O Homenzinho Ainda Vive – A Propósito do Artigo do Sr. Deschanel, Publicado no Journal des Débats
Então seria, desta vez, materializar o próprio Espírito, porquanto só a matéria pode afetar os nossos sentidos. Dizemos que o Espírito é revestido por um envoltório, que ele pode tornar visível e mesmo tangível à vontade. Só o envoltório é material, embora muito etéreo, o que nada tira às qualidades particulares do Espírito. Assim explicamos um fato até então inexplicado e, por certo, somos menos materialistas do que aqueles que pretendem ser o próprio Espírito que se transforma em matéria para se fazer ver e agir. Os que não acreditavam na aparição dos anjos da Bíblia podem agora acreditar, se acreditam na existência dos anjos, sem que isso lhes repugne a razão. Por isso mesmo podem compreender a possibilidade das manifestações atuais, visíveis, tangíveis e outras, desde que a alma ou Espírito possui um envoltório fluídico, se é que acreditam na existência da alma. Aliás, o Sr. Deschanel esqueceu uma coisa: expor a sua teoria da alma ou Espírito. Como homem judicioso deveria ter dito: Estais equivocado por esta ou aquela razão; as coisas não são tais quais dizeis; eis o que são. Só então teríamos algo sobre o que discutir. Mas é de notar que isto ainda não fez nenhum dos contraditores do Espiritismo: apenas negam, zombam ou injuriam. Não lhes conhecemos outra lógica, o que é muito pouco inquietante. Assim, absolutamente não nos preocupamos, porquanto, se nada propõem, é que aparentemente nada têm de melhor a propor. Só os sinceros materialistas têm um sistema definitivo: o nada após a morte. Desejamos que se divirtam muito, se isto os satisfaz. Infelizmente os que admitem a alma estão impossibilitados de resolver as mais vitais questões, apenas conforme sua teoria. É por isso que não têm outro recurso senão recorrer à fé cega, razão pouco concludente para os que gostam das razões, sendo grande o seu número neste século de luzes. Ora, os espiritualistas nada explicam de modo satisfatório para os pensadores, o que leva estes a concluir que nada existe e que os materialistas talvez tenham razão. É isto que conduz tanta gente à incredulidade, ao passo que essas mesmas dificuldades encontram solução muito simples e natural pela teoria espírita. O materialismo diz: “Nada há fora da matéria”. O espiritualismo diz: “Existe algo”, mas não o prova. O Espiritismo diz: “Existe alguma coisa”, e o prova; e, auxiliado por sua alavanca, explica o que até então era inexplicável. É o que faz que o Espiritismo reconduza tantos incrédulos ao espiritualismo. Não pedimos ao Sr. Deschanel senão uma coisa: expor claramente a sua teoria e responder, não menos claramente, às diversas perguntas que dirigimos ao Sr. Figuier. Em suma, as objeções do Sr. Deschanel são pueris. Se fosse um homem sério; se tivesse criticado com conhecimento de causa e não se houvesse exposto ao pesado equívoco de tachar o Espiritismo de doutrina materialista, por certo teria procurado aprofundar o assunto. Teria vindo nos encontrar, como tantos outros, pedir esclarecimentos que com prazer lhe daríamos; mas preferiu falar conforme suas próprias idéias, que sem dúvida encara como o supremo regulador, como a unidade métrica da razão humana. Ora, como sua opinião pessoal nos é indiferente, não nos preocupamos absolutamente em mudá-la, razão por que não demos um só passo nessa direção, nem o convidamos a nenhuma reunião, como a nenhuma demonstração. Se ele quisesse saber, teria vindo. Como não veio é porque não o queria, e não seríamos nós a querer mais do que ele. Outro ponto a examinar é este: Uma crítica tão virulenta e tão longa, fundamentada ou não, num jornal tão importante quanto o Débats, não poderia prejudicar a propagação das idéias novas? Vejamos. Antes de mais, é preciso observar que não se cuida de uma doutrina filosófica como de uma mercadoria. Se, apoiado em provas, um jornal afirmasse que tal comerciante vende mercadorias avariadas ou adulteradas, ninguém seria tentado a ir experimentar se aquilo era verdade. Mas toda teoria metafísica é uma opinião que, fosse ela do próprio Deus, encontraria contraditores. Não vimos as melhores coisas, as mais incontestáveis verdades de hoje serem postas ao ridículo quando de seu aparecimento pelos homens mais capazes? Isso as impediu de serem verdadeiras e de se propagarem? Todo mundo o sabe. Eis por que a opinião de um jornalista sobre questões desse gênero é apenas e sempre uma opinião pessoal; e se tantos sábios se enganaram sobre coisas positivas, o Sr. Deschanel pode muito bem equivocar-se sobre uma coisa abstrata. Por pouco que ele tenha uma idéia, mesmo vaga, do Espiritismo sua acusação de materialismo é a sua própria condenação. Disso resulta que se quer ver e julgar por si mesmo: é tudo o que pedimos. Sob esse aspecto, mesmo sem o querer o Sr. Deschanel prestou um verdadeiro serviço à nossa causa, pelo que lhe agradecemos, pois ele nos poupa despesas de publicidade; afinal, não somos ricos o suficiente para pagar um folhetim de 24 colunas. Por mais espalhado que esteja, o Espiritismo ainda não penetrou em toda parte; há muita gente que dele jamais ouviu falar. Um artigo de tal importância atrai a atenção, faz penetrar até mesmo no campo inimigo, onde causa deserções, porque se diz naturalmente que não se ataca assim uma coisa sem valor. Com efeito, a gente não se diverte apontando baterias formidáveis contra uma praça que se pode tomar a fuzil. Julga-se a resistência pela exibição das forças de ataque, e é o que desperta a atenção sobre coisas que talvez pudessem passar despercebidas. Isto não passa de raciocínio. Vejamos se os fatos o vêm contradizer. Julga-se do crédito de um jornal, das simpatias que encontra na opinião pública, pelo número de seus leitores. O mesmo deve dar-se com o Espiritismo, representado por algumas obras especiais. Só falaremos das nossas, porque lhes conhecemos o número exato. Pois bem! O Livro dos Espíritos, que passa por conter a mais completa exposição da doutrina, foi publicado em 1857; a 2a edição em abril de 1860; a 3a em agosto de 1860, isto é, quatro meses mais tarde; e em fevereiro de 1861 a 4a edição estava à venda. Assim, três edições em menos de um ano, provando que nem todo mundo é da opinião do Sr. Deschanel. Nossa nova obra, O Livro dos Médiuns, apareceu a 15 de janeiro de 1861 e já é preciso pensar em preparar uma nova edição. Foi pedido da Rússia, da Alemanha, da Itália, da Inglaterra, da Espanha, dos Estados Unidos, do México, do Brasil, etc. Os artigos do Journal des Débats apareceram em novembro último. Se tivessem exercido alguma influência sobre a opinião pública, teria sido precisamente sobre a Revista Espírita, que publicamos, que tal influência teria feito sentir-se. Ora, a 1o de janeiro de 1861, data da renovação das assinaturas anuais, havia um terço a mais de assinantes em relação à mesma época do ano precedente, e diariamente recebe novos que – coisa digna de nota – pedem todas as coleções dos anos anteriores, de modo que foi necessário reimprimi-las. Isto prova, portanto, que ela não parece assim tão ridícula. De todos os lados, em Paris, na província, no estrangeiro, formam-se reuniões espíritas. Conhecemos mais de cem delas nos Departamentos e estamos longe de as conhecer totalmente, sem contar todas as pessoas que disso se ocupam isoladamente ou no seio da família. Que dirão a isto os Srs. Deschanel, Figuier e gente da espécie? Que o número de loucos aumenta. Sim, aumenta de tal forma que em pouco tempo os loucos serão mais numerosos que as pessoas sensatas. Mas o que tais senhores, tão cheios de solicitude pelo bom-senso humano, devem deplorar, é ver que tudo quanto fizeram para deter o movimento produz resultado exatamente contrário. Querem saber a causa? É muito simples. Eles pretendem falar em nome da razão, e nada oferecem de melhor; uns dão como perspectiva o nada; outros, as chamas eternas: duas alternativas que agradam a muito pouca gente. Entre as duas escolhe-se a que é mais tranqüilizadora. Depois disso, senhores, ainda vos admirais de ver os homens se lançarem nos braços do Espiritismo? Acreditáveis matá-lo e nós tivemos de lhes provar que o homenzinho ainda vive e viverá por muito tempo. Tendo demonstrado a experiência que os artigos do Sr. Deschanel, longe de prejudicar a causa do Espiritismo, a serviram, ao excitar nos que dele ainda não haviam ouvido falar o desejo de o conhecer, julgamos supérfluo discutir cada uma de suas asserções. Todas as armas têm sido empregadas contra esta doutrina: atacaram-na em nome da religião, a que ela serve em vez de prejudicar; em nome da Ciência, em nome do materialismo; prodigalizaram-lhe, sucessivamente, a injúria, a ameaça, a calúnia, e ela a tudo resistiu, mesmo ao ridículo. Sob a nuvem das setas que lhe atiram, ela dá pacificamente a volta ao mundo e se implanta por toda parte, às barbas de seus inimigos mais encarniçados. Não está nisto matéria para séria reflexão e não é prova de que encontra eco no coração do homem, ao mesmo tempo em que se acha sob a salvaguarda de uma força contra a qual vêm aniquilar-se os esforços humanos?
TAG Valor
Mês Março
Ano 1861