estranhas proezas e, munido de velas bentas e acesas, água benta e água gregoriana, percorreu todos os aposentos da casa, aspergindo-os e exorcizando-os.
“Mas todos os exorcismos foram impotentes; nenhum diabo se mostrou. Contudo, a partir daquele momento, o Espírito maligno deixou de se manifestar20.
“Assim, com alguns séculos de distância, os mesmos fenômenos espíritas se repetem três vezes na mesma cidade e no mesmo bairro. Mas, que se deve concluir disto? Absolutamente nada.
Com efeito, não há qualquer conseqüência importante a tirar de um ruído vão, de brincadeiras pueris, de fatos lamentáveis que, evidentemente, não podem ser atribuídos aos Espíritos, corpos imponderáveis que, pairando sobre o mundo, devem escapar às enfermidades humanas, aproximando-se incessantemente da luz e da bondade de Deus.
“Aliás, esta questão não está em discussão. Cada um é livre de escolher os seus Espíritos, de os adorar à sua maneira, de lhes emprestar uma virtude, um poder, um caráter conforme às suas aspirações. Somente preferimos, aos gênios um tanto materiais da escola moderna, as criações encantadoras, nascidas da poesia dos dias antigos e que, marchando fraternalmente com o homem no limite dos dois mundos, lhes davam tão docemente a mão, para os aproximar das fontes da vida imortal e da felicidade sem-fim.
“Para nós, nenhum Espírito batedor valerá essas adoráveis imagens pintadas pelo gênio de Ossian sobre as nuvens vaporosas do Norte, cujas harpas melancólicas ainda fazem vibrar tão bem as fibras mais íntimas do coração. Quando a alma levanta vôo, tem o cuidado de aliviar suas asas e repele tudo quanto as pode tornar mais pesadas.”
Somos reconhecidos ao autor deste artigo por nos haver dado a conhecer esse fato notável, que ignorávamos, do mesmo fenômeno, reproduzido na mesma localidade com intervalo de vários séculos. Sem o suspeitar, ele não podia servir melhor à nossa causa, porque desta repetição ele pretende tirar um argumento contra as manifestações. Parece-nos que em boa lógica, quando um fato é único e isolado, não se lhe pode deduzir conseqüência absoluta, já que pode ser devido a uma causa acidental, ao passo que, quando se repete em condições idênticas, é que depende de uma causa constante; em outras palavras, de uma lei. Buscar essa lei é dever de todo observador sério, porque ela pode levar a descobertas importantes.
Que, apesar da duração, do caráter especial e das circunstâncias acessórias dos ruídos de Poitiers, algumas pessoas tenham persistido em os atribuir à malevolência, compreende-se até certo ponto; porém, quando se repetem pela terceira vez, na mesma rua, com vários séculos de distância, haverá, por certo, matéria para reflexão, porque, se há mal-intencionados, é pouco provável que em tão longo intervalo tenham escolhido precisamente o mesmo lugar para teatro de suas façanhas.
Entretanto, que concluir disto? Diz o autor: Absolutamente nada.
Assim, de um fato que emociona toda uma população, várias vezes repetido, não há nenhuma conseqüência importante a tirar!
Realmente, é uma lógica muito singular! “São ruídos vãos, divertimentos pueris que, evidentemente, não podem ser atribuídos aos Espíritos, corpos imponderáveis que, pairando sobre o mundo, devem escapar às enfermidades humanas, aproximando-se incessantemente da luz e da bondade de Deus.” Então o Sr. David crê nos Espíritos, já que descreve os seus atributos com tanta precisão.
Onde hauriu tais conhecimentos? Quem lhe disse que os Espíritos são tais quais ele os imagina? Tê-los-á estudado para decidir assim tão categoricamente a questão? Diz ele que os Espíritos “devem escapar às enfermidades humanas”; às enfermidades corporais, sem dúvida; mas às enfermidades morais, também? Então ele crê que o homem perverso, o assassino, o bandido, o mais vil dos malfeitores e ele estarão no mesmo nível quando forem Espíritos?
De que lhes terá servido ser honestos durante a vida, desde que, após a morte, sê-lo-ão como se o tivessem sido? Uma vez que os Espíritos se aproximam incessantemente da luz e da bondade de Deus, o que é mais verdadeiro do que talvez creia o autor, então houve um tempo em que eles estavam longe, porque, para se aproximar de um objetivo, é preciso que dele se tenha afastado.
Onde o ponto de partida? Só pode estar no oposto da perfeição, isto é, na imperfeição. Seguramente não são Espíritos perfeitos que se divertem com semelhantes coisas. Mas se os há imperfeitos, que há de espantoso que cometam malícias? Do fato de planarem sobre o mundo, segue-se que dele não se possam aproximar? Seria supérfluo levar mais longe essa refutação. Sendo mais ou menos equivalentes todos os argumentos dos nossos adversários, nem mesmo teríamos refutado este artigo, não fosse o precioso documento que encerra e pelo qual novamente agradecemos ao autor.