Atenção, pois, para essas ideias fixas. Por mais voltas que dê o Espírito, mesmo com a intenção consciente de ocultar sua motivação, ele não conseguirá isso por muito tempo. No entanto, é preciso ajudá-lo a quebrar o terrível círculo vicioso em que se debate. Veja bem: ajudá- lo a quebrar, não quebrar, arrancá-lo à força. Ele tem que sair com seu próprio esforço. Ajudar a fazer não é o mesmo que fazer, pelos outros, aquilo que lhes compete realizar. Por outro lado, a fixação é, às vezes, tão pronunciada e tão absorvente, que o Espírito não tem condições, sequer, de ouvir o doutrinador, ou, pelo menos, não reage de maneira inteligível ao que este lhe diz. Isto não significa que o doutrinador deve calar-se; continue a falar-lhe, que as palavras irão insensivelmente se depositando nele, e mesmo que ele pareça não ouvir — e isso ocorre, mesmo,
em certos casos — seu próprio espírito sente as vibrações fraternas que sustentam as palavras. Se é que o doutrinador realmente sente o que fala ou, melhor ainda, fala o que de fato sente.
Aguarde-se, pois, o momento de ajudá-lo a sair um pouco de si mesmo. Tem que haver, na sua memória, outras lembranças, outros sentimentos e até mesmo outras angústias, além daquela que constitui o núcleo da sua problemática. Coloque, de vez em quando, uma pergunta diferente, procurando atraí-lo para outras áreas da sua memória. Como, por exemplo: teve filhos?
Que fazia para viver? Crê em Deus? Onde viveu? Quando aconteceu o drama? Tem noticias de amigos e parentes daquela época?
É claro, porém, que essas perguntas não devem ser desfechadas numa espécie de bombardeio ou de interrogatório. Ninguém gosta de submeter-se a devassas íntimas. Com frequência, os manifestantes reagem, perguntando se estão sendo forçados a processos inquisitoriais. Ou, simplesmente, se recusam a responder. Ou dão respostas evasivas... respondem.
Nem sempre estarão prontos para nos ajudarem a ajudá-los, logo nos primeiros contactos.
O processo pode alongar-se por muito tempo, até que adquiram confiança em nós e nas nossas intenções. O objetivo das perguntas não é, obviamente, o de satisfazer a uma curiosidade malsã e, por isso, devem limitar-se a conduzir a conversação, fornecendo-lhe pontos de apoio, sobre os quais ela possa expandir-se, a fim de afastar o pensamento do comunicante, ainda que temporariamente, do núcleo central que o bloqueia e o impede até mesmo de buscar a saída daquele círculo de fogo e lágrimas em que se encerrou inadvertidamente. Não nos esqueçamos, porém, de que espontaneamente ele não sairá, não porque não queira, mas porque não sabe. Sua vingança é a própria razão de ser de sua vida; como vai entregá-la a alguém — a um desconhecido bisbilhoteiro, como o doutrinador — a troco de uma realidade penosa, que é aquele momento patético em que ele descobre que a causa da sua dor está em si mesmo, e não na pessoa que ele persegue e odeia?
Além das fixações penosas, os Espíritos conturbados costumam apresentar cacoetes, sob a forma de trejeitos e contrações, ou, ainda, mutilações e deformações perispirituais. É certo que tudo isso está ligado ao problema interior que os atormenta. Já tivemos oportunidade de observar esses pormenores, aparentemente irrelevantes, de muitas maneiras e sob variadas condições.
Vamos a alguns exemplos: citei alhures, neste livro, o episódio do pobre irmão que tinha um braço paralisado. Notei que durante o diálogo ele não movimentava aquele membro. Por que seria? No momento que me pareceu oportuno, sem precipitação, perguntei-lhe o que havia com o seu braço.
Ele não quis dizer. Ou, provavelmente, nem saberia conscientemente a razão, porque costuma funcionar, nestes casos, um mecanismo de defesa, que parece construir uma barricada às nossas costas, para levar-nos a um conveniente esquecimento do passado. Simplesmente “esquecemos” das causas que nos levaram àquela situação, para poder fixar-nos no objeto do ódio e da vingança.
Não sei, ao certo, se ele sabia a razão da paralisia de seu braço. Se sabia, tentava ignorá-la.
Quando me propus a curá-lo por meio de passes, ele recusou — sem muita convicção — dizendo que, se ficasse curado, seria apenas para ter mais um braço para empunhar o chicote - -. - Mesmo assim, levantei-me, orei e dei-lhe passes ao longo do braço imobilizado, e vi logo que ele reagia, sentindo o impacto dos fluídos que o alcançavam. E, realmente, ficou bom, voltando a movimentar o braço. Só então, ao que parece, foi possível liberar o seu mecanismo de censura, e ele se lembrou da cena de um passado distante, quando sacrificou, a punhal, a esposa e os filhos, que ele acreditava não fossem seus, pois achava que ela o havia traído. Exposto o âmago do problema, seu drama resolveu-se. Outro sentia, ainda, a dor aguda de uma lança que o penetrara há séculos, quando terminou uma existência de inconcebíveis desatinos. Continuava preso ao local onde exercera um poder discricionário, a ouvir os comentários de visitantes e turistas sobre suas
próprias atrocidades. Um terceiro tinha a voz rouca — seria um antigo câncer? —e quase inaudível. Sua “cura”, por meio de passes, levou-o a um reexame bem menos apaixonado da figura de seu doutrinador, que ele chamara até de porco! Outro companheiro desorientado conservava feia cicatriz sobre o olho direito, porque ela lhe dava uma aparência terrível, que atemorizava aqueles a quem ele queria perseguir e afligir.
Em uma oportunidade, tivemos também um caso, intensamente dramático, de um pobre sofredor, guilhotinado na França, durante a Revolução. Desde então — segundo apuramos em seguida — trazia a cabeça “destacada do corpo”, na mão direita, segura pelos cabelos. O diálogo inicial foi difícil, pois convicto de que estava sem cabeça, ele não tinha condições de falar. A custo, porém, o fui convencendo de que podia falar através do médium. Vivia apavorado ante a ideia de perder de vista a cabeça e nunca mais recuperá-la.
Enquanto a tivesse ali, à mão, mesmo decepada, alimentava a esperança de “repô-la” no lugar. Isto foi possível fazer, com a graça de Deus. Oramos e lhe demos passes. Subitamente, ele sentiu que a cabeça voltara à sua posição correta. Louco de alegria, ele apalpava-se e só sabia repetir:
— Ela está aqui! Ela está aqui!...
E conferia, com a ponta dos dedos, toda a anatomia facial e craniana: os olhos, o nariz, a boca, as orelhas. Estava tudo lá. E dizia:
— Posso falar! Estou falando!
Queria saber quem fizera o “milagre” de “colar” a cabeça novamente no lugar próprio.
Quanto ao que lhe acontecera, não acreditava que Deus o tivesse feito, para castigá-lo, pois Deus não permitiria que um homem andasse sem cabeça por tanto tempo. Levo-o cautelosamente para uma introspecção, tentando fazer que ele encontre em si mesmo a razão do seu espantoso sofrimento. Explico-lhe que vivemos muitas existências, embora as esqueçamos. Em alguma de suas vidas anteriores ele encontraria a explicação.
“Provavelmente”, digo-lhe, “você andou também cortando a cabeça de alguém”. É verdade, isso. Ele se lembra, agora, que eram enfieis a Jeová e, depois de condenados, ele os executava. Reviu até a fila de espera...
Casos mais sérios de deformações espirituais exigem o concurso de médiuns especiais, não apenas para recebê-los, por incorporação, como, também, para ajudar na recomposição da forma “física”, para o que é necessário dispor de algum ectoplasma, além dos passes habituais.
Mesmo para o companheiro a que há pouco nos referimos, de cabeça decepada, o concurso de um médium de efeitos físicos foi decisivo. Enquanto lhe dávamos passes, ele parecia absorver os fluídos avidamente, procurando impregnar-se deles, com movimentos aflitivos das mãos.
Em outros casos de deformações perispirituais e zoantropia, o médium expeliu realmente grande quantidade de ectoplasma pela boca, o que se percebeu, mesmo sem a vidência, pelos movimentos irreprimíveis que fazia como se estivesse vomitando em seco.
Ainda falaremos sobre a ectoplasmia nos grupos mediúnicos, porque ela tem outras aplicações, além da, que há pouco mencionamos, de ajudar a reconstituir lesões perispirituais e recompor seres reduzidos a formações animalizadas.
*
Mas o diálogo prossegue. Suponhamos já ter sido possível identificar o núcleo principal do problema. Já descobrimos as razões fundamentais do seu drama. Não obstante, muito falta ainda para dissolver e dispersar aquele núcleo doloroso. Mesmo com tudo isso presente à sua
consciência, ele ainda insiste em racionalizar a seu jeito, o quadro que se lhe apresenta. Continua a submetê-lo ao seu próprio juízo e a invocar o seu direito à cobrança.
Já discutimos alguns aspectos teóricos desta questão. Teoricamente, sim, ele pode cobrar.
Não que tenha um direito assegurado nos códigos divinos, porque a ideia de direito implicaria, talvez, a da impunidade. Não sei se os juristas que me leem concordam com isto, mas parece que não podemos ser punidos por exercer uma ação que o direito nos assegura. É claro que não falo aqui no direito humano, imperfeita imitação dos conceitos superiores do Direito Cósmico, do qual conhecemos as primeiras letras. Creio que, se Deus me assegurasse o direito de cobrar, impunemente, pela vingança, uma falta cometida contra mim, sua lei não teria sido muito melhor do que a nossa. Não obstante, tanto numa, como noutra, existe a ideia básica da reparação. A sociedade humana tenta a reparação pelos caminhos da punição; a divina, pela regeneração.
O criminoso terreno deve pagar pelo que fez, independentemente do que acontece com aquele a quem ele prejudicou. A lei humana não toma conhecimento da sobrevivência do espírito.