O Sr. Émile Deschanel, cujo nome não nos era conhecido, houve por bem consagrar-nos vinte e quatro colunas do folhetim do Journal des Débats, nos números de 15 e 29 de novembro último. Nós lhe agradecemos o fato, mas não a intenção.
Com efeito, depois do artigo da Bibliographie catholique e o da Gazette de Lyon, que lançavam anátema e injúria à boca cheia, de maneira a fazer crer num retorno ao século XV, nada conhecemos de mais malévolo, de menos científico, sobretudo de mais longo, que o do Sr. Deschanel. Uma tão vigorosa investida deve ter-lhe feito pensar que o Espiritismo, por ele ferido a torto e a direito, deveria estar para sempre bem morto e enterrado. Como não lhe havíamos respondido, não lhe fizemos nenhuma intimação, não iniciamos com ele nenhuma polêmica extrema, pode ter-se equivocado quanto à causa do nosso silêncio. Devemos expor os motivos. O primeiro é que, em nossa opinião, nada havia de urgente e estávamos muito à vontade para esperar, a fim de julgar o efeito desse assalto e regular nossa resposta. Hoje, que estamos completamente informados a respeito, diremos algumas palavras.
O segundo motivo é conseqüência do precedente. Para refutar o artigo detalhadamente, teria sido preciso reproduzi-lo por inteiro, a fim de pôr à vista o ataque e a defesa, o que já teria absorvido um número da nossa Revista; só a refutação absorveria pelo menos dois números; teríamos, assim, três números empregados em refutar o quê? Razões? Não, apenas pilhérias do Sr.
Deschanel. Francamente, não valia a pena e nossos leitores preferem outra coisa. Os que desejarem conhecer a sua lógica poderão contentar-se lendo os números citados. E, depois, nossa resposta não teria sido mais que a repetição do que escrevemos, do que já respondemos ao jornal Univers, ao Sr. Oscar Comettant, à Gazette de Lyon, ao Sr. Louis Figuier e à Bibliographie catholique10, porque todos esses ataques não passam de variantes de um mesmo tema. Teria sido preciso, então, repetir a mesma coisa em outros termos para não ser monótono, e não teríamos tempo para isso. O que poderíamos dizer seria inútil para os adeptos e não seria bastante completo para convencer os incrédulos; portanto, trabalho perdido. Preferimos remeter às nossas obras os que queiram realmente esclarecer-se; eles poderão comparar os argumentos a favor e contrários: sua própria razão fará o resto.
Aliás, por que responderíamos ao Sr. Deschanel? Para convencê-lo? Mas isto não nos interessa absolutamente. Dir-se-á que seria um adepto a mais. Mas, o que nos importa a pessoa do Sr.
Deschanel, a mais ou a menos? Que peso pode ter na balança, quando as adesões chegam aos milhares, desde o alto da escala social? – Mas é um publicista e se, em lugar de fazer uma diatribe tivesse feito um elogio, não teria sido muito melhor para a doutrina? Esta é uma questão mais grave; vamos examiná-la.
Antes de mais, quem garantiria que o recém-convertido Sr. Deschanel teria publicado vinte e quatro colunas em favor do Espiritismo, como as publicou contra? Não o cremos, por duas razões: a primeira, porque teria temido ser levado ao ridículo por seus confrades; a segunda, porque o diretor do jornal provavelmente não as teria aceitado, com medo de intimidar certos leitores menos apavorados com o diabo do que com os Espíritos.
Conhecemos bom número de literatos e de publicistas que estão nesse caso e nem por isso são bons e sinceros espíritas. Sabe-se que a Sra. Emile de Girardin, que passa por ter tido alguma inteligência em vida, não só era muito crente, mas ainda muito boa médium e obteve inúmeras comunicações; mas ela as reservava para o círculo íntimo de seus amigos, que partilhavam suas convicções; aos outros não falava disto. Para nós, pois, um publicista que ousa bem falar contra, mas que não ousaria falar a favor, se estivesse convencido, não passa de simples indivíduo. E quando vemos uma mãe desolada pela perda de um filho querido encontrar inefáveis consolações na doutrina, sua adesão aos nossos princípios tem para nós cem vezes o preço da conversão de um ilustre qualquer, se esse ilustre nada ousa dizer. Aliás, os homens de boa vontade não faltam; são em grande quantidade e tantos vêm a nós, que apenas podemos lhes responder. Assim, não vemos por que perder o nosso tempo com os indiferentes e correr atrás dos que não nos procuram.
Uma só palavra dará a conhecer se o Sr. Deschanel é um homem sério. Eis o início de seu segundo artigo, publicado em 29 de novembro: “A Doutrina Espírita refuta-se por si mesma: basta expô-la. Depois de tudo ela não está errada por se chamar simplesmente espírita, porquanto nem é espírita nem espiritualista.
Ao contrário, baseia-se no mais grosseiro materialismo e só não é divertida porque é ridícula”.
Dizer que o Espiritismo é baseado num materialismo grosseiro, quando combate este sem tréguas, quando nada seria sem a alma, sua imortalidade, as penas e as recompensas futuras, das quais é a demonstração patente, é o cúmulo da ignorância daquilo de que se trata. Se não é ignorância é má-fé e calúnia.
Vendo essa acusação e ouvindo-o citar os textos bíblicos, os profetas, a lei de Moisés, que proíbe interrogar os mortos – prova de que podem ser interrogados, pois não se proíbe uma coisa impossível – poderíamos acreditá-lo de uma ortodoxia furibunda, mas lendo a facciosa passagem de seu artigo, que vamos transcrever, os leitores ficarão muito embaraçados para se pronunciarem a respeito de suas opiniões: “Como podem os Espíritos tornar-se patentes? Como podem ser vistos, ouvidos e apalpados? E como podem escrever eles próprios e nos deixar autógrafos do outro mundo? – “Oh! mas é que esses Espíritos não são Espíritos, como podeis crer; Espíritos puramente Espíritos. “O Espírito – ouvi bem isso – não é um ser abstrato, indefinido, que só o pensamento pode conceber; é um ser real, circunscrito, que, em certo caso, é apreciável pelos sentidos da visão, da audição e do tato.”
– “Mas, então, esses Espíritos têm corpos?
– “Não exatamente.
– “Mas, então?...
– “Há no homem três coisas: “1o O corpo, ou ser material, análogo aos animais, movido pelo mesmo princípio vital; “2o A alma, ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo; “3o O laço que une a alma e o corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.”
– “Intermediário? Que diabo quereis dizer? Ou se é matéria ou não se é.
– “Isto depende.
– “Como! isto depende!
– “Eis a coisa: o laço ou perispírito, que une o corpo e o Espírito, é uma espécie de envoltório semimaterial...”
– “Semi! semi!
– “A morte é a destruição do envoltório mais grosseiro; o Espírito conserva o segundo, que constitui para ele um corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, mas que acidentalmente pode torná-lo visível e mesmo tangível, como acontece no fenômeno das aparições.”
– “Etéreo, tanto faz; um corpo é um corpo. Isto significa dois. E a matéria é a matéria. Sutilizai-a tanto quanto o quiserdes, e lá dentro não há semi nenhum. A própria eletricidade não passa de matéria, e não semimatéria. E quanto ao vosso...
Como chamais isto?
– “O perispírito?
– “Sim, vosso perispírito... eu acho que ele nada explica e que ele mesmo necessita de uma boa explicação.
– “O perispírito serve de primeiro envoltório ao Espírito e une a alma ao corpo. Tais são, num fruto, o germe, o perisperma e a casca... O perispírito é tirado do meio ambiente, do fluido universal; participa, ao mesmo tempo, da eletricidade, do fluido magnético e, até certo ponto, da matéria inerte...
Compreendeis?
– “Não muito.
– “Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria.
– “Por mais quintessencieis, daí não tirareis Espírito, nem semi-espírito; vosso perispírito é pura matéria.
– “É o princípio da vida orgânica, mas não o da vida intelectual.
– “Enfim, é o que quiserdes; mas vosso perispírito é tanta coisa, que não sei bem o que ele seja; poderá muito bem nada ser”.
Ao que parece, a palavra perispírito vos ofusca. Se tivésseis vivido ao tempo em que foi inventada a palavra perisperma, provavelmente também o tivésseis achado ridículo. Por que não criticais os que são inventados diariamente para exprimir idéias novas? Não é a palavra que critico, direis vós, é a coisa. Seja, por que jamais o vistes; mas negais a alma, que também nunca vistes?
Negais a Deus, que igualmente jamais vistes? E então? se não se pode ver a alma ou o Espírito, que é a mesma coisa, pode-se ver o seu envoltório fluídico ou perispírito, quando está livre, como se vê o seu envoltório carnal quando ela está encarnada.
O Sr. Deschanel esforça-se por provar que o perispírito deve ser matéria; mas é o que dizemos com todas as letras. Por acaso seria isto que o faz dizer que o Espiritismo é uma doutrina materialista? Mas a própria citação que ele faz o condena, pois dizemos em termos apropriados, sem as suas facécias espirituosas, que o perispírito não passa de um envoltório independente do Espírito. Onde nos ouviu dizer que é o perispírito que pensa? Vá lá que ele não queira o perispírito; mas que nos diga como explica a ação do Espírito sobre a matéria sem intermediário? Não falaremos das aparições contemporâneas, nas quais por certo não acredita; mas já que é tão aferrado à Bíblia, cuja defesa faz com tanto fervor, é que crê na Bíblia e no que ela diz. Que, então, nos explique as aparições dos anjos, dos quais ela faz menção a todo instante.
Segundo a doutrina teológica, os anjos são Espíritos puros; mas quando se tornam visíveis, dir-se-á que é o Espírito que se mostra?