta de uma mesa faziam girar o móvel, que girava mal; trinta outras, entre as quais muitos condecorados, as olhavam.” “Os Espíritos, sem dúvida indispostos, foram reticentes no falar. Apenas se dignaram imitar o ruído da serra, dos martelos dos tanoeiros e dos ferreiros batendo nos tonéis e na bigorna. Pediram-lhes que cantassem A mulher de barba e Tenho bom tabaco, mas eles não cantaram. Intimaram-nos a fazer uma pêra saltar no ar, mas a pêra não saltou.” Nada acrescentaremos a este pequeno e espirituoso relato. Terminemos por um extrato do prefácio do autor, no qual a parte moral de suas idéias é exposta: “O Espiritismo não tem a pretensão de impor sua crença; só pela persuasão é que ele espera chegar ao seu objetivo, que é o bem da Humanidade. Liberdade de consciência: assim, creio firmemente na existência da alma e na sua imortalidade; creio nas penas e recompensas futuras; creio nas manifestações dos Espíritos, isto é, nas almas dos que viveram nesta Terra ou em outros mundos; e creio nisto em virtude do direito que tem o meu vizinho de não crer; mas me é tão fácil provar-lhe a minha afirmação, quanto lhe é impossível me provar a sua negação, porque a negação dos incrédulos não é uma prova. O fato, dizem eles, é contrário às leis conhecidas. Pois bem! é que repousa sobre uma lei desconhecida; não se podem conhecer todas as leis da Natureza, porque Deus é grande e tudo pode!... “Pessoas malévolas espalharam o boato que o Espiritismo era um obstáculo ao progresso da religião. Essas pessoas, mais ignorantes do que realmente piedosas, não conhecendo absolutamente a Doutrina, nem podem apreciá-la nem julgá-la. “Nós dizemos, nós, e ainda provamos, que o ensino dos Espíritos é muito cristão, que se apóia na imortalidade da alma, nas penas e recompensas futuras, na justiça de Deus e na moral do Cristo.” A citação desta profissão de fé pelo autor será suficiente para dar a conhecer a sua maneira de ver. Cabe ao leitor apreciar a obra de que falamos. Fazendo este relato, apenas quisemos constatar um fato: é que em nossa província da Picardia, o Espiritismo tinha encontrado um defensor fervoroso e convicto. Não admitimos todas as idéias do autor. Esperamos que, em virtude de sua doçura, que ele não se aborreça com a nossa franqueza. Enquanto a paz pública não for perturbada por doutrinas ímpias, enquanto a ordem social não for abalada por máximas subversivas, nossa tolerância fraternal nos fará dizer o que aqui dizemos do livro do Sr. Florent Loth: Paz às consciências! Respeito às crenças do próximo! M. A. Gabriel Rembault “Senhor Diretor, “Eu vos serei reconhecido se quiserdes inserir em vosso jornal minha reposta à crítica do Sr. Gabriel Rembault sobre a minha Síntese da Doutrina Espírita, artigo que apareceu em 29 de dezembro último. “Não quero travar polêmica com o Sr. Gabriel Rembault; não estou à altura de seu talento de escritor, talento incontestável que todos lhe reconhecem; mas que me permita lhe demonstrar as razões que me levaram a escrever este livro. Antes de tudo, devo reconhecer que a crítica do Sr. Gabriel Rembault é cortês e polida; emana de um homem convencido, mas não irritado. Oh! não posso dizer o mesmo de outros críticos, que lançam o anátema aos espíritas por insultos e palavras grosseiras! Nada compreendo dessa demonstração de ódio e de injúrias, dessas palavras malsonantes de loucos e de patifes, que nos lançam à face e que só inspiram profundo desgosto às pessoas decentes. Entretanto, esses homens intolerantes sabem perfeitamente que, segundo os princípios de nossa sociedade moderna, todas as consciências são livres e têm o direito a um respeito inviolável. “Perdoai-me esta digressão, senhor Diretor, como perdôo a esses insultadores; perdôo-lhes de todo o coração e peço a Deus que se digne esclarecê-los sobre a caridade. Deveriam praticar melhor essa virtude evangélica para com o próximo. “Volto ao meu assunto. “Foi pelo estudo, pela meditação e sobretudo pela prática, que adquiri a prova de certos fatos físicos, até aqui encarados como sobrenaturais. É pelo fluido universal que se pode explicar os fenômenos do magnetismo. Esses fenômenos não podem mais ser contestados hoje; é graças ao mesmo fluido que o Espírito transpõe o espaço, possui a dupla vista, é dotado da penetração etérea, à qual não poderia opor-se a opacidade dos corpos. Esses fenômenos não são senão a libertação momentânea do Espírito. É verdade que a incredulidade não quer admitir esses fenômenos, mas constatações autênticas e numerosas já não permitem pô-los em dúvida. “Assim, as maravilhas de que acusam o magnetismo e o Espiritismo não passam, todas, de efeitos cuja causa reside nas leis da Natureza.
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Mês Fevereiro
Ano 1868