“E já que o Sr. Gabriel Rembault citou um artigo do jornal Liberté, eu me permito, por minha vez, citar uma passagem de um livro novíssimo – A Razão do Espiritismo – fruto de longos estudos de um honrado magistrado. Diz ele, na página 216: “Alguma vez teria Deus derrogado as leis que instituiu para levar sua obra a bom termo? Aquele que tudo previu não proveu a tudo? Como poderíeis pretender que a mediunidade, a comunicação dos Espíritos não seja conforme às leis da natureza do homem? E se a revelação é a conseqüência necessária da mediunidade, por que diríeis que é uma derrogação da lei de Deus, quando ela entraria ostensivamente nas vistas da Providência e da economia humana?
“Paro após esta citação. É um argumento no sentido oposto às idéias dos Sr. Gabriel Rembault, e que submeto à apreciação dos vossos leitores.
“Em resumo, estou de acordo com ele quando diz: ‘Paz às consciências! respeito às crenças do próximo!’
“Recebei, senhor Diretor, meus cumprimentos respeitosos.”
Florent Loth Saint-Sauflieu, 16 de janeiro de 1868 Ressalta do relato acima que o autor do artigo não conhecia uma palavra da Doutrina; como tantos outros, ele a julgava por ouvir dizer, sem se ter dado ao trabalho de ir ao fundo da questão e levantar o manto do ridículo, que a crença malévola ou mais ou menos interessada se deleitou em cobri-la. Fez como o macaco da fábula, que rejeitava a noz, porque apenas tinha mordido a casca verde. Se tivesse conhecido os seus primeiros elementos, não teria suposto os espíritas tão simplórios para crerem na inteligência de uma mesa, como ele próprio não acredita na inteligência da pena que, em suas mãos, transmite os pensamentos de seu próprio espírito. Como ele, os espíritas não admitem que objetos materiais possam ser dotados da menor inteligência; mas, como ele, sem dúvida, admitem que esses mesmos objetos podem ser instrumentos a serviço de uma inteligência. O livro do Sr. Loth não o convenceu, mas lhe mostrou o lado sério e as tendências morais da doutrina, e isto lhe bastou para compreender que a coisa tinha algo bom e merecia ao menos o respeito devido às crenças do próximo. Deu prova de louvável imparcialidade, inserindo imediatamente a retificação que lhe foi dirigida pelo autor.
O que o tocou não foram os fatos de manifestação, dos quais aliás pouco se trata no livro, mas as tendências liberais e anti-retrógradas, o espírito de tolerância e de conciliação da Doutrina.
Tal é, com efeito, a impressão que produzirá em todos os que se derem ao trabalho de a estudar. Sem aceitar a sua parte experimental que, para os espíritas, é a prova material da verdade de seus princípios, eles aí verão um poderoso auxiliar para a reforma dos abusos contra os quais se levantam todos os dias. Em vez de fanáticos de um novo gênero, verão em todos os espíritas, cujo número aumenta sem cessar, um exército que combate pelo mesmo objetivo, embora com outras armas. Mas, que lhes importam os meios, se o resultado é o mesmo?
Sua ignorância das tendências do Espiritismo é tal que nem mesmo sabem que é uma doutrina liberal, emancipadora da inteligência, inimiga da fé cega, que vem proclamar a liberdade de consciência e o livre-exame como base essencial de toda crença séria. Não sabem sequer que foi o primeiro a inscrever em sua bandeira esta máxima imortal: Fora da caridade não há salvação, princípio de união e de fraternidade universais, único que pode pôr um termo aos antagonismos dos povos e das crenças; enquanto o crêem puerilmente absorvido com uma mesa que gira, não suspeitam que a criança deixou os brinquedos pela armadura, que cresceu e que agora abarca todas as questões que interessam ao progresso da Humanidade. Não falta aos seus adversários desinteressados e de boa-fé senão conhecê-lo, para o julgar de modo diverso por que o fazem. Se refletissem na rapidez de sua propagação, que nada pode entravar, chegariam à conclusão de que não pode ser o efeito de uma idéia completamente oca; e mesmo que encerrasse uma única verdade, se essa verdade é capaz de mexer em tantas consciências, merece ser levada em consideração; que se causa tanto pavor em certo mundo, é que não o consideram como uma fumaça inútil.
O artigo referido acima constata, além disso, um fato importante: é que a interdição lançada contra esse livrinho pelo clero do interior serviu para o propagar, o que não podia deixar de ocorrer, tão poderosa é a sedução do fruto proibido. Pensa o autor do artigo, e com razão, que se fosse condenado pela congregação do Índex, sediada em Roma, adquiriria uma notoriedade não pretendida pelo Sr. Loth. Ele ignora que as obras fundamentais da doutrina tiveram esse privilégio, e que foi graças aos raios lançados contra a Doutrina em nome desse Índex que esses livros foram procurados nos meios onde eram desconhecidos. Fizeram esta reflexão muito natural: quanto mais forte trovejam, mais importante a coisa devia ser; leram-nos primeiro por curiosidade; depois, como ali encontrassem coisas boas, os aceitaram. Isto pertence à História.