XXI
A alma, em sua expansão, pode quebrar a parede de carne que a encerra e comunicar por seus próprios sentidos com os mundos superiores e divinos. É o que têm podido fazer os videntes e os verdadeiros santos, os grandes místicos de todos os tempos e de todas as religiões. William James nota-o nestes termos:(205) “O mais importante resultado do êxtase é fazer cair toda a barreira levantada entre o indivíduo e o Absoluto. Por ele percebemos nossa identidade com o Infinito. É a eterna e triunfante experiência do misticismo, que se encontra em todos os climas e em todas as religiões. Todas fazem ouvir as mesmas vozes com imponente unanimidade; todas proclamam a unidade do homem com Deus.” Noutro lugar expõe também nestes termos suas vistas sobre o misticismo:(206) “Os estados místicos aparecem no sujet como uma forma de conhecimento; revelam-lhe profundezas insondáveis à razão discursiva; é uma iluminação de riqueza inexaurível, que, sente-se, terá em toda vida imensa repercussão. Chegados a seu pleno desenvolvimento, esses estados impõem-se de fato e de direito aos que os experimentam, com absoluta autoridade... Opõem-se à autoridade da consciência puramente racional fundada unicamente no entendimento e nos sentidos, provando que ela não é mais do que um dos modos da consciência.” William James pensa igualmente que os estados místicos podem ser considerados como janelas que dão para um mundo mais extenso e completo. O Espiritismo demonstra até certo ponto a exatidão dessas apreciações. A mediunidade, em suas formas tão variadas, é também a resultante de uma exaltação psíquica, que permite entrem os sentidos da alma em ação, substituam por um momento os sentidos físicos e percebam o que é imperceptível para os outros homens. Caracteriza-se e desenvolve-se segundo as aptidões que tem o sentido íntimo para predominar, de uma forma ou de outra, e manifestar-se por uma das vias habituais da sensação. O Espírito que desejar fazer uma comunicação reconhece, à primeira vista, o sentido orgânico que, no médium, lhe servirá de intermediário e atua sobre esse ponto. Umas vezes é a palavra ou também a escrita pela ação mecânica da mão; outras, é o cérebro, quando se trata da mediunidade intuitiva. Nas incorporações temporárias é a posse plena e a adaptação dos sentidos espirituais do manifestante aos sentidos físicos do sujet. A faculdade mais comum é a clarividência, isto é, a percepção, estando fechados os olhos, do que se passa ao longe, no tempo ou no espaço, no passado ou no futuro; é a penetração do Espírito do clarividente nos meios fluídicos onde são registrados os fatos consumados e onde se elaboram os planos das coisas futuras. A clarividência exerce-se as mais das vezes inconscientemente, sem preparação alguma. Nesse caso resulta da evolução natural do médium; mas é possível também provocá-la, assim como a visão espírita. Sobre esse assunto, o Coronel de Rochas exprime-se da maneira seguinte:(207) “Mireille descrevia-me assim os efeitos, sobre si, das minhas magnetizações: – Quando estou acordada, minha alma está aprisionada ao corpo e eu me sinto como uma pessoa que, encerrada no pavimento térreo de uma torre, não vê o exterior senão através das cinco janelas dos sentidos, tendo cada uma vidros de cores diferentes. Quando me magnetizais, livrais-me pouco a pouco das minhas cadeias e minha alma, que deseja sempre subir, penetra na escada da torre, escada sem janela, e não percebo que me guiais, senão no momento em que desemboco na plataforma superior. A minha vista estende-se em todas as direções com um sentido único muito aguçado que me põe em relação com objetos que ele não podia perceber através dos vidros da torre.” Pode-se também adquirir a clariaudiência, a audição das vozes interiores, modo de comunicação possível com os Espíritos. Outra manifestação dos sentidos íntimos é a leitura dos acontecimentos registrados, fotografados de algum modo na ambiência de um objeto antigo ou moderno. Por exemplo, um pedaço de arma, uma medalha, um fragmento de sarcófago e uma pedra de ruínas evocarão na alma do vidente uma série completa de imagens referentes aos tempos e aos lugares a que pertenceram esses objetos. É o que se chama psicometria.(208) Acrescentemos também a esses fenômenos os sonhos simbólicos, os premonitórios e mesmo os pressentimentos obscuros que nos advertem de um perigo do qual não desconfiamos. Já dissemos que muitas pessoas têm, sem o saberem, a possibilidade de comunicar com seus amigos do espaço por intermédio do sentido íntimo. Nesse grupo estão as almas verdadeiramente religiosas, isto é, idealizadas, em que as provações, os sofrimentos e uma longa preparação moral apuraram os sentidos sutis, tornando-os mais sensíveis às vibrações dos pensamentos externos. Muitas vezes, dirigiram-se a mim almas humanas aflitas para, do Além, solicitar avisos, conselhos, indicações que não me era possível proporcionar-lhes. Recomendava-as, então, a experiência seguinte que, às vezes, dava bom resultado: “Concentrai-vos – dizia-lhes eu – em retiro e no silêncio; elevai os pensamentos para Deus; chamai o vosso Espírito protetor, o guia tutelar, que Deus nos dá para a viagem da vida. Interrogai-o sobre as questões que vos preocupam, desde que sejam dignas dele, livres de todo o interesse vil; depois, esperai! Escutai em vós mesmos, atentamente, e, ao cabo de um instante, ouvireis nas profundezas de vossa consciência como que o eco enfraquecido de uma voz longínqua ou, antes, percebereis as vibrações de um pensamento misterioso que expulsará vossas dúvidas, dissipará vossas angústias, embalar-vos-á e consolará.” É essa, com efeito, uma das formas de mediunidade e não é das menos belas. Todos podem obtê-la, participando daquela comunicação dos vivos e dos mortos, que está destinada a estender-se um dia a toda a humanidade. Pode-se até, por esse processo, corresponder com o plano divino. Em circunstâncias difíceis de minha vida, quando hesitava entre resoluções contrárias a respeito da tarefa que me foi confiada, de difundir as verdades consoladoras do Neo-Espiritualismo, apelando para a Entidade Suprema, ouvia sempre ressoar em mim uma voz grave e solene que me ditava o dever. Clara e distinta, contudo, essa voz parecia provir de um ponto muito distante. Seu acento de ternura enternecia-me até às lágrimas. A intuição não é, pois, na maioria das vezes, senão uma das formas empregadas pelos habitantes do mundo invisível para nos transmitirem seus avisos, suas instruções. Outras vezes será a revelação da consciência profunda à consciência normal. No primeiro caso pode ser considerada como inspiração. Pela mediunidade o Espírito infunde suas idéias no entendimento do transmissor. Este fornecerá a expressão, a forma, a linguagem e, na medida de seu desenvolvimento cerebral, o Espírito achará meios mais ou menos seguros e abundantes para comunicar seu pensamento com todo o desenvolvimento e relevo. O pensamento do Espírito agente é uno em seu princípio de emissão, mas varia em suas manifestações, segundo o estado mais ou menos perfeito dos instrumentos que emprega. Cada médium marca com o cunho de sua personalidade a inspiração que lhe vem de mais alto. Quanto mais cultivado e espiritualizado é o intelecto do sujet, tanto mais comprimidos são nele os instintos materiais e com tanto mais pureza e fidelidade será transmitido o pensamento superior. A larga corrente de um rio não pode escoar-se através de um canal estreito. O Espírito inspirador não pode, semelhantemente, transmitir pelo organismo do médium senão aquelas de suas concepções que por ele puderam passar. Por um grande esforço mental, sob a excitação de uma força externa, o médium poderá exprimir concepções superiores a seu próprio saber; mas, na expressão das idéias sugeridas, encontrar-se-á seus termos preferidos, seus modos de dizer habituais, ainda que o estimulante que nele atua lhe dê, por momentos, mais amplitude e elevação a linguagem. Vemos, assim, quantas dificuldades, quantos obstáculos opõe o organismo humano à transmissão fiel e completa das concepções da alma e como é necessária uma longa preparação, uma educação prolongada para o tornar flexível e adaptá-lo às necessidades da Inteligência que o move. E isso não se aplica somente ao Espírito desencarnado que quer manifestar-se por meio de um intermediário humano, um médium, mas também à própria alma encarnada, cujas concepções profundas nunca conseguem vir plenamente à luz no plano terrestre, como o afirmam todos os homens de gênio e, particularmente, os compositores e poetas. A princípio, a inspiração é consciente; mas desde que a ação do Espírito se acentua, o médium acha-se sob a influência de uma força que o faz agir independentemente de sua vontade; ou então invade-o uma espécie de peso; velam-se-lhe os olhos e ele perde a consciência de si mesmo para passar a um domínio invisível. Nesse caso, o médium não é mais do que um instrumento, um aparelho de recepção e transmissão. Qual máquina que obedece à corrente elétrica que a põe em movimento, assim também obedece o médium à corrente de pensamentos que o invade. No exercício da mediunidade intuitiva, no estado de vigília, muitos desanimam diante da impossibilidade de distinguir as idéias que nos são próprias das que nos são sugeridas. Cremos, todavia, que é fácil reconhecer as idéias de origem estranha. Brotam espontaneamente, de improviso, como clarões súbitos que derivam de foco desconhecido; ao passo que nossas idéias pessoais, as que provêm do nosso cabedal, estão sempre à nossa disposição e ocupam de maneira permanente nosso intelecto. Somente as idéias inspiradas surgem como por encanto, mas se seguem, encadeiam-se por si mesmas e exprimem-se com rapidez, às vezes de maneira febril. Quase todos os autores, escritores, oradores e poetas são médiuns em certos momentos; têm a intuição de uma assistência oculta que os inspira e participa de seus trabalhos. Eles mesmos assim o confessam nas horas de expansão.
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Título A consciência – O sentido íntimo
Parte Terceira
Título da Parte As Potências da Alma