Infiltrando-se o Espiritismo cada vez mais nas idéias, e tendo já um lugar reservado entre as crenças reveladas, não está longe o tempo em que não será mais permitido a nenhum homem esclarecido ignorar, exatamente, o que é essa doutrina, do mesmo modo que hoje não pode ignorar os primeiros elementos das ciências. Ora, como ele toca em todas as questões científicas e morais, compreender-se-á melhor uma porção de coisas que, à primeira vista, aí pareciam estranhas. É assim, por exemplo, que o médico aí descobrirá a verdadeira causa de certas afecções, que o artista colherá numerosos temas de inspiração, que será em muitas circunstâncias uma fonte de luz para o magistrado e para o advogado.
É neste sentido que o aprecia o Sr. Jaubert, o honrado vice-presidente do tribunal de Carcassonne. Nele é mais que um conhecimento adicionado aos que possui, é uma questão de convicção, pois lhe compreende o alcance moral. Embora jamais tenha ocultado sua opinião a esse respeito, convencido de estar certo e da força moralizadora da doutrina, hoje que a fé se extingue no cepticismo, ele quis dar-lhe o apoio da autoridade do seu nome, no momento mesmo em que ela era atacada com mais violência, afrontando resolutamente a zombaria e mostrando aos seus adversários o pouco caso que faz de seus sarcasmos. Em sua posição e dadas as circunstâncias, a carta que nos pediu que publicássemos, e que inserimos no número de janeiro último, é um ato de coragem, do qual todos os espíritas sinceros guardarão preciosa lembrança. Ela marcará na História o estabelecimento do Espiritismo.
A carta seguinte, que igualmente estamos autorizados a publicar, tem lugar reservado ao lado da do Sr. Jaubert. É uma dessas adesões explícitas e motivadas, à qual a posição do autor dá tanto mais peso quanto é espontânea, já que não tínhamos a honra de conhecer esse senhor. Ele julga a doutrina tão-só pela impressão das obras, pois nada tinha visto. É a melhor resposta à acusação de inépcia e de trapaça lançada indistintamente contra o Espiritismo e seus aderentes.
21 de novembro de 1865.
“Senhor, “Permiti-me, como novo e fervoroso adepto, testemunhar-vos todo o meu reconhecimento por me terdes iniciado, pelos vossos escritos, à ciência espírita. Por curiosidade, li O Livro dos Espíritos; mas, após uma leitura atenta, a admiração, depois a mais inteira convicção sucederam em mim a uma desconfiada incredulidade. Com efeito, a doutrina que dele decorre dá a mais lógica solução, a mais satisfatória para a razão, de todas as questões que tão seriamente preocuparam os pensadores de todos os tempos, para definir as condições da existência do homem nesta Terra e determinar seus fins últimos. Esta admirável doutrina é, incontestavelmente, a sanção da mais pura e da mais fecunda moral, a exaltação demonstrada da justiça, da bondade de Deus e da obra sublime da criação, assim como a base mais segura e mais firme da ordem social.
“Não testemunhei as manifestações espíritas, mas este elemento de prova, de modo algum contrário aos ensinamentos de minha religião (a religião católica), não é necessário à minha convicção. Antes de mais, basta-me encontrar na ordem da Providência a razão de ser da desigualdade das condições nesta Terra, numa palavra, a razão de ser do mal material e do mal moral.
“Com efeito, minha razão admite plenamente, como justificando a existência do mal material e moral, a alma saindo simples e ignorante das mãos do Criador, enobrecida pelo livre-arbítrio, progredindo por provas e expiações sucessivas e não chegando à soberana felicidade senão adquirindo a plenitude de sua essência etérea, pela libertação completa das constrições da matéria, que, alterando as condições da beatitude, deve ter servido para o seu adiantamento.
“E, nesta ordem de idéias, que de mais racional que os Espíritos, nas diversas fases de sua depuração progressiva, se comuniquem entre si, de um a outro mundo, encarnado ou invisível, para se esclarecerem, se ajudarem mutuamente, concorrerem reciprocamente para o seu avanço, facilitarem suas provas e entrarem na via reparadora do arrependimento e da volta a Deus! Que de mais racional, digo eu, que numa tal continuidade, um tal fortalecimento dos laços de família, de amizade e de caridade que, unindo os homens em sua passagem por esta Terra, devem, como último objetivo, reuni-los um dia numa só família no seio de Deus!
“Que traço de união sublime: o amor partindo do céu, para abraçar com o seu sopro divino a Humanidade inteira, povoando o imenso Universo, e a reconduzir a Deus para fazê-la participar da beatitude eterna, do qual este amor é a fonte! Que de mais digno da sabedoria, da justiça e da bondade infinita do Criador! Que grandiosa idéia da obra cuja harmonia e imensidade o Espiritismo revela, ao levantar uma ponta do véu que ainda não permite ao homem penetrar-lhe todos os segredos! Quanto os homens não tinham restringido sua incomensurável grandeza, encerrando a Humanidade num ponto imperceptível, perdido no espaço, e não concedendo senão a pequeno número de eleitos a felicidade eterna reservada a todos! Assim, rebaixaram o divino artífice às proporções ínfimas de suas percepções, das aspirações tirânicas, vingativas e cruéis inerentes às suas imperfeições.
“Enfim, basta à minha razão encontrar nesta santa doutrina a serenidade da alma, coroando uma existência conformada às tribulações providenciais de uma vida honestamente preenchida pelo cumprimento de seus deveres e pela prática da caridade, a firmeza na sua fé, pela solução das dúvidas que restringem as aspirações para Deus e, finalmente, esta plena e inteira confiança na justiça, na bondade e na misericordiosa e paternal solicitude de seu Criador.
“Dignai-vos, senhor, contar-me no número dos vossos irmãos em Espiritismo, e aceitar, etc.”
Bonnamy, juiz de instrução Uma comunicação dada pelo Espírito do pai do Sr.
Bonnamy provocou a carta seguinte. Não reproduzimos essa comunicação por causa de seu caráter íntimo e pessoal, mas a seguir publicamos outra, que é de interesse geral.
“Senhor e caro mestre, mil vezes obrigado por ter tido a bondade de evocar meu pai. Há tanto tempo que não ouvia essa voz amada! Extinta para mim há tantos anos, ela revive hoje! Assim se realiza o sonho de minha imaginação entristecida, sonho concebido sob a impressão de nossa separação dolorosa. Que doce, que consoladora revelação, tão cheia de esperanças para mim! Sim, vejo meu pai e minha mãe no mundo dos Espíritos, velando por mim, prodigalizando-me o benefício dessa ansiosa solicitude com que me cercavam na Terra. Minha santa mãe, em sua terna preocupação pelo futuro, penetrando-me com seu eflúvio simpático para me levar a Deus e mostrar-me o caminho das verdades eternas, que para mim cintilavam num longínquo nebuloso!
“Como eu seria feliz se, conforme o desejo expresso por meu pai, de se comunicar novamente, sua comunicação pudesse ser julgada útil ao progresso da ciência espírita, e entrar na ordem dos ensinamentos providenciais reservados à obra! Assim eu encontraria, em vosso jornal, os elementos de instruções espíritas, por vezes misturados às doçuras das conversas familiares.
É um simples voto, bem o compreendeis, caro mestre; levo em grande conta as exigências da missão que vos incumbe, para fazer de tal voto uma prece.
“Dou plena autorização à publicação de minha carta.
De boa vontade levarei meu grão de areia à inauguração do edifício espírita; feliz se, ao contato de minha convicção profunda, as dúvidas de alguns se dissipassem e se os incrédulos pensassem em refletir mais seriamente!
“Permiti-me, caro mestre, dirigir-vos algumas palavras de simpatia e de encorajamento por vosso duro labor. O Espiritismo é um farol providencial, cuja luz deslumbrante e fecunda deve abrir todos os olhos, confundir o orgulho dos homens, comover todas as consciências; sua irradiação será irresistível. E que tesouros de consolação, de misericórdia e de amor, de que sois o distribuidor!
“Aceitai, etc.”
Bonnamy