Questões e Problemas – Manifestação do Espírito dos animais
Entre os animais domésticos e os homens as afinidades são produzidas pelas cargas fluídicas que vos cercam e sobre eles recaem. É um pouco a Humanidade que se distingue sobre a animalidade, sem alterar as cores de uma ou de outra. Daí esta superioridade inteligente do cão sobre o instinto brutal do animal selvagem e é somente a essa causa que poderão ser devidas essas manifestações que vos acabam de ler. Assim, não se enganaram ouvindo um grito alegre do animal reconhecido pelos cuidados de seu dono, o qual veio, antes de passar ao estado intermediário de um desenvolvimento a outro, trazer-lhe uma lembrança. A manifestação, portanto, pode ocorrer, mas é passageira, porque o animal, para subir um degrau, precisa de um trabalho latente, que aniquila, em todos, qualquer sinal exterior de vida. Esse estado é a crisálida espiritual, onde se elabora a alma, perispírito informe, não tendo nenhuma figura reprodutiva de traços, irrompendo num estado de maturidade para deixar escapar, nas correntes que a arrastam, os germes de almas que aí se originam. Assim, pois, ser-nos-ia difícil falar-vos dos Espíritos de animais do espaço: eles não existem; ou, melhor, sua passagem é tão rápida como se nula fosse e, no estado de crisálida, não poderiam ser descritos. Já sabeis que nada morre da matéria que sucumbe. Quando um corpo se dissolve, os diversos elementos de que é composto reclamam a parte que lhe deram: oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono voltam ao seu foco primitivo para alimentar outros corpos. Dá-se o mesmo com a parte espiritual: os fluidos organizados espirituais tomam, de passagem, cores, perfumes, instintos, até a constituição definitiva da alma. Compreendeis bem? Talvez eu precisasse explicar-me melhor, mas, para terminar esta noite, e não vos deixar supor o impossível, eu vos asseguro que o que é do domínio da inteligência animal não pode ser reproduzido pela inteligência humana, isto é, que o animal, seja qual for, não pode expressar seu pensamento pela linguagem humana; suas idéias são apenas rudimentares. Para ter a possibilidade de exprimir-se, como faria o Espírito de um homem, precisaria de idéias, conhecimentos e um desenvolvimento que não tem, que não pode ter. Tende, pois, como certo, que nem o cão, nem o gato, nem o burro, nem o cavalo, nem o elefante podem manifestar-se por via mediúnica. Só os Espíritos chegados ao grau da Humanidade podem fazê-lo, e ainda em razão de seu adiantamento, porquanto o Espírito de um selvagem não vos poderá falar como o de um homem civilizado. Observação – Estas últimas reflexões do Espírito foram motivadas pela citação, feita na sessão, de pessoas que pretendiam ter recebido comunicações de diversos animais. Como explicação do fato precitado, sua teoria é racional e concorda, no fundo, com a que hoje prevalece nas instruções dadas na maioria dos centros. Quando tivermos reunido documentos suficientes, resumi-los-emos num corpo de doutrina metódico, que será submetido ao controle universal. Até lá, são apenas balizas postas no caminho, para o esclarecer. Considerações sobre os Ruídos de Poitiers 19 Extraídas do Journal de la Vienne, de 22 de novembro de 1864 Conhece-se a lógica dos adversários do Espiritismo. A passagem seguinte, de um artigo assinado por David, de Thiais, fornece uma amostra. “Amigo leitor, “Como eu, deveis ter em vosso escritório uma pequena brochura (in-8o) do Sr. Boreau, de Niort, cujo título – Como e por que me tornei espírita – traz o fac-símile do autógrafo da escrita direta de um Espírito familiar. “É a mais curiosa das histórias: a de um homem sincero, convicto, amante das coisas elevadas, mas que diviniza suas ilusões e incessantemente corre atrás dos sonhos, crendo captar a realidade. Perseguindo com Jeanne, a sonâmbula, um tesouro enterrado num antigo campo de batalha da Vandéia, ele encontra, em vez do ouro que lhe é prometido, Espíritos trapaceiros, malévolos, temíveis, que quase matam de terror a sua companheira e o expõem às mais dolorosas angústias. De repente ele se torna espírita, como se as aparições que o obsediam reproduzissem os milagres da lâmpada maravilhosa e, ao mesmo tempo, lhe prodigalizassem todos os bens do corpo e da alma. “É preciso que a ficção seja uma das maiores necessidades do gênio humano, para que semelhantes crenças se tornem possíveis. “Há aí gênios farsistas, que zombam; Espíritos cruéis, que ameaçam e batem; Espíritos grosseiros, com a boca sempre a injuriar, e a gente se pergunta o que eles vêm fazer aqui, já que a morte não os burilou em seu temível crisol. “Aí também se entretêm com parelhas e quadrinhas de um bom anjo, que não trouxe do céu os segredos de sua poesia, mostrando o quanto uma idéia preconcebida nos leva longe no caminho das ilusões. “Em matéria de Espiritismo, o Sr. Boreau tem a fé ingênua do homem simples; chega mesmo a gostar dos que o batem e o molestam. Nada temos a dizer quanto a isto, tanto mais quanto sua brochura contém páginas muito divertidas, provando que pode dispensar facilmente os Espíritos exteriores, pois o seu lhe deve bastar muito bem. “Diremos apenas que os fatos que ele relata não são de ontem. A gente ainda se recorda da emoção que se apoderou da cidade de Poitiers, quando da formidável artilharia ouvida na Rua Saint-Paul, no ano passado. Uma longa procissão de curiosos rodou durante oito dias em volta dessa casa assombrada pelo demônio; a polícia ali estabeleceu o seu quartel-general e cada um espreitou o voejar dos Espíritos, na esperança de surpreender os segredos do outro mundo; mas só viram fogo. Os Espíritos só se revelam aos crentes fazendo todo o barulho do mundo. (Revista Espírita, fevereiro, março e maio de 1864). “Coisa estranha, leitor! essas paragens parecem ter o monopólio desta raça barulhenta e zombeteira. “Gorre, célebre médico alemão, morto em 1836, ensina no tomo III de sua Mística – pelo menos é o que diz Guillaume d’Auvergne, bispo de Paris, falecido em 1249 – que, pelo mesmo tempo, um Espírito batedor se havia introduzido numa casa do dito bairro de Saint-Paul, em Poitiers, e que ali jogava pedras e quebrava os vidros. “Pierre Marmois, professor de teologia em nossa universidade, autor do Flagellum maleficorum, conta o que se passava, em 1447, na Rua Saint-Paul, numa casa na qual certo Espírito, entregando-se às suas evoluções ordinárias, lançava pedras, mudava os móveis de lugar, quebrava os vidros e até batia nas pessoas, embora delicadamente, sem que fosse possível descobrir como atuava.
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Mês Maio
Ano 1865