XXI
Thomas Paine escrevia: “Ninguém há que, tendo-se ocupado com os progressos do espírito humano, não tenha feito a observação de que há duas classes bem distintas do que se chama idéias ou pensamentos: as que em nós mesmos se produzem pela reflexão e as que de si mesmas se precipitam em nosso espírito. Tomei para mim como regra acolher sempre com cortesia esses visitantes inesperados e investigar, com todo o cuidado de que era capaz, se eles mereciam a minha atenção. Declaro que é a esses hóspedes estranhos que devo todos os conhecimentos que possuo.” Emerson fala do fenômeno da inspiração nos seguintes termos: “Os pensamentos não me vêm sucessivamente como num problema de Matemática, mas penetram por si mesmos em meu intelecto, como um relâmpago que brilha na escuridão da noite. A verdade aparece-me, não pelo raciocínio, mas por intuição.” A rapidez com que Walter Scott, o bardo d'Aven, escrevia seus romances, era motivo de assombro para seus contemporâneos. A explicação do fato é ele mesmo quem fornece: “Vinte vezes encetei o trabalho depois de ter delineado o plano e nunca me foi possível segui-lo. Meus dedos trabalham independentes de meu pensamento. Foi assim que, depois de ter escrito o segundo volume de Woodstock, não tinha a menor idéia de que a história desenrolar-se-ia numa catástrofe no terceiro volume.” Falando de L'Antiquaire, diz também: “Tenho um plano geral, mas logo que pego na pena ela corre com muita rapidez sobre o papel, a tal ponto que muitas vezes sou tentado a deixá-la correr sozinha para ver se não escreverá tão bem como quando é guiada por meu pensamento.” Novalis, cujos Fragments e Disciples de Saïs ficarão entre os mais poderosos esforços do espírito humano, escrevia: “Parece ao homem que ele está empenhado numa conversa e que algum ser desconhecido e espiritual o determina, de maneira maravilhosa, a desenvolver os pensamentos mais evidentes. Esse ente deve ser superior e homogêneo, porque se põe em relação com o homem de tal maneira que não é possível a um ser sujeito aos fenômenos.” Convém lembrar também a célebre inspiração de Jean-Jacques Rousseau descrita por ele próprio e que tornou-se, por assim dizer, clássica: “Eu ia ver Diderot, prisioneiro em Vincennes. Tinha no bolso um Mercure de France, que me pus a folhear durante o caminho. Deparou-se-me a questão da Academia de Dijon, que motivou meu primeiro escrito. Se jamais alguma coisa se pareceu com uma inspiração sutil, foi o movimento que se operou em mim com essa leitura. De repente senti o espírito deslumbrado por mil luzes. Multidões de idéias vivas apresentam-se ao mesmo tempo com uma força e uma confiança que me lançaram numa perturbação inexprimível. Senti a cabeça tomada de um atordoamento semelhante à embriaguez. Violenta palpitação me oprimia e ansiava-me o peito. Não me sendo possível caminhar por não poder respirar, deixei-me cair debaixo de uma árvore da avenida e passei ali meia hora em tal agitação que, ao levantar-me, vi molhada de lágrimas toda a frente do paletó sem ter percebido que houvesse chorado. Oh! Se alguma vez me tivesse sido possível escrever a quarta parte do que vi debaixo daquela árvore, com que clareza teria feito ver todas as contradições do sistema social, com que força teria exposto todos os abusos de nossas instituições, com que simplicidade teria demonstrado que o homem é naturalmente bom... Tudo o que pude reter daquela massa de grandes verdades que, dentro de um quarto de hora, me iluminaram debaixo daquela árvore, foi facilmente disseminado em meus três principais escritos, a saber: este primeiro Discurso, o da Desigualdade e o Tratado da Educação... Tudo mais se perdeu e não houve, escrito no próprio lugar, senão a prosopopéia de Fabrícius.” O caso de inspiração mediúnica mais extraordinário, talvez, das tempos modernos é o de Andrew Jackson Davis, chamado também o vidente de Poughkeepsie. Essa personagem aparece ao alvorecer do Neo-Espiritualismo americano como uma espécie de apóstolo de forte relevo. Graças a uma faculdade que não teve rival, pôde exercer irresistível influência em sua época, nos Estados Unidos. Extraímos os seguintes pormenores da obra da Sra. Emma Harding, intitulada Espiritualismo Americano Moderno: “Na idade de 15 anos o jovem Davis tornou-se, primeiramente, célebre em Nova Iorque e no Connecticut por sua habilidade em diagnosticar as doenças e prescrever remédios, graças a uma admirável faculdade de clarividência. De temperamento franzino e delicado, o jovem médium possuía um grau de cultura intuitiva que compensava a ausência total de educação e uma facilidade de apresentação que não era de se esperar de sua origem muito humilde, porque era filho e aprendiz de um pobre sapateiro da terra. Havia sido por acaso magnetizado aos 14 anos por um certo Levingston, de Poughkeepsie, que, descobrindo que o aprendiz de sapateiro possuía admiráveis faculdades de clarividência e um dom extraordinário para curar as doenças, tirou-o da loja o fez seu sócio. Desde que o acaso fizera Levingston descobrir os dons maravilhosos do jovem Davis, o tempo deste último fora tão bem empregado que nem naquele momento, nem em época nenhuma de sua carreira, teve tempo disponível para acrescentar uma letra à sua instrução de campônio. A humildade de classe e os meios de seus pais privaram-no de toda possibilidade de cultura, salvo durante cinco meses em que freqüentou a escola da aldeia e os rudes camponeses dos distritos atrasados. A celebridade extraordinária a que chegou tornou públicas as menores particularidades de sua infância. Está, pois, averiguado que sua mais alta ciência, na época, pode-se dizer, de sua iluminação espiritual, limitava-se a saber ler, escrever e contar sofrivelmente, e toda a sua literatura se resumia num conto chamado Les troes espagnoles. Davis tinha 18 anos quando anunciou, ao círculo de admiradores a quem interessava sua clarividência, que ia ser instrumento de uma nova e admirável fase de poder espiritual, começando por uma série de conferências destinadas a produzir considerável efeito no mundo científico e nas opiniões religiosas da humanidade. Em cumprimento dessa profecia, começou ele uma série de conferências e escolheu para magnetizador o Dr. Lyon de Bridgeport, para secretário o Rev. William Fishbough, para testemunhas especiais o Rev. J. N. Parcker, R. Lapham, Esq. e o Dr. L. Smith, de Nova Iorque. Além dessas, muitas outras pessoas de alta posição ou de extensos conhecimentos literários e científicos eram convidadas de vez em quando a assistir àquelas conferencias. Assim se produziu a vasta miscelânea de conhecimentos literários, científicos, filosóficos e históricos, intitulada Divinas Revelações da Natureza. O caráter maravilhoso dessa obra, emanada de pessoa tão inteiramente incapaz de produzi-la nas circunstancia ordinárias, excitou a mais profunda admiração em todas as classes sociais. As Revelações não tardaram a seguir-se; Grande Harmonia, A Idade Presente e a Vida Interior. Junto às conferências de Davis, a seus trabalhos de editor, às associações que agrupou e à sua larga influencia pessoal, outras volumosas produções realizaram uma revolução completa nos Estados Unidos, nos espíritos de numerosa classe de pensadores chamados os advogados da filosofia harmônica, e essa revolução deve incontestavelmente sua origem ao pobre aprendiz de sapateiro. James Victor Wilson, de Nova Orleans, bem conhecido por seus trabalhos literários e autor de um excelente tratado de magnetismo, diz, falando das primeiras conferências: “Não tardará que Davis faça conhecer ao mundo a vitória da clarividência e será isto uma grande surpresa. “No decurso do ano passado, esse amável rapaz, sem educação, sem preparo, ditou dia a dia um livro extraordinário, bem concebido, bem ligado, tratando das grandes questões da época, das ciências físicas, da Natureza em todas as suas ramificações infinitas, do homem em seus inumeráveis modos de existência, de Deus no abismo insondável de seu amor, de sua sabedoria e de seu poder. “Milhares de pessoas, que o viram em seus exames médicos, ou em suas exposições cientificas, dão testemunho da admirável elevação de espírito que Davis possui no estado anormal. Seus manuscritos foram muitas vezes submetidos à investigação das mais altas inteligências do país, que se certificaram, da maneira mais profunda, da impossibilidade de ele ter adquirido os conhecimentos de que dava prova no estado anormal. O resultado mais claro da vida dessa personagem fenomenal foi a demonstração da clarividência e a gloriosa revelação de que a alma do homem pode comunicar espiritualmente com os Espíritos do outro mundo, como com os deste, e aspirar a adquirir conhecimentos que se estendem muito além da esfera terrestre.”
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Título A consciência – O sentido íntimo
Parte Terceira
Título da Parte As Potências da Alma